quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Vontade de Potência da Libido Heterossexual



A Playboy de Fernanda Young é objeto de reflexão para a tendência do imaginário masculino massacrado pelas exigências ditadas pela indústria televisiva e pornográfica em que as estrelas destes tipos de produções precisam ser bonecas barbies gostosas e turbinadas, propagadoras de erotismo óbvio e banal, máquinas incansáveis de fabricação do desejo que não podem ser desligadas, escravas da vontade de potência da libido heterossexual que se mercantilizou tanto que não sabemos quais são nossos desejos ou quais são aqueles desenhados por essa indústria.

Engolidos pela máquina não podemos achar a patroa gostosa, porque tem pneus e não é a super - mulher, a mulher maravilha dos BBB’s. E acossados por esta fome, despejamos nos puteiros, casas de massagem e afins a ambição de consumir o corpo perfeito, transformando em vício aquilo que antes era virtude, produzindo sofrimento por incorreções que no passado eram detalhes que apimentavam a tara. A busca pelo corpo perfeito acabou com a mulher do lar.

Deu fim à vida sexual da baranga, encarcerou as mulheres feias em salas de cirurgia plástica, ninguém confessa que traçou uma mulher feia, se faz isto é em confissão para padre, porque nem para psicanalista o individuo comenta o que ele chamará de deslize, perda momentânea de consciência.

Todos querem que aquele comercial de cerveja acabe por se tornar real. Cada cervejeiro recebendo sua mulher robô, gostosa, sua mulher nota mil, programada para dizer sim, sim, sim, muçulmana, egípcia, estóica e maria. Talvez decorra daí a hostilização dos homens a Playboy de Fernanda Young – mulher inteligente, independente e liberada das linhas de força da sociedade de consumo. Talvez derivem daí os comentários maldosos das demais mulheres que se esforçam para se encaixar no modelo para que seus maridos não pulem a cerca, para não serem a Carrie, a estranha da vida dos seus homens, renunciando a sua individualidade, a sua identidade e mergulhando na ordem geral. E depressivas, estas mulheres tornam-se dependentes das drogas da felicidade, tudo para estarem no curso da modernidade nociva e padronizadora. Não importa se é uma estética revitalizada de pin-up dos anos 40 e 50; se não for a estética cachorra, povo execrará.

sábado, 31 de outubro de 2009

Amor e Ditadura

Carta do leitor Jurandir de Oliveira para o concurso da revista Marie Claire sobre o tema: Encontrei o meu amor de maneira inesperada.

Naquele tempo eu era um rapaz sem pretensões. Trabalhava como bancário em uma agência no centro da cidade, torcia pelo América Futebol Clube e tinha preocupações com o país – era o ano de 1972. O Brasil vivia o auge da ditadura.
As perseguições eram comuns, o Comando de Caça aos Comunistas agia livremente prendendo e torturando inocentes em busca de informações sobre pessoas que conspiravam contra a segurança nacional; a Rua da Relação mais movimentada que nunca: um entra e saí de camburões carregados de rostos que não se veriam mais para desespero das famílias. Qualquer indício de uma reunião suspeita nos apartamentos era investigado e se constatado de que se tratava de assuntos políticos a complicação aumentava. A cor vermelha proibida expressamente por estar associada aos comunistas, socialistas e grupos afins.
Nisto encontrei minha primeira desgraça: a camisa do América não poderia ser de outra cor. Sugeri a mudança da cor do pavilhão do time pelo menos no tempo de exceção, mas viam nisto, pelo menos alguns dirigentes, o recado de que em algum lugar se resistia à violência praticada no país pelos generais trogloditas.
Isto me limitava a torcer com bandeirinhas tímidas, botons presos à camisa, para não entrar em cana como baderneiro. Já pelo pequeno relato se pode antever o que me aconteceu, mas descreverei por partes a minha desgraça e meu triunfo – porque através desse artifício obtive a proposta de redação da revista: Encontrei meu amor de forma inesperada.
Enquanto no trabalho, minha atenção não se desprendia do detalhe da cor vermelha, então tomava cuidado com qualquer realce que escapasse à minha inspeção. Certa vez um dos gorilas do governo me acompanhou com o olhar até a entrada do banco – o boton vermelho havia chamado à sua atenção, pensou ser a famigerada foice e o martelo, quando o exame terminou, já me encontrava dentro da agência, fora de perigo.
Em casa não me preocupava com a questão da cor – me sentia livre da vigilância das sentinelas do regime, andava à vontade como se nada pudesse me acontecer, imune ao ambiente hostil do país e com um ingresso para a partida de sábado no estádio do time em Mesquita.
Comecei os preparativos. Comprei um chapéu espalhafatoso e corneta. Encomendei uma camisa nova do América, guardada às sete chaves até o momento de vesti-la no sábado. A velha virou pano de chão. Comprei também um calção novinho em folha – tudo para que se o time tivesse um desfalque, o técnico me habilitasse para jogar pelo time. Estava uniformizado. Feliz com a perspectiva da vitória. A Taça Rio daquela vez viria. O sabor amargo da última campanha do time não havia sido esquecido pela torcida que protestou contra o presidente do clube que não deu à mínima na época sendo uma miniatura de Eurico Miranda – isso no quesito ditatorial.

O final do jogo com uma vitória que não convenceu, mas satisfez a torcida que saía do estádio com urros de "é campeão, é campeão!". Desviei-me da multidão, fui para o ponto de ônibus, seguindo sozinho por umas ruas que me levariam ao terminal rodoviário. Não me dava conta do tempo, pensando nas jogadas, criticando o futebol dos pernas de pau da última contratação, emendando o time com minhas interferências técnicas, julgando que só o futebol em um tempo como esse permitia ao povo extravasar as emoções sem que fosse tachado de manifestação política, que de alguma maneira o jogo ensaiava o problema social – isso em uma visão primária e esquemática – quando uma patrulhinha cruzou comigo.
Não era uma novidade a polícia estar ao redor do estádio, cuidando da segurança, evitando que os arruaceiros causassem confusão e escândalo. Entretanto, no olhar do policial havia um brilho diferente, quando me encarou da janela do veículo.
Resolvi não dar atenção ao pressentimento e segui em frente, pulando pequenas poças de água que começavam a se formar, devido à chuva que começava a cair. A patrulhinha voltou, sirene ligada. O policial saltou do carro vindo na minha direção, me fazendo inúmeras perguntas, porque não estava com os outros torcedores, que tipo de cara sai sozinho de uma partida de futebol, onde geralmente se deixa o estádio na companhia dos amigos.
E por que motivo eu havia escolhido logo aquele trecho deserto, repleto de casarões para ir à rua principal – e não segui com a multidão. Tentei explicar como pude, mas meus argumentos não eram fortes o suficiente para convencer o guarda. Fui recolhido à delegacia.
Lá me reuniram a um grupo de homens barbudos, bem vestidos, pareciam crentes, usavam óculos, fumavam muito, enquanto aguardavam a vinda do delegado para uma conversa.
Não me irritei, porque logo notariam a confusão, eu era um torcedor perdido no meio daquela gente.
A autoridade chegou com cara de poucos amigos, "uns vagabundos comunas é o que são". Tentei protestar, mas levei um tabefe para me manter quieto, porque vadio socialista só falava quando ele mandasse. Engoli as ofensas em seco, procurei me controlar para não piorar a situação.
O delegado interrogou cada um dos homens na sala, quando na minha vez, ele interrompeu súbito minha fala, para declarar: "Este vai dizer que é torcedor do América". E era exatamente isso que eu alegaria. "Juro estava no jogo que aconteceu a pouco". "Minha Avó também". "Levem eles para a ducha". Fomos conduzidos para um vestiário, lá estavam enfileirados policiais com o rosto coberto, com toalhas molhadas enroladas nas mãos. "É hora do banho, vai ajudar a relaxar". Cada um de nós teve que passar por aquele corredor polonês, levando bordoada de tudo quanto é lado.
Depois de sovados, achincalhados e reduzidos em nossa dignidade, o delegado achou por bem dispensar a todos. Aquela violência policial me marcou bastante, me impressionou tanto que minhas pretensões mudaram. Se antes temia tê-las, acreditando no rumo certo do país nas mãos dos trogloditas fardados, agora via que estava errado. Quantos inocentes não deveriam ter sofrido as humilhações que eu sofri. Os que saíram vivos, poderiam se considerar com sorte, somente com a moral arranhada, podendo recomeçar.
E aqueles que não tiveram nenhuma chance? O pensamento me perturbava a mente. Na semana seguinte, recomecei o trabalho no banco sem o mesmo entusiasmo. Não é que eu fosse alguém expansivo, mas percebiam minha alteração de comportamento. Naquele dia no almoço, fui ao diretório do PCB me filiar ao partido, justificando não só a camisa vermelha do América, mas a outros ideais superiores como a liberdade de homem zanzar sem destino pelas ruas do seu país sem ser tomado por vadio ou por comunista por estar vestindo a camisa do seu time de coração.
Freqüentei reuniões clandestinas, participei de passeatas, tudo isso incógnito, porque se no banco soubessem que havia me tornado comunista estaria perdido, seria mandado embora no ato, porque a orientação era que fossemos apolíticos por ser esta a filosofia daquela instituição. Em uma das passeatas do partido pelas vias principais da cidade, vi aquela que futuramente seria a minha esposa.
Naquele momento até a guarda montada parou de distribuir pancada para vê-la atravessando a rua acintosamente vestida com um longo vestido vermelho.
Ela parecia distraída, não notava o tumulto e os cassetetes cortando o ar; o arfar dos cavalos conduzidos por cavaleiros ferozes que defendiam a pátria contra a escória em que havia se transformado a juventude.
Ela desfilava com a cor incomoda, sendo ovacionada pelos militantes que viam nesse gesto uma ousadia que nem os camaradas mais corajosos teriam. Era uma santa marxista, beatificada pelos operários, canonizada por Engels e Marx, dirigida em culto nas internacionais em que os teóricos desvencilhavam-se de suas táticas para pedir-lhe o milagre da revolução para a libertação da massa dos seus espoliadores.
Encontrei o meu amor de maneira inesperada, reuni coragem para admitir. Livrei-me do cartaz com palavras de ordem para segui-la na avenida; os guardas não percebiam minha ressurreição, tomando meu ato como afronta, descendo a borracha na minha cabeça.
Não dei mais um passo, caí. A minha sorte foi ter desmaiado em frente a mocinha vestida de vermelho. Pouco depois ao acordar, ela me confessou que o policial não sabia o que fazer, se lhe deixava cuidar do meu ferimento ou descia a bordoada nela, porque moça direita não se metia com tipos como aquele estendido ali. Para não sair sem as marcas de guerra, levou uma bordoadinha para ter lembranças do tempo de chumbo, com cicatriz e tudo. Talvez no futuro - pensávamos - isto renda uma indenização boa, ríamos. Daquele dia em diante não separavamo-nos. Mais tarde, depois de certo tempo de namoro, casamos. Tivemos uma filha. Hoje somos moradores do subúrbio da Zona da Leopoldina.

Opinião Sobre Minha Arte Poética

Um jovem poeta brasileiro, radicado no exterior, emitiu o seguinte juízo sobre a minha poesia em Cosmorama:

"Seu trabalho apresenta em muitos momentos uma boa formação lírica, com uma dicção cristalina,algo que me lembra uma bela poeta como Henriqueta Lisboa, por exemplo."
Agradeço desde já, apesar dele ter declinado à época o convite para fazer o prefácio dos poemas, com delicadeza e honestidade.
Por este motivo os poemas abaixo, porque desde que recebi o comentário, me pus a verificar se de fato correspondia a realidade o que o poeta havia afirmado. E para meu espanto, percebi que sim.
A postagem dos poemas de Henriqueta Lisboa descentraliza e amplia o leque de vozes poéticas que se restringe sempre aos mesmos nomes: Cecília Meireles, Adélia Prado e Hilda Hilst. Vez por outra uma voz contra-corrente como a de Elisabeth Veiga surge para acabar com o coro dos contentes.
Meu muito obrigado ao poeta que se não me pediu sigilo sobre suas palavras e não me proibiu que as divulgasse, optei por manter anônima sua identidade.
Se ele pousar aqui neste território, quero que saiba que ponderarei sobre o que me comunicou com severidade, zelo e amizade.

3 Poemas de Henriqueta Lisboa*

Noturno

Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,

dançam livres como libélulas
em redor do fogo.

Publicado: Prisioneira da Noite (1941)



Séquito

Seguir o rei
por toda parte
antes que a coroalhe caia

Publicado: Reverberações (1976)



Expectativa

Neste instante em que espero
uma palavra decisiva,
instante em que de pés e mãos
acorrentada estou,
em que a maré montante de meu ser
se comprime no ouvido à escuta,
em que meu coração em carne viva
se expõe aos olhos dos abutres
num deserto de areia,
— o silêncio é um punhal
que por um fio se pendura
sobre meu ombro esquerdo.
E há uma eternidade
que nenhum vento sopra neste deserto!

(De Prisioneira da Noite, 1941)


*Sobre sua poesia, Drummond nos deixou o seguinte testemunho: “Não haverá, em nosso acervo poético, instantes mais altos do que os atingidos por este tímido e esquivo poeta.” Fonte:http://www.revista.agulha.nom.br/hlisbo00.html#bio

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Restaurante

Para Joseane, que me deu o mote para o continho ligeiro.


Era horário de almoço. Ligou para pedir um dos pratos do cardápio.

Ela estava indecisa. Discou o número telefônico indicado no folheto, a voz do outro lado da linha atendeu:

“Em que posso ajudá-la”.

Emudeceu por não reconhecer a voz da atendente, sempre ligara para pedir a refeição a mesma hora, não variando nunca, de lá aquela voz saía alegre, jovial e feminina, agora substituída por esta, masculina, imparcial e fria.

“Gostaria de pedir um prato, vocês ainda estão entregando?”.

Do outro lado, a voz pigarreou, uma tosse leve interrompeu a resposta. Não encontrando meio para responder, sem trair o sigilo e a discrição, não titubeou:

“Sim, estamos entregando ainda. O que vai querer”.

“Estou entre Frango a passarinha e filé a cavalo”, a mulher, pelo tom,
hesitava.

O atendente tinha visto muitas coisas na vida, mas aquela lhe parecera a mais absurda: porque as pessoas agiam daquele modo para pedir um serviço tão simples? Ele mesmo, quando estava sozinho, precisando de companhia, ligava para as casas conhecidas e se referia diretamente àquilo que queria.

“Então, me mande o filé à cavalo. Refeição número um”.

O telefonista checou o número com os rapazes disponíveis no catálogo. O número um estava em atendimento, já se dirigia para a casa de uma cliente e não demoraria menos que uma hora e meia. “Senhora, a opção desejada não está disponível, por favor, escolha novamente o seu prato”, disse tudo isso se sentindo ridículo. Por que não abriam logo o jogo? Por que ela usava códigos? Filé à cavalo, pensou, qual o tamanho dos documentos desse camarada? E para satisfazer a curiosidade, perguntou:

“O Filé à cavalo atende bem a sua fome?”.

“Sim, é farto. Os ovos quando estão no ponto, chego a chorar de felicidade quando os ponho na boca”.

“Mas, como não tem, me mande o Frango a passarinha”. Passou o endereço. O atendente pediu o número da refeição, ela prontamente forneceu.

Quando mais tarde, ela abriu a porta do escritório, lá estava o Frango a passarinha, flexionando os músculos, pedindo-lhe que apalpasse, verificando se estava no ponto. Ela ria, não sabia bem como reagir, explicou o mal entendido, mas não deixou de anotar na caderneta o telefone do restaurante com cardápio tão insólito quanto curioso.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Congresso de Lágrimas


O velhinho patriota do apartamento 305 estende a bandeira brasileira do lado de fora da janela. Todos os dias ao acordar, eu ouço todo o hino nacional, entoado com respeito e devoção, impressionado pela capacidade da memória do velhinho que não erra uma única frase, nem desafina.

Quando o encontro no elevador, ele me diz que na escola cantavam todos os dias, que sua afinação vinha desde garoto, que aquilo tinha se incorporado à sua vida, que a única vez em que ficou impedido de cantar o hino foi no exército, porque era corneteiro, mas quando estava no banho, praticava sem parar, fazia jogos mentais com as estrofes, avançava o ritmo ou mudava o andamento para mais lento, como um bolero. Dizia isso com uma expressão de felicidade nos olhos.

Do lado de fora do prédio, víamos a bandeira tremulando. Patrioticamente, ele juntava os calcanhares para ficar o mais ereto que conseguisse e fitava com os olhos o além, prestando continência aquele símbolo que amava mais que tudo.

- Quando minha mulher era viva não gostava que me dedicasse tanto à rotina de adorar a bandeira, pedia que eu virasse o disco, resolvi aprender os outros hinos e atacava o Hino à Bandeira – “Salve, lindo pendão da esperança/Salve, símbolo augusto da paz!”.

“Tio, me dá um trocado”, o menino puxa a manga da minha camisa, vasculho os bolsos, eu despejo na mãozinha estendida umas moedas. O velhinho do 305 sai do transe em que estava, praguejando o país, por estar infestado por esta corja, despejando todo o tipo de palavrão, me conduzindo para um barzinho logo do outro lado da rua.

“Não se pode facilitar com esses vagabundos”, resmungou. “Tenho saudade da vadiagem. Esses sacanas estariam tudo vendo o sol nascer quadrado”, emendou. Uma mulher com uma criança de colo se aproxima. “Moço, pode dar uma ajudinha”. Eu já não tenho mais dinheiro. “Vai arrumar uma roupa para lavar”, atacou o velhinho do 305.

Na minha cabeça o hino da bandeira “A grandeza da pátria nos traz”. A mulher vai para outra mesa, a criança enganchada no quadril: a mesma cantilena. Não tenho como deixá-lo falando sozinho, “Está quase na hora do meu trabalho”, interfiro. “Ah, meu rapaz, fique mais um pouco”, o velhinho do apartamento 305 gesticulava, apontando para um lado e para outro, como se estivesse a rever a marcha que tomou o Aterro, pedindo a caça as bruxas, com os olhos faiscando, os braços ressequidos riscando no ar os planos para se acabar de uma vez com a ameaça vermelha. Tudo isso dito com desdém, com menosprezo, indicando os caminhos dos generais.

Do outro lado da rua, um grupo de jovens negros amontoados, conversando alto, vestidos com bermudas e camisas de time, tocas enfiadas na cabeça, bandeiras enroladas em pedaços de pau. Uma imagem intranqüila.

“Arruaceiros!”, vociferou o velhinho do 305. “Se existisse a lei contra a vadiagem estavam em cana, no xilindró, que é o lugar de todos vocês, seus pés- rapados!”. O dono do barzinho não gostou nada.

Os jovens atravessaram para tomar satisfação, “Que porra é essa, vovô! Que porra é essa!”. Estavam exaltados. “O netinho vai tomar as dores do vovô, vai”, recebi a provocação. “Ele não é meu neto, não preciso dele para dar conta de vadios”. O velhinho parecia ter perdido a razão, subiu na mesa, apoiando-se em seu equilíbrio frágil, brandindo a bengala como uma espada. “Vocês vão tomar no cu!”. A briga estourou.


O bando de jovens invadiu o bar, quebrando cadeiras, roubando os fregueses, assaltando o caixa, dando porrada em todos pela frente. O velhinho, derrubado no chão, chutado por todos os lados, cantava o hino nacional, gritando com as forças que lhe sobravam. Esmurrado, com um dos olhos fechados, inchados, vi o momento que um dos rapazes arrastou o velhinho do apartamento 305 para o meio da rua, “Véio fiodaputa!”.

domingo, 18 de outubro de 2009

Cidadãos de 2ª Classe.

2ª Classe. Cidadãos de segunda classe. Assim definiu o Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, quando denominou que o conflito que preocupou a todos neste último fim de semana, se deu em uma microrregião. Traficantes do Morro São João invadiram o Morro dos Macacos para tomar bocas de fumo. As drogas ainda dão dinheiro? Com a preferência dos mauricinhos e patricinhas pelas drogas limpas - entenda-se químicas - os usuários de cocaína e maconha ganham,pelo menos no meu entendimento, o status de anacronismos no corpo social. Então, por que a guerra? Os playboys tem self- service para entrega dos entorpecentes em seus apartamentos ou têm amigos que arrendam bocas de fumo para servirem aos companheiros de classe sem que isso implique em risco - como já foi noticiado pela imprensa sobre um jovem da zona sul que arrendou em um morro carioca um ponto de venda de droga.



A minha preocupação não está na guerra, porque durante todo tempo em que vivi na Zona Norte do Rio de Janeiro sempre presenciei confrontos onde todos lucravam: sejam os policiais corruptos que levavam armas quanto os traficantes envolvidos, fortalecendo a ideologia neo-liberal que os arregimentou, incitando-os a se dividirem e aumentarem seus rendimentos com incursões que resultam em baixas às vezes de antigos amigos de infância que por uma fatalidade estão posicionados em facções rivais ou são exterminados pelos mesmo policiais corruptos a quem servem para a famosa queima de arquivo, para que o sistema continue sua bárbarie, demonstrando à sociedade - a quem supostamente presta conta - de que tudo está sob controle.

E, nós sabemos que não está.


A classe média, enquanto as balas perdidas atingiam somente os favelados, não se mobilizou cobrando uma atitude das autoridades quando ainda era possível mudar todo o quadro. Quando a violência se democratizou através destas mesmas balas, começaram o surgimento de passeatas pela paz, ações sociais cobrando maior repressão aos ataques genocidas dos bondes que atravessam a madrugadas do Rio de Janeiro. Já era tarde para se podar as asas desses anjos demoníacos, alimentados pela pobreza, pela ganância da classe média, pelo descaso da sociedade civil e por outros fatores, inúteis inumerá-los, quando a situação de sequestro da cidade se presentifica dessa forma.

Mas, quando é declarado de que a cidade está profundamente dividida, entre cidadãos de 1ª e 2ª classe, dividida entre aqueles que devem ter atendidas suas reivindicações e aqueles que devem se resignar por estarem fadados ao segundo plano, sempre preteridos, esquecidos, por pertencerem ao território chamado microrregião, neste momento, a sociedade como um todo deve ficar atenta, porque um modo novo do fascismo se estabelece e condena uma parcela muito grande da população dessa cidade.

A discussão não é apenas sobre a discriminalização das drogas ou a venda de armas ou a parcela suja de um sistema inoperante para aqueles sem nenhuma expressividade econômica; é algo mais aterrador que se arrasta no subsolo social, tramado por uma parcela que ensaiou os passos da ditadura, acostumando-se aquela ginga que resultou nos mortos que as mães reclamam os corpos, naquela noite que dessa vez nada terá da presença dos militares, sendo expressa através desse muro intransponível que a má distribuição de renda já ergueu, que o descaso estatal já pontuou e a classe média ratificou nesse discurso, atribuído a um dos presidentes desse nosso país: "Problema social é problema de polícia".