segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

497 Expresso Lapa

O 497 faz o trajeto Penha – Cosme Velho. Corta a maior parte dos subúrbios da Zona da Leopoldina. Não carrega apenas os trabalhadores pendulares, em seu deslocamento diários de casa/trabalho/trabalho/casa. Nas noites de quinta a domingo, reserva lugar no que transporta para o amor. Não apenas os jovens que escolhem a Lapa como ponto de encontro para diversão e azaração. Há um público muito mais maduro que também se enfileira. E divide o território com os mais novos.


Todos atravessam a catraca do coletivo. Confiantes, elegantes, vestidos com apuro. Mas com um papo diferente sobre o destino que decifrarão em breve, sobre a região alvo e palco de sua jornada.


Pouco tem em comum suas memórias e as dos mais jovens, pontuando que o bairro em comum que têm como destino, mudou. Os jovens se intrometem na conversa. E, na apuração que fazem sobre a interseção de suas lembranças, percebe-se, talvez, que muito do que o público mais velho carrega é o que se insinua nos rostos dos mais novos.


O público jovem, cativo, acompanha com interesse o relato das antigas, desses novos habitantes do “Planeta Lapa”. Uma das garotas explica o epíteto "pela diversidade de pessoas e histórias" que se encontram por lá.


São onze e meia de noite. O ponto de ônibus apinhado. As meninas em modelos de vestido sumários – quase sempre na cor preta - exibindo meias calças arrastão e saltos altos que desafiariam equilibristas experientes, inadequados ao estado das calçadas dos subúrbios. Ginastas involuntárias porém hábeis, não só se mantém no salto: andam, conversam, e vigiam a chegada do ônibus. Ou participam dos grupos que se formam como ilhotas, para discutir o melhor ponto para se fixar no seu objetivo.


Não querem terminar a noite sem ninguém.

De uma das ruas adjacentes, surge outra turma. As mulheres não exibem as formas de suas concorrentes mais novas, o corpo experimentado revela linhas esbarroadas, todavia não desprovida de uma beleza que interessa aos olhos mais experientes, que não querem e “não tem tempo para ensinar às mais novinhas o modo certo para se namorar”– eufemismo de um dos homens já com cabelo grisalho, para se referir a falta de maturidade sexual das novatas. As que se impressionam com performances rápidas e insatisfatórias e com aparência, “sem valorizar a experiência". Outro completa: “o diabo é sábio, porque é velho”. E não porque é apenas o diabo.


O recado causa irritação nos rapazes que se sentem menosprezados. A impressão é desfeita quando se estabelece entre eles uma conexão que valoriza a troca de informações para o sucesso das paqueras. E verifica-se que a arte da paquera permanece inalterada desde os tempos de Ovídio. Ainda é tempo de ler A Arte de Amar.

As meninas mais novas não compreendem muito o que lhes dizem as mais maduras. O visual delas não destoa das jovens. Em roupas apertadas que valorizam os contornos do corpo, explicam que não se podem valer das mesmas armas para a conquista do que as suas rivais com tudo em cima.


A mais velha delas, é mãe de três filhos e se orgulha da bunda ainda durinha e dos seios que não caíram. Quando vai à padaria pela manhã, costuma vestir "uma camiseta branca bem leve, sem sutiã" e repara que os homens que cruzam com ela pelo caminho não tiram os olhos de seu busto. Elas não sabem o que é isso, somando que é viúva há dezesseis anos e que uma das meninas que está no grupo mais animado é sua filha. Conta que sua filha é que lhe incentivou suas incursões pela Lapa e que não disputam o mesmo bofe, mas carregam um gosto muito semelhante em relação aos homens. E, quando tem dificuldades amorosas, aconselham-se mutuamente sobre o que devem fazer até mesmo terminar a relação. Quando isso acontece, choram durante um ou dois dias. Depois de pranteado o finado – rei morto, rei posto – as duas seguem para o salão de beleza onde procuram recuperar-se das feridas para a próxima batalha na noite do sábado vindouro.

Um dos rapazes diz que “Na verdade, todos nós procuramos mesmo um amor de verdade, alguém para casar”. Esse pensamento não é compartilhado pelo restante do pessoal, especialmente pelos mais velhos que saíram de relações que pareciam ideais e não se concretizaram. A maioria deles discorda sobre "juntar os panos de bunda". Agora para eles é cada um em sua casa.


É bem melhor assim”, confessa uma das mulheres, que não esconde sobre os perigos de se agir como se quer. Ela se refere as constantes agressões que muitas mulheres sofrem por essa liberalidade e assevera que “não é fácil conhecer alguém mesmo que se conviva com ele durante anos, imagine alguém que você viu apenas uma vez, em uma balada”, apenas para praticar o sexo casual. A este comentário, uma de suas amigas intervém, dissertando sobre a dificuldade que as mulheres têm em praticar sexo casualmente, “porque mulher quando se envolve, pensa em romance”. Para os homens isso é bem resolvido. Para as mulheres isso é um tabu, pela educação e o papel social desempenhado e esperado por nós por todos esses séculos. Muitas não se resignam a esse suposto papel histórico. Sob concordância da patota, uma cospe, enfática, que “muita coisa mudou, e para melhor”.


Prova, lançando com um olhar desejoso para um rapaz sarado que desembarca nas imediações da Rua do Riachuelo.


A viagem está chegando ao fim. Salto no segundo ponto da Henrique Valadares. Antes de me despedir, uma delas, sorridente, abre sua bolsa e diz não estar desprevenida para a noite. E, acrescenta, se o preservativo falhar, retira da bolsa a cartela com a pílula do dia seguinte. Emenda outra que, na sua idade, não pode se ligar aos problemas. Só quer muita felicidade.


E que felicidade!” - Sorrindo, joga as palavras no ar, espiando de rabo de olho o moreno da camiseta colada ao tórax, dono de uma barriga tanquinho. Parece que vai ser a pedida da noite.

O ônibus vai. Eu fico.



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Internacionalização

A revista Sexy picotada sobre a mesa. Vários cartões postais da cidade do Rio de Janeiro acompanhando os recortes. A montagem se dá por mãos hábeis, americanas, que descrevem a cidade como um paraíso para o pecado. Para a internacionalização do pênis. Insistem que este é o único tipo de turismo que interessa nos países de terceiro mundo. Ou, como queiram, países em desenvolvimento.


Acertam um par de seios cortados por um canivete multiuso; é o Sol encimando o Pão de Açúcar. Oswaldo de Andrade já havia se referido ao morro como um seio que o céu suga. Portanto, a erotização da paisagem não é novidade nenhuma. Se não fossem americanos comuns, trabalhadores braçais que tem sorte com sua moeda levando vantagem na balança comercial, talvez fossem tomados por artistas plásticos irreverentes. Tratam de colar parte do corpo de Ana Saad em um postal de Copacabana, como se as nuvens e todo o céu contidos naquela nesga de carne flutuante testemunhassem uma conquista. Rabiscam algumas palavras acaloradas aos companheiros que não puderam realizar a viagem ao paraíso.


Paraíso. É como um deles se refere ao Brasil, e mais especificamente ao Rio.


Divertem-se com a facilidade com que as mulheres brasileiras se atiram, ponderam que esta atitude representa para a maioria delas uma chance de resgate, de ascensão social e econômica. Ridicularizam a prostituta que saiu há pouco para o banheiro, trocadilhos sobre casamento e cruzamento saem naturalmente em uma descontração monstruosa. A prostituta volta do banheiro, com a saia ainda mais reduzida, as coxas fortes e morenas à mostra, os olhos esverdeados pela lente e o longo cabelo encaracolado de implante. Seccionam mais a revista Sexy. E outra parte do corpo de uma das modelos gruda-se com a fita durex a outro postal da cidade. Riem. Estão hospedados em um hostel em Botafogo, na “Rua Farani, bem perto da praia”, enfatizam.


Pedem o almoço. Convidam-me para acompanhá-los na refeição. São de lugares como Detroit. De subúrbios insossos e quentes. Aponto para a prostituta e questiono quem a levará para se casar na América. Muxoxos, desânimo e olhares de desprezo para a mulher que não concorda com que minhas perguntas tornem a platéia descontente e denuncie seu desespero. “Filhos americanos de mães americanas” sentencia um deles, mais expansivo do que de costume. “Bastardos, não, fora”. Outro emenda: “Mesmo que não sejam tão gostosas quanto essa mulata!”. Ela, a prostituta, aprova e ri. Toda a tarefa de corte e recorte da revista concluída.


A simbiose da cidade com a carne das modelos confirma nossa vocação para a exportação. O repasto é realizado entre piadas e comentários sobre a estadia; desgostos pela data próxima da partida, da não industrialização de artigos sob medida - como aquela morena - para uso e consumo imediato. A despedida demora-se mais do que o esperado. Peço para fotografá-los ou pelo menos aos postais que sofreram intervenção. Negam. Permitem apenas que leia a advertência feita a um amigo que não pode estar ali com eles. “É mesmo uma pena, ainda mais para um depravado como você” estava lá, escrito. “Aqui é a Cidade do Pecado” - assentiram todos.


Sem culpa. Sem autopunição.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Max Gehringer Genérico de Minha Consciência

O empregado comum percebe um soldo de 01 (um) ou 02 (dois) salários acompanhado de benefício que pode ser o vale – transporte ou o ticket – refeição. Ambos com o custo dividido, constado em folha de pagamento, com o patrão. São benefícios válidos para o trabalhador mais pobre e o auxilia a suprir neste intervalo em que se encontra empregado as necessidades mais urgentes e ligadas à preservação do próprio emprego: estar alimentado para não cair doente e chegar no horário correto. Isto significa: não dar prejuízos à empresa e aumentar o seu lucro. Na lógica capitalista isto é o correto: uns detém a força de trabalho e outros o meio de produção.

Alguns setores remuneram melhor. Não que seja uma medida que os coloque acima das exigências do mercado, isto está fora de cogitação. É porque envolvem mais responsabilidades, mais riscos, interferindo diretamente sobre a vida da empresa, em sua percepção de valores. Não é generosidade, é necessidade. Porque o empregado bem remunerado diminui o risco de extravio de patrimônio, sabendo bem o que isto significa. Mas o que acontece quando o trabalho já não atende as necessidades imediatas do trabalhador? Quando ele passa a pagar para trabalhar – expressão corrente quando há o encarecimento do custo de vida e dos meios de acesso e conforto para o exercício da função? Muitos patrões não levam em consideração que o empregado tem uma vida social. Uma vida que se está fora do seu trabalho, está intimamente ligada a este, porque dele provém o sustento e manutenção da vida familiar.


Esta semana um jovem me procurou para ser seu consultor. E expôs o quadro em que vive em sua empresa da seguinte forma: ele não possui casa própria, mora de aluguel em um apartamento de 02 quartos em uma região de sua cidade, pagando em torno de R$ 700,00 com condomínio incluído, tem despesa mensal de luz de R$ 45,00; o gasto com telefonia gira em torno de R$ 100,00; para divertir-se nos fins de semana assiste tevê a cabo no valor mensal de R$ 75,00 e uma taxa simbólica para o pagamento do gás de R$ 20,00. Ele percebe como soldo R$ 1.500,00 para o pagamento de suas contas. Gasta com as despesas o equivalente a R$ 940, 00, restando-lhe para passar o mês R$ 560,00. Se o tal empregado tiver sorte e sua mulher estiver empregada ele tem pouco com que se preocupar. A micharia terá que atender as demandas mais surpreendentes. Ele terá que apertar o cinto, como se diz no popular. Mas, como ele próprio me escreve, não passa mal o mês.


O que o incomoda é ter que pagar para trabalhar em determinados períodos do ano. Nesse período ele recebe uma bonificação que é a soma de um salário igual ao mensal. Mas a sua residência se localiza em uma área de risco da cidade, o trabalho se estende até altas horas da noite, porque é parte da indústria de eventos, os taxistas não cobram pelo taxímetro para levá-lo até a sua casa que para se chegar, é preciso cruzar as três maiores artérias da cidade, chegando a lhe cobrarem R$ 40,00 a corrida. Ele expôs que preferia pagar hospedagem em um hotel barato do se dispor a enfrentar o cansaço e o trânsito para estar novamente no dia seguinte no trabalho sem perda de rendimento em sua atenção nos afazeres da empresa. Nisso concordei porque racionaliza o dinheiro e o tempo disponível, empregando-o em uma noite de descanso.

Perguntei-lhe quanto pagava em uma diária de um hotel modesto, onde pudesse se hospedar sem virar banquete de pulga. Ele me informou que pagava R$ 95,00. Quanto tempo durou o último evento, aquele a que se referiu como o mais longo. Cinco dias. Colocando na ponta do lápis, ele gastou R$ 475,00. Para este evento foi obrigado a comprar um terno para se adequar a uma exigência de traje comum para a ocasião, investiu R$ 132,00. Para se alimentar, preferia comer em um fast food com pratos com preços populares, gastava R$ 13,70 por refeição. Nos cinco dias totalizou em sua despesa para se alimentar R$ 68,50. O custo total ficou em torno de R$ 675,00. Restando-lhe apenas R$ 824,50. Não sabemos se recebeu alguma ajuda de custo ou se foi restituído do valor de alguma de suas despesas, trabalhando apenas com o conceito de que ele próprio desembolsou todo o dinheiro da despesa. A periodicidade dos eventos é importante: a cada 02 (dois) meses. Então pude verificar que somente quando nestes eventos, onde o que lhe sobre é R$ 824,00 e nos meses de salário ordinário, sem acréscimo de nenhuma natureza, onde percebe R$ 560,00 ele pode ver – isto em paisagem monetária separada – a soma igual ao salário que perceberia se não tivesse os gastos com a manutenção de seu bem – estar e aparência para o dia seguinte de trabalho.


Pedi a ele que conversasse com o patrão. A isto, me contrapôs o argumento de que já teria realizado. Um dos sócios – o mais inflexível – não via diferença nele dormir no espaço alugado para trabalhar do que se hospedar em um hotel com um gasto desnecessário. Não levou em consideração a privacidade e outras prioridades como conforto e bem – estar que são fundamentais para o desempenho razoável das funções de trabalho. Negando-se a partilhar as despesas ou mesmo minorá-la. O outro, por ter assistido a encenação do papel do patrão mau, tomou para si o oposto, dando-lhe uma ajuda de custo de R$ 200,00. O gasto caí para R$ 475,00, influenciando diretamente o cálculo anterior, ele gastaria 1/3 do valor percebido como bonificação, restando-lhe junto da soma do mês ordinário R$ 1.585,00.


Expliquei-lhe que poderiam existir contrapartidas como tempo para estudar, isto ele me disse que não tinha. O horário não permitira aperfeiçoamentos, somente cursos rápidos que apenas maquilam a carreira do profissional. Demonstrei que não é uma boa hora para abandonar o emprego, o mercado está retraído e a recolocação pode ser demorada e dolorosa. A renda também cairia, porque como disse no inicio do artigo é comum o pagamento de dois salários com benefícios descontados em folha e tendo em vista as necessidades com que estava envolvido, entraria em déficit, causando amuos psicológicos, culpa e problemas na relação em casa pela mudança no padrão de vida. Pedi que refletisse um modo de ingressar em curso superior ou se preparasse para concursos públicos que podem ajudá-lo em sua ascensão social. E afastá-lo do fantasma do desemprego.


Ele ainda não paga para trabalhar, porque percebe a soma mínima. Não resta dúvida de que mais cedo ou mais tarde pagará. Mas até lá, espero que tenha seguido um desses conselhos.

Em Nome do Pai?



Durante a reunião com a vereadora Rosa Fernandes, que discorria sobre o projeto Bairro Maravilha, estendido até Pavuna, sobre os impactos da ação da Prefeitura na região, de suas intervenções na fiscalização das obras realizadas nas adjacências, frisando que sua obrigação em mandato como vereadora era esta – estar nas ruas, fiscalizar e cobrar resultados de políticas localizadas. O assunto resvalou para a Lona Cultural Jovelina Pérola Negra.

A reunião desencadeou uma série de perguntas, respondidas com máxima sinceridade pela vereadora. E, talvez a mais séria delas, partiu de uma moradora que queria saber quem era o pai da criança, quando inquiriu: “- Foi você, Rosa, quem trouxe à Lona?” A vereadora Rosa Fernandes munida com a franqueza que lhe é característica, não titubeou e deu resposta correta ao questionamento, esclarecendo que a Lona era requisição de um grupo na Pavuna – subentenda-se Grupo Cultural Na Pavuna : Marko Andrade, Namay Mendes e Mariel Reis - juntamente com a ex- Secretária de Cultura Jandira Feghali. Isto poderia ter colocado a coisa em seu devido lugar, caso a inquiridora não saísse dali com a pulga atrás da orelha, julgando tratar-se de modéstia da vereadora, que se eximiu de ser a autora da Lona Cultural Jovelina Pérola Negra.

Rosa Fernandes disse a verdade. Entretanto, a sociedade civil depois de anos de desarticulação, perdeu a crença de que pode mobilizar-se em prol de mudanças em sua situação sócio-política e, quiçá, econômica. A ditadura foi diretamente culpada na desarticulação da sociedade civil com seus desmandos, implantando uma sociedade do medo, seqüestrada de si mesma, amedrontada em suas convicções e castrada em seus desejos. Não lhe faltavam razões: exílio, tortura e morte.

Na longa duração dessa noite, políticos populistas incrustaram seu império, realizando aquilo que por direito pertencia à esta sociedade, arrogavam-se porta-vozes das vontades populares, e à sua moda, com bem ensinou certa filosofia, roubava-se, mas se fazia. E tínhamos a quem agradecer por ver nossas aspirações materializadas. O tal pai. E em nome do pai, pedíamos. E rumávamos para agradecê-lo, beijar-lhe as mãos, prostrar-nos diante dele como de um ídolo. Portanto, a autora da pergunta, incitada por esses anos de evasão de sua própria vontade, quis ter os nomes dos bois, enfim, quis saber o nome do pai da criança. Não é propriamente culpa dela, mas de um contexto de alienação que submeteu todo o brasileiro com mais de cinqüenta anos.

A nossa sorte é que nossa reeducação não tardaria. Através das minorias, que decidiram buscar sua liberdade civil, foi apontado o caminho de volta às reivindicações. A maior delas mesmo ocorre nas fuças da cidade e não é organizada por políticos, mas por indivíduos que se afinizam por suas escolhas sexuais e resolveram expor sua indignação diante de tanta injustiça e incompreensão e, sobretudo, de violência. Não apenas eles organizaram-se; outro exemplo é a Marcha da Maconha em que usuários de diversas classes sociais aderiram à idéia de descriminalização. Outros resolveram engrossar o coro da liberação. Tanto que até um ex- presidente juntou-se a causa.

Estes exemplos que reuni, servem para ilustrar a mobilização da sociedade civil em torno de seus interesses. E não estou aqui para julgar a legitimidade de cada um deles, mas para mostrar que é possível organizar-se e lutar pelo que se acredita, sem a necessidade da figura de um pai para conceber pelo que se luta ou a maneira como se deverá lutar. A luta é uma concepção que nascerá de cada vontade, da necessidade de cada homem e do desejo de cada um de nós em tornar a sociedade cada vez mais tolerante e justa e avançar, de fato, no Estado democrático.

À senhora que perguntou quem é o Pai, respondo com simplicidade: somos nós todos que sonhamos com algo melhor para esse bairro; para esta região, marcada apenas pela violência e suas conseqüências danosas, que salta às páginas policiais e aos noticiários de crime. No entanto, se exercermos nossa cidadania, se lutarmos por espaços de democracia, alteraremos essa paisagem desértica que aí está para outra, mais verdejante e esperançosa.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Abrindo os trabalhos

Abaixo parte de minha correspondência com minha esposa em 2009. Nesse ano pensei em pedir demissão. Procurei amadurecer a idéia e levei três anos. Realizei vídeos sobre o que está descrito abaixo para documentar minha trajetória. Agora tudo está terminado e bola para frente. Novo trabalho, nova esperança. Um bom ano a todos.



"Estou cansado de tudo isso, porque não crescerei para lado nenhum nessa joça. Faço o meu trabalho de escrituração fiscal, de organização do movimento contábil, de conferência e cálculo de impostos, consultor contábil - porque quando se tem dúvidas nos escritórios, sou consultado, office-boy, embalador de obras, carregador de obras - tanto para a própria firma como para outros que prestam serviço para nós e não trazem ajudantes e neste caso não recebendo tostão por isso, revisor de textos – desde as cartas aos contratos utilizados na rotina da firma e a resposta de e-mails, diagramador - quando tenho que acertar as imagens de projetos pessoais nos quais H está envolvido para firmas imobiliárias, isto você se lembra quando lhe consultei sobre como tirar a caixa de texto, despachante - este serviço sem nenhuma remuneração, sendo o mais caro, porque cada certidão negativa custa em média R$ 300,00, eu mesmo tirei duas, então R$ 600,00 e fui a Secretária da Receita Federal para regularização de contribuinte para emissão de certidão - R$ 150,00 - irei ao INSS para negociação de dívida, caso exista e regularização para o pedido de Certidão Negativa de Débito - R$ 300,00. Portanto, trabalho de graça, porque aquilo que ganho não corresponde às tarefas que executo. Tudo isso para todos os que necessitarem dos serviços; seja o escritório de MAcBad ou Lêdo ou aquele que requerer.

Chega um momento que isto cansa. Peguei meu modelo de carta Y e se não mudar vou pedir as contas. Talvez seja melhor no fim do ano. "

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

I Want To Break Free

I Want To Break Free

Queen

I want to break free
I want to break free
I want to break free from your lies
You're so self satisfied I don't need you
I've got to break free
God knows, God knows I want to break free.

I've fallen in love
I've fallen in love for the first time
And this time I know it's for real
I've fallen in love,
God knows, God knows I've fallen in love.

It's strange but it's true, yeah
I can't get over the way you love me like you do
But I have to be sure
When I walk out that door
Oh how I want to be free, baby
Oh how I want to be free,
Oh how I want to break free.

But life still goes on
I can't get used to, living without, living without,
Living without you by my side
I don't want to live alone, hey
God knows, got to make it on my own
So baby can't you see
I've got to break free.

I've got to break free
I want to break free, yeah
I want, I want, I want, I want to break free.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dois Textos Breves

Anderson Fonseca, em breve, deixará o Rio de Janeiro. Partirá para as plagas do Ceará, se juntará a esposa e ao filho. Com isso, a cidade perderá um jeito, porque todo aquele que a deixa, leva consigo algo com que contribuiu para essa paisagem que está muito além dos edifícios, das belezas naturais. A cidade sofre quando parte alguém que ela de fato ama, porque perde a gravidez de muitas inquietações, perde o riso franco, a conversa inteligente, o sonho, o sofrimento, o encontro, o desencontro. Uma maneira do corpo se comportar ao sol, à chuva, no estio. Anderson Fonseca levará consigo tudo isso: uma maneira de irisar a flor-cidade, de concebê-la em seu deslocamento pela baía, a comunicação entre seus membros, o fluxo de oxigenação entre um lado e outro desse enorme coração de caos, trânsito, amor e discórdia. Nos últimos meses, no Rio de Janeiro, nunca estive tão próximo de um escritor como dele, idealizamos, concretizamos e prosseguimos devaneando. Falando besteiras ao telefone ou assuntos graves, reflexões sobre a cultura ou bobagens ligadas ao crescimento dos filhos. Em tudo, já me ressinto da saudade. A cidade insinuada em nossas caminhadas pelo Bay Market espiava com inveja a vida que escorria de nós. Talvez, por isso, em meu coração, esse amigo já é uma figura imortalizada.

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Ontem, recebi uma pergunta sobre meu último livro de contos Vida Cachorra, publicado pela editora Usina de Letras, sobre a verdadeira influência na forma das narrativas. Para alguns amigos, aludi que tentei reescrever uma publicação homônima da qual participaram Mafra Carbonieri, Marcos Rey, João Antônio e Aguinaldo Silva. Este último eu o convidei para prefaciar o livro, mas não recebi resposta. É verdade que minha pretensão foi esta, mas para a forma narrativa aderi a um livro esquecido, intitulado Roda de Samba, de autoria de Lygia Malaguti. Uma contista de mão cheia que, infelizmente, não é mais lida. Exceto por gente como eu. O que não é um mérito propriamente. Contudo, todos se apressam em apontar Dalton Trevisan como a influência. O que é, não de todo um equívoco, mas uma injustiça.