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Momento Literário

Se interrogado por João do Rio, restringiria minhas respostas ao mínimo. Não negaria contribuição ao livro Momento Literário, porque representa importante panorama de uma literatura brasileira. Lá, sem dúvida, presenciam-se acertos. Inglês de Sousa é um deles. Talvez com o livro errado – O Missionário -, e não com Contos Amazônicos. Coelho Neto, Olavo Bilac e Rocha Pombo integram a constelação de escritores integrados ao projeto de mapeamento do autor de Religiões do Rio. Machado de Assis e Aluísio de Azevedo não responderam ao jornalista acerca de suas preferências e demais informações a respeito de sua formação literária. Uns fiapos, soltou Machado, em conversa em trajeto no centro do Rio. Negou-se a continuar quando se viu atraiçoado pelas próprias palavras, entrando no jogo de João do Rio e sua enquete. Aluísio de Azevedo silenciou, completamente. Daqui, desse século, o XXI, atravessado com custo, limitaria minha resposta a alguns autores em desuso. Já, em algum lugar, confessei-...

Boi no Pasto

Meu único comentarista desistiu da interlocução.  O anonimato  parece que o protegia, permitindo um à vontade maior para suas blagues. Talvez não tenha outro, além dele, para um debate positivo acerca das convicções cada vez  mais acuadas pela realidade e pela estupidez humana. Aliás,  a realidade e a estupidez humana não são sinônimos? Não é o homem que constrói objetivamente o que é realidade   para a maioria de nós? Cada vez crescem mais os números de visitantes como também as perguntas sobre origem, interesse, classe social e orientação sexual dos leitores. Em exercício de imaginação, estático,  observo os números e tento traduzi-los em rostos de diferentes cores, diferentes sexos e idiomas diferentes. Quando acesa a região norte-americana - fato constante -, penso Kansas, Michigan, Ohio ou Washington?  Quando o Alasca não me furto de imaginar um esquimó, num iglu, ou alguém em uma cabana numa floresta  congelada.  A Alemanha quando surg...

Advertência

Os comentários foram desbloqueados com intuito da descoberta dos leitores internacionais. Resultou inútil. Surgiram comentários anônimos, três para ser exato, que se não são ofensivos, não revelam a origem do comentarista. Parecem que foram postados por mim. Excetuando-se a ironia da última comparação, Peter Kien. Ou até mesmo ela, porque reforça um caráter de autocomicidade ou coisa pior. Valeu, Peter Kien, último comentário sem identificação de usuário, em uma postagem em que assumo minha fragilidade intelectual, corrigida a custo, pareceu-me desrespeitosa. E o comentarista, além de erudição, tinha informação sobre um judeu – desconhecido por mim – com bastantes traços em comum, porque em minha juventude desenhei com desenvoltura e talento. Não o pratico mais, mas em meu bairro natal, Pavuna, muitos testemunhos podem ser colhidos a esse respeito para a confirmação de minhas palavras. A ideia de liberação dos comentários foi da interação amistosa entre o escritor e o público, sem s...

Minha Educação

À minha educação deficitária juntei esforços para corrigi-la o melhor que pude. Tornei-me, muito jovem, leitor. Apliquei-me aos livros, ao estudo da língua, à literatura. No colégio primário, Otávio Kelly, havia uma estante de livros do qual me ocupava constantemente. O hábito perseguiu-me, tornei-me leitor, compulsivo. As lacunas educacionais, sem modéstia, diminuíram bastante. O acréscimo de ter acesso ao nível superior, aperfeiçoando minhas inclinações, favoreceu-me o espírito, apesar de escorá-lo em valores equívocos. Em meu acesso à universidade não existiam as políticas de cotas, nem o otimismo petista de mobilidade social ou a tal classe média alardeada. A única forma de acesso à faculdade era o vestibular. Atravessei tudo isso, cioso de minha tarefa: desasnar-me. O herói grego, Hércules, deveria ter entre os seus trabalhos, esse de que me ocupei. Tenho certeza de que preferiria mil estábulos, mil leões de Nemeia... O reconhecimento de meu esforço intelectual, apesar da legiti...

Acerca de um comentário

O blogue recebe poucos comentários. Entre eles, às vezes, coisas surpreendentes se insinuam. Não por representarem elogio – o que é comum -, mas por pontuarem com sensibilidade aspectos que se não me dizem respeito, ligando-se pouco em ou em nada, à minha personalidade, revelam erudição dos leitores. Em Dez anos de Prosas Cariocas, recebo com surpresa a afirmação “Singular mistura de Lima Barreto, Rubem Fonseca e Lucien Chardon de Rubempré...” Se os dois primeiros objetos da comparação são familiares, compreensíveis para um leitor médio, o último termo – a personagem ficcional de Balzac – assinala a percepção diferenciada do comentarista cuja identificação não é possível. Lucien Chardon de Rubempré , personagem de Ilusões Perdidas, mostra que o, a comentarista teve contato com a Comédia Humana ou de um dos episódios que a compõem. Em seguida, em nove palavras, traça a crítica a respeito do livro aniversariante: “Alguns textos são bons, mas há muita, muita viagem” . A sentença, embora...

Seis Mil

Seis mil pessoas espiam a minha solidão. Doze mil olhos, seis mil bocas, doze mil ouvidos Ansiosos pelo modo como rezo a minha prece, Pelo modo como movo meus lábios, Pelo jeito que me deito no vazio.

Um bolero

Para J.A.V  Sonhei com você está noite. Parece começo de um bolero. Não é. Estive com você nos lugares que costumávamos frequentar e perambulamos sem rumo como tantas vezes o fizemos. Talvez descobríssemos, assim, um sentido maior para vida. Trocávamos confissões como dois enamorados. Não nego que homens também se enamoram. Parece ridículo como uma carta de amor, como um bolero dentro de uma noite sem fim. Você sabe que somos ridículos assim separados. Não sonho com nenhum outro rapaz, pareço uma garotinha apaixonada. E se sonhei com você talvez você tenha sonhado comigo... É uma esperança. Uma letra ruim, canção sentimental. A vida é uma letra ruim de uma canção sentimental que poderíamos voltar a cantar a dois. Num dueto meloso. Muita coisa aconteceu, cometi crimes e não tinha cúmplices. Você não estava aqui. Sonhei com você está noite. Parece começo de um bolero, ruim. Por que não recomeçar? Eu não tenho medo. Você tem? Nesse sonho fazíamos um longo trajeto de ônibus. ...