O latido da prosa A literatura contemporânea é cheia de trocadilhos e peças pregadas. Talvez sempre tenha sido assim ao longo da história. Mas é neste bojo que me encontro. É neste mar que pesco, é onde vejo e leio os parcos livros que consigo obter, entre uma luta e outra para garantir o pão. Foi assim que me chegou às mãos um pequeno exemplar de maldades cotidianas, o livro Vida cachorra (Usina de Letras, 2011, 78 páginas), do carioca mariel reis (tal como assina o autor). É uma bela peça. Um livro que imprime a marca da marginalidade, a voz dos esquecidos, a miséria sem grandeza, a confissão ordinária dos malditos. São 12 contos forjados numa linguagem seca e rápida. Em alguns casos, os contos estão carregados de cinema e rap que convidam o leitor a uma espécie de dança ‘fenomelopaica’, como no que abre a coletânea, Absolvição. Aqui o narrador depõe seu crime a um suposto delegado. Seduziu a enteada, ainda garota. Ao flagrar a filha com o marido, a mãe se desesperou e os esfaqueou, ...