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Em Uma Tarde de Tantos Desejos...

... Ela vestia nuvens pernas acima. A observação partiu de um rapazote, notando a saia alvíssima da moça à sua frente na célere condução que partia rumo ao centro, levando consigo tanto do imponderável da realidade.

Enjaulado pela linguagem

Escreve-lhe esse animal aborrecido pela linguagem. Enjaulado pelas listras de sol que toldam os edifícios da cidade, ressentindo-se de nossos diálogos, agora restritos, presa de intervalos obrigatórios e de um tempo escasso diante das necessidades de uma existência que não combina bem com o sonho da literatura. Porque o força a tornar-se tão estéril quanto ela que deverá ter seu término na campa, enquanto esse outro se evade para os campos celestes e abriga-se sob as túnicas dos deuses que se ocupam brevemente dele para saber com que deliram os homens. E certos de que não sonhamos as mesmas paisagens, porque a enfeitamos com mais cor e acossa-nos a mortalidade, passam os deuses a sonhar com esses delírios tão voláteis quanto nossa matéria e anseiam ser como nós – fugidios.

Impressões sobre o conto O Olhar da Bissetriz

Meu Caro Irmão Anderson, Embora não seja habitual minha manifestação acerca do que leio através de carta não posso furtar-me da utilização de meio tão arcaico para transmitir as impressões exatas que me sobrepujaram após a leitura de seu trabalho, acertadamente o conto “O Olhar da Bissetriz”. Este de uma execução atilada sob a perspectiva que você resolveu adotar para nortear sua criação do livro homônimo – isto se não encontrou outro nome para batizá-lo, enquanto repousava nesta outra plaga, embalado pelo ciciar dos coqueiros e da melíflua voz de mulher amada – retomo depois de minha divagação, a perspectiva do duplo. É certo que deve ter notado que me faço opinar semelhantemente a natureza formal do conto: uma epístola. Este condicionamento já o posiciona modernamente entre os gêneros caros ao pós-modernismo que se valeu dessas formas para elevá-las em seus status à categoria de alta literatura. O pós-modernismo é um blefe, porque tal procedimento já pode ser detectado em obras de ra...

Correspondência Ficcional - Exercício

R., Nossa convivência real estará sempre mais adiantada que a virtual. O motivo é que não passamos tanto tempo de nossas vidas ligadas a internet,o que é um mérito, porque nos dedicamos a outras tarefas. Isso é legal, porque cria outra área de convivência, menos apressada e curta como é a jornada de trabalho. Se você não se referisse ao e-mail – se eu o havia mandado ou não – juro que não me atreveria a lhe perguntar se havia lido. Julguei que a tivesse aborrecido com meu “primeiro contato amistoso”. Afinal, eu estou tantas vezes na sua frente, porque não falar diretamente? O motivo é a concentração em nossas tarefas e a imersão de cada um de nós no que realizamos. Não sei o que é – e nem é oportunismo o que vou declarar – contudo há algo calmo em você que me agrada, algo ordenado e tranquilo, escorrendo suave de suas mãos. Desprendendo-se lento de sua voz e emanando com uma luz que brilha sem violentar o objeto que ilumina. Pode ser apenas aquilo que é em mim ausente o p...

497 Expresso Lapa

O 497 faz o trajeto Penha – Cosme Velho. Corta a maior parte dos subúrbios da Zona da Leopoldina. Não carrega apenas os trabalhadores pendulares, em seu deslocamento diários de casa/trabalho/trabalho/casa. Nas noites de quinta a domingo, reserva lugar no que transporta para o amor. Não apenas os jovens que escolhem a Lapa como ponto de encontro para diversão e azaração. Há um público muito mais maduro que também se enfileira. E divide o território com os mais novos. Todos atravessam a catraca do coletivo. Confiantes, elegantes, vestidos com apuro. Mas com um papo diferente sobre o destino que decifrarão em breve, sobre a região alvo e palco de sua jornada. Pouco tem em comum suas memórias e as dos mais jovens, pontuando que o bairro em comum que têm como destino, mudou. Os jovens se intrometem na conversa. E, na apuração que fazem sobre a interseção de suas lembranças, percebe-se, talvez, que muito do que o público mais velho carrega é o que se insinua nos rostos dos mais novos. O públ...

Internacionalização

A revista Sexy picotada sobre a mesa. Vários cartões postais da cidade do Rio de Janeiro acompanhando os recortes. A montagem se dá por mãos hábeis, americanas, que descrevem a cidade como um paraíso para o pecado. Para a internacionalização do pênis. Insistem que este é o único tipo de turismo que interessa nos países de terceiro mundo. Ou, como queiram, países em desenvolvimento. Acertam um par de seios cortados por um canivete multiuso; é o Sol encimando o Pão de Açúcar. Oswaldo de Andrade já havia se referido ao morro como um seio que o céu suga. Portanto, a erotização da paisagem não é novidade nenhuma. Se não fossem americanos comuns, trabalhadores braçais que tem sorte com sua moeda levando vantagem na balança comercial, talvez fossem tomados por artistas plásticos irreverentes. Tratam de colar parte do corpo de Ana Saad em um postal de Copacabana, como se as nuvens e todo o céu contidos naquela nesga de carne flutuante testemunhassem uma conquista. Rabiscam algumas palavras aca...

Max Gehringer Genérico de Minha Consciência

O empregado comum percebe um soldo de 01 (um) ou 02 (dois) salários acompanhado de benefício que pode ser o vale – transporte ou o ticket – refeição. Ambos com o custo dividido, constado em folha de pagamento, com o patrão. São benefícios válidos para o trabalhador mais pobre e o auxilia a suprir neste intervalo em que se encontra empregado as necessidades mais urgentes e ligadas à preservação do próprio emprego: estar alimentado para não cair doente e chegar no horário correto. Isto significa: não dar prejuízos à empresa e aumentar o seu lucro. Na lógica capitalista isto é o correto: uns detém a força de trabalho e outros o meio de produção. Alguns setores remuneram melhor. Não que seja uma medida que os coloque acima das exigências do mercado, isto está fora de cogitação. É porque envolvem mais responsabilidades, mais riscos, interferindo diretamente sobre a vida da empresa, em sua percepção de valores. Não é generosidade, é necessidade. Porque o empregado bem remunerado diminui o ri...