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A Revolução dos Bichos - Apontamentos de Leitura

1. Sempre li o discurso do porco Major, de A Revolução dos Bichos, sem a interferência da Revolução de Outubro. Pareceu-me uma utopia ecológica radical em que a questão econômica era secundária diante da necropolítica. A ligação direta com o abolicionismo vegano não permitia dúvida. 2. O desaparecimento do gênero humano é a ambição descrita em um dos capítulos de A Revolução dos Bichos. A chave ecológica: sem o homem no planeta nasceria uma nova ordem sem maltrato animal e destruição dos recursos naturais. Algumas correntes de preservacionistas pensam assim. 3.  Uma pergunta despertada pelo livro de Orwell é a seguinte: os animais participaram da queda? O estabelecimento do animalismo não é livre de contradições em si mesmo ou nos indivíduos participantes do projeto utópico. A égua Mimosa - e não só ela -  é o exemplo direto da questão. 4.  A hegemonia interpretativa acerca de um livro não desautoriza outra abordagem sobre o universo tratado. O romancista Cornélio Penna s...

O Encontro

Todo final de ano é igual. Compromisso é compromisso, ele sorri. Sandálias de couro, calça preta e blusão. O cabelo ralo, a bengala de madeira e a mão protegia as vistas da incidência de luz. Você não quer voltar? Ele desvia o olhar para a menina que passeia com o cachorro. Respondo que não quero voltar. Bobagem, ele me diz, ninguém quer realmente ir embora, ninguém quer me dar às costas. Tenho todo o tempo. Saio. Ele me segura pelos ombros. Apesar da velhice, ele ainda é forte. Rapaz, não me ignore. Lembre-se: não fui eu que procurei você. Os dedos ossudos apontam para o lado esquerdo de meu peito. A marca dói. Não é difícil, rapaz. Porém, gosto de seu espírito. Você resiste e meu Deus - é uma força de expressão - há quanto tempo eu não tenho uma boa luta. Ele senta-se outra vez. Uma criança corre até ele. Sorri.  A mãe se apressa para pegá-la, pede desculpas pela filha. Ele faz o truque da moeda. Um real. Pode levar para comprar bala. É o começo de sua fortuna, ele vaticina. A mã...

Diálogo com Lúcio

  [13/7 15:32] Lúcio: Mariel, você leu o artigo Enquanto todos se ajoelham? É exatamente sobre o que conversamos há poucos dias. [13/7 15:34] Mariel Reis: Não li. [13/7 15:34] Lúcio: Tem interesse? Quer que te envie? [13/7 15:36] Mariel Reis: Não. Pois o artigo, reproduzido por aqui, deve falar em civilização ocidental que é justamente o equívoco guia de nossos atos inclusive dentro do conservadorismo. [13/7 15:39] Lúcio: Sim, fala sobre a destruição da civilização ocidental, mas não entendi qual o equívoco. [13/7 15:39] Mariel Reis: Na Europa, o multiculturalismo é culpado de muitas ações. Eles, os imigrantes, não se reconhecem nas tradições aderidas, por isso desfiguram-nas para torná-las mais próximas ao próprio barbarismo. [13/7 15:41] Mariel Reis: No Brasil, não somos europeus (portugueses) apenas. Gilberto Freyre e Bauman falam acerca respectivamente se Portugal e a Europa são de fato parte da Civilização Ocidental. A última mais que o primeiro. [13/7 15:44] Lúcio: Não conh...

O Martelo e a Taça

    A madame sentada confortável diante do quadro não esboça qualquer emoção ao contemplá-lo embora cercada por tantos outros que se poderiam somar à sua reflexão tão impenetrável quanto seu rosto imóvel. Ela balança a taça de vinho, molha vez por outra os lábios, move agudamente as pernas. Descreve com a mão livre os traços do que pode ser a pintura à sua frente ou apenas um cálculo mental dos custos de uma viagem futura. Os outros quadros, em uma ciranda, trocam impressões acerca dela que exigiu a cadeira em que está, encomendou a garrafa de vinho e trouxe consigo a taça acondicionada em uma valise. Nada parecia perturbá-la. Os cabelos longos em um coque deixavam entrever uma nuca bonita, seguida por ombros delicados e costas seminuas. Os seios marcavam o vestido leve, atraindo a atenção dos rapazes de um grupo escolar que transitava pelas outras alas. Ela não parecia se incomodar com a curiosidade a respeito de seu corpo, sabia-se atraente, embora tivesse deixado para trás ...

A Liberdade tem muitos nomes

  Sem acesso à rua, minha filha caçula sente falta de nossos passeios pela vizinhança. A minha solução foi a seguinte: comprei um rolo de papelão corrugado. Minha mulher comprou giz de cera. Minha filha mais velha reuniu as fotografias de nossos vizinhos pela internet. Esticamos ao longo de nosso muro o papelão, chamamos a nossa pequena e desenhamos a nossa rua com os seus moradores. Demorou três dias a confecção desse mural. Depois de pronto, passávamos por ele com saudações engraçadas aos personagens. Minha filha caçula distraía-se com a nossa artimanha. Um dia, ela falou:  - Papai, quero ver o Sr. X. Depois disso, não ligou mais ao painel. Percebi que a chave do portão se tornou também a do Paraíso: nossa calçada, nossos vizinhos, partes dele. A gente só queria andar na calçada.

Etiqueta Equivocada

1-Os manuais de etiqueta, na maioria das vezes, são inúteis para os homens comuns quando sofrem: os velórios são pungentes, repletos de palavras desencontradas e acusações. Por vezes, ali mesmo, no cemitério, degeneram em violência por diversas razões.  2-O homem público abdicou de si, preferiu o corpo a corpo com a multidão, treinou-se para lidar com as contradições dela, portanto, diante do homem comum, ele perdeu certa espontaneidade , porque sabe a influência - positiva ou negativa - de sua ação.  3-Por exemplo, no enterro do cantor Orlando Silva, ou no do escritor Machado de Assis, percebemos o forte componente emocional envolvido em tais figuras. Outro enterro eletrizador das multidões foi do ex-presidente Getúlio Vargas, que, apesar dos fatos de sua morte, aproveitou-os, em um teatro macabro, para capitalizar o próprio suicídio. Concorde-se ou não com os seus motivos, expostos numa explosiva carta -  testamento. 4-Não é nova, portanto, a apropriação pol...

Lições das Olimpíadas

“Não há como um indivíduo ser atleta sem ser educado no princípio da realidade: um competidor mais perde do que ganha.” Psicóloga no Fantástico no quadro Coração de Atleta. Nós, brasileiros, nos últimos anos, com o assistencialismo estatal, perdemos esse princípio da realidade: de que nem todos podem ser vencedores mas todos tem o direito de competir; isto é, em última análise, o direito de resultado . Todos devem tê-lo, exigi-lo para a obtenção do direito de performance . O que infelizmente é negado a maior parte da população sem a minoração das diferenças socioculturais. Nesse exemplo, pensamos no centro de treinamento de um atleta de ponta que deveria ser o mesmo no primeiro mundo onde o competidor atua como também para os terceiro-mundistas, como nós. Deveríamos ter o direito de resultado garantido porque é o única maneira de se atingir uma igualdade possível.