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Uma História - rascunho

Os cartazes fixados no DPO são fotocópias ruins; pretendem, através de números telefônicos e endereços eletrônicos, coletar informações sobre os inúmeros desaparecidos da constelação do mural. A maior parte dos dados revela enfermidade, mas, se observados os cartazes, os outros apenas diluíram-se na multidão da cidade, embora portadores de registros de identidade e cadastros de pessoa física. E nunca mais fizeram contato com a família. O táxi aproxima-se; não temos, em termos exatos, nesse final de ano, o número de pessoas que saíram de casa e não retornaram a ela. O taxista, após nosso embarque, interessado, ouve o relato de que muitos desaparecidos - excetuando-se mortos e deficientes mentais - trocam de identidade, constituem nova vida e nunca mais se voltam para a existência abandonada. O taxista surpreende com um relato radical: após a morte materna cortou os laços familiares, mesmo com o restante dos parentes vivos, optou por adotar um anonimato incomum: sem filhos, ...

Observações sobre Carta ao Pai

“A liberdade para alguns indivíduos parece um erro da natureza. Precisam corrigi-lo pelo temor de agirem por si mesmos”. I. Kafka é uma criatura despótica. Entretanto, toda sua violência no livro mencionado soa afetiva – parece isto ao leitor ingênuo cuja redução à vítima do redator é a perspectiva adotada. A tirania do afeto em Kafka perpetua-se até hoje porque sua peça literária, com centenas de edições ao redor do mundo, serve com eficácia ao seqüestro da figura paterna.  Ele, o livro, está aqui na minha frente – feérico – e com um partido a ser tomado: o do jovem violado em sua sensibilidade. II. Carta ao Pai, embora um documento unilateral, quando relido, parecemos ouvir subjacente às suas linhas as reprimendas do pai de Kafka. E na maior parte das vezes, na leitura dos contos desse mesmo autor, a autocomiseração kafkiana invade negativamente a construção da identidade paterna. Sabemos que nenhuma relação íntima é pacífica, mas Kafka parece desejar o...

Três postagens do Facebook

I. Quando criança, numa casa que ficava além da linha do trem, em Pavuna, quando ainda existia a cancela ferroviária, minha mãe costumava freqüentar a casa de uma senhora cuja filha se chamava Raquel. Não me parecia a uma criança normal, porque introvertido, era difícil minha socialização, e qualquer relação além das ordens habituais a que uma criança é submetida, era um esforço sobre-humano. E nunca fiz questão de ir além de mim mesmo, o que me custou a seguinte conversa entre os adultos: - Maria Emília ele é normal? Nenhuma mãe quer um filho anormal e como saída para o constrangimento, despertou-me do alheamento com uns sopapos - que tiveram efeito apenas enquanto aplicados. Recaí, outra vez, em um ostracismo interior, em uma indiferença quase mística, como repúdio ao mundo real. Na escola primária, Otávio Kelly, juntamente a um garoto mais esperto, Renato, que me achava insólito, limpava as mesas do refeitório enquanto as aulas corriam. Renato, assim que o tempo se extinguia, s...

Reflexões escritas no whatsaap

Somos selvagens, no sentido mais nocivo que o termo pode adquirir. Inventamos a civilização para a educação de nosso ódio. J.J. Rosseau está errado quando toma a natureza do homem como predominantemente boa. Thomas Hobbes é que está correto -, somos vis. Reconhecendo nossa vileza, inventamos entraves para obstruí-la, às vezes sem sucesso.  Freud chamou a isso de repressão. A civilização é a contenção de nossas pulsões destrutivas. Devemos nos orgulhar dos valores humanísticos criados por nós e ter ainda maior força para persegui-los. Dispomos de uma humanidade que precisa ser constantemente alcançada, renovada e reinventada. ---------------------------------------------------------------------------------------------------- Em meados da última década, em leitura atenta do leninismo, em especial sobre a narrativa do ódio na ex-URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), lembro-me de minha introdução aos escritos do mentor da Revolução de Outubro, embora m...

Ó Minas Gerais...

MARIANA Na última chamada Antes do dilúvio, Misturada à lama, – Sob o entulho – Está a santa. Olhos enegrecidos.

Com a palavra: Ronaldo Costa Fernandes

"Caro Mariel, Li e gostei muitíssimo dos seus poemas. Poesia existencial, densa, elaborada e simples ao mesmo tempo, delicada, de construção engenhosa. Terá dificuldade de conviver num tempo cheio de poesia fácil, feita de fragmentos de nada. Desejo a você toda a sorte do mundo no mundo da poesia. Receba o abraço do agora seu admirador Ronaldo"

Resistência

Ergo uma trincheira Atrás de livros E muitos papéis. O dia me quer banal, Cheio de afazeres. Quer matéria Para consumo: Óleo dos meus ossos.