segunda-feira, 4 de julho de 2016

Lições das Olimpíadas

“Não há como um indivíduo ser atleta sem ser educado no princípio da realidade: um competidor mais perde do que ganha.” Psicóloga no Fantástico no quadro Coração de Atleta.




Nós, brasileiros, nos últimos anos, com o assistencialismo estatal, perdemos esse princípio da realidade: de que nem todos podem ser vencedores mas todos tem o direito de competir; isto é, em última análise, o direito de resultado. Todos devem tê-lo, exigi-lo para a obtenção do direito de performance. O que infelizmente é negado a maior parte da população sem a minoração das diferenças socioculturais. Nesse exemplo, pensamos no centro de treinamento de um atleta de ponta que deveria ser o mesmo no primeiro mundo onde o competidor atua como também para os terceiro-mundistas, como nós. Deveríamos ter o direito de resultado garantido porque é o única maneira de se atingir uma igualdade possível.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Descobrimento do Brasil

O locutor indígena, do alto da torre de transmissão, com toda visão de jogo, vê a seleção portuguesa armar todo o ataque. Se a torre é um penhasco; o campo da pelada é o mar bravio; e a seleção as naus avançando para a costa; são outros quinhentos.

A taba em alvoroço, sem estratégia contra o inimigo retrancado: à frente um barco com um único atacante, desembarca na pequena orla e para diante de dois zagueiros brucutus e sem nenhuma tanga. As tais vergonhas, diz o árbitro Pero Vaz de Caminha – aposentado – comentarista da rádio TUPI.

Os zagueiros atarantados com as mímicas do estranja, os dribles do filho da puta, a ginga das pernas de defunto. Lá, no meio do gávea, com olhos de luneta, o capitão-mor, com sinais de impaciência, pede o gol. Atrás dos zagueiros, dois coqueiros, uma rede e pasmem o guarda-redes é uma indiazinha nua em pelos. Pode, Manuel? Claro que não pode, Joaquim...Nosso atacante hesita, vergonhas lisinhas, peitinhos em flor....Geralmente, a jogada é recomeçada, a bola recuada e toda uma nova triangulação tática para a chegada ao gol é feita.

O atacante pegou a bola, o loucutor indígena grita: MÃOOOOO! A partida é interrompida. Os zagueiros brucutus pelados cruzam os braços, o nosso árbitro comentarista Pero Vaz de Caminha está indignado, É anti-jogo!

Surge das águas um centroavante cuja presença estava apagada em campo: Vasco Ataíde. O capitão Cabral não acredita, o volante Nicolau Coelho está pasmo. Henrique de Coimbra, empresário de um tal Jesus, jogador de múltiplas habilidades, atuante na Europa, com entradas duras mas leais, acha que Portugal não está em boa forma – Se fosse a Espanha...

Agora a coisa fugiu ao controle dentro de campo – Todo mundo está pelado. As indiazinhas confraternizam com o time adversário, os maricas com os zagueiros brucutus, o sururu tá formado.

O locutor indígena que não é bobo, nem nada, larga tudo. É uma suruba. Toda torcida está em campo. Terraaaa de Vera Cruzzzz!, diz de algum lugar Herbert Richers; a película começa a desbotar, os créditos aparecem. Os sonoplastas são araras e tatus.


Convocam, de uma fenda temporal, Lamartine Babo – e o primeiro cordão carnavalesco realiza desfile. A entoação pode ser ouvida de longeeeee: Quem foi que inventou o Brasil? Foi seu Cabral! Foi seu Cabral! No dia vinte e um de abril...




Fonte da Imagem: Google.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Camisa Limpa

Os fumos de literatura são as ervas daninhas do canteiro do escritor; tão siglo diecinueve minha sentença que julgo apertar as mãos de Lope de Vega que por um tempo, não muito curto, cismei ser alcunha de meu barbeiro que também já encarnara Sevilha, não a do poeta espanhol, mas a de outro, um pernambucano, o tal João Cabral que, na quadrilha, ali no imbróglio, fez meu barbeiro retorcer os bigodes para ambos os senhores cuja comparação parecia não lhe ter agradado muito. 

A minha peroração, incompreendida, devido a reles companhia no salão, não sofria admoestação alguma pelos circunstantes que julgavam ter diante de si um caso mais de loucura do que do contrário, porque através das ondas sonoras do velho rádio acoplado ao jaleco de meu anfitrião, o programa Patrulha da Cidade estrondava os crimes mais cabeludos, com toda dublagem caricata e sonoplastia necessárias para o realismo da cousa. Meti-me a besta, enfileirei diante daqueles filisteus alguma literatura menos alta, mas, ainda, literatura. 

Não, não zombaram; permaneceram calados, enquanto eu, altissonante, reproduzia, mal e mal, trechos do Elixir do Pajé, de Bernardo Guimarães, que eletrizou a plateia logo em sua introdução Que tens, Caralho... Aquilo era o Navio Negreiro daqueles homens...Silenciei após uma dúzia de versos, circunspecto passei em revista a todos – a estupefação estampada nos olhos vidrados, explodiu em congratulações É isso que é poesia, encorajavam-me aqueles que anteriormente não ligavam a mínima a Lope de Vega...

Quando meu pouco cabelo foi arranjado, desarranchei da cadeira, paguei o devido ao meu barbeiro que, em surdina, comentou O tal Lopes é chatinho, mas o Guima é bem boca suja. O meu estabelecimento exige respeito. Melhor o tédio do que a imoralidade. Não cri. Retirei-me, não sem reprová-lo, ameaçando-lhe de abandono. Meu barbeiro, paciente, escutava minhas imprecações, anotando, no caderninho, outro pendura.

Se não me quiser pagar, tudo bem; mas pelo menos me deixa escolher a porra da poesia, emendou quando já me tinha distante. Num átimo, comi meu pão tão amargo, olhei aos céus e perguntei Deus, Shakespeare passou por isso?; antes me tivesse calado, porque em seguida, em resposta, uma pomba cagou-me a última camisa limpa.



Fonte da Imagem: Google.

Lembra-te, homem



As minhas crônicas sobre hábitos saudáveis não possuem um gabarito profilático para a manutenção do estado de saúde. O desemprego ou a diminuição da categoria dos profissionais de saúde não é a minha intenção, menos ainda a pretensão de ostracismo da doença do âmbito corporal, porque se ela se vai dele, a velhice – mesmo a saudável -, não é refreada ou detida.

Não cultivo inimizades com a categoria médica; pode custar muitíssimo e não sou um indivíduo cujo temperamento para liça mantém-se eriçado todo o tempo, cuja combatividade não se esgota para ser empregada em outra área, talvez, com novos inimigos e novos armamentos.

Retorno à categoria médica com quem não compro briga de nenhum modo, porque tive a experiência da internação – prolongada – e minhas birras custaram muitos procedimentos invasivos pouco gentis para atestação da funcionalidade, por exemplo, do sistema excretor. Não descerei aos detalhes, meu leitor, para a explicitação do que é capaz uma enfermeira, dentro de suas obrigações, estritamente, causar num pobre diabo acamado e birrento numa lavagem retal.

Os indivíduos que sempre mostram sucesso são tediosos – olhe meu bíceps, olhe meu abdômen, olhe minha panturrilha -, ostentando camisetas com os dizeres zero gordura ou coisa parecida, ninguém – são todos deuses olimpianos – é perseguido por inconfessáveis obsessões – gastronômicas, econômicas, sexuais, etc...Parece que o latagão ou a latagona nasceram do asséptico ambiente da academia, do cruzamento entre a esteira e o halter, sem caracteres de nenhuma natureza, tampouco sexo, cujo único comando é a adequação perfeita do corpo a uma regra de proporção harmônica difícil de se lidar sem caretas de contrariedade.

Na verdade, leitor, você já deve ter percebido: sou um fraco. E a minha fraqueza está resumida nos versos do poeta itabirano: “Se sabias que eu não era Deus/Se sabias que eu era fraco”. As minhas crônicas ziguezagueiam entre a sintaxe da cidade, através das minhas pernas; levanto genealogias nas poeiras do edifícios ou nas feições ensimesmadas dos transeuntes.

A fuligem sobre os automóveis, enegrecendo as roupas nos varais, ressuscita, em mim, a sentença “Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris” (Lembra-te, homem, que és pó e em pó te tornarás); retorno da caminhada, coberto de uma eternidade visível, de tantos outros clamores passados de homens e mulheres, que descem para o ralo após o banho. Lembro-me do tom jocoso da crônica, largado em algum lugar, para a escalada desse outro, existencial, borocochô. Constato que se é outro do que se foi quando da partida pelo caminho; a geografia altera o espírito.

Práticas Marginais




O alterocopismo é uma prática assídua realizada durante três dias – sempre aos fins de semana - por praticantes saudáveis ou os atletas mais fanáticos não se limitam ao curto período de três dias para o exercício dos membros superiores e alteração dos sentidos provocados como colateralidade da manutenção psíquica e corporal: alongam durante toda a semana a sequência executada nos três dias por atletas sem afinco à sua obsessão.

Nas sextas-feiras, em que o levantamento de copo goza de uma popularidade tremenda nos bares, nos botequins, nos restaurantes, nas lanchonetes, nas padarias; com ruidosa alegria, o esporte, praticado tanto em equipes quanto individualmente, eleva-se à categoria olímpica. Geralmente, o leitor - nessa altura do campeonato, depois da descrição de um desporto marginalizado, repleto de calúnias, vilão do excesso de peso, de cardiopatias e outros males -, deve-se perguntar – é o meu bordão, prefiro-o ao baixo calão – diabos onde o cronista quer chegar? Ao pecado da inveja – capital, martirizante, solitário e envenenador do espírito.

Explico: após grave problema de saúde tornei-me um desportista xiita, sem a benesse do álcool. Glória a Deus. Nas minhas caminhadas, principalmente, as tentações surgem – sinto-me um santo em provação num deserto -, mas sem um hagiógrafo para registrá-las para a posteridade ou um eclesiástico para o estudo de minha martirologia. Portanto, meu leitor, após a confissão de que a geladinha – coisa do demônio! vade de retro! – era uma fraqueza, você pode concluir a triste humanidade do atleta de fim de semana que se quer impoluto fisicamente – gostaram do impoluto? – mas sente-se terrivelmente arrastado para os prazeres mundanos.


A concentração em um objetivo e o sentido de todo o esforço acodem-me sempre que a debilitação quer ganhar o combate. Não me tomem como o rato Mestre Splinter, de Tartarugas Ninjas, com uma vontade inquebrantável, porque não corresponde a realidade. Termino sempre invadido por uma suave tristeza sem um pit stop da socialização, reinventando-a – a tristeza – noutras atividades para a saciedade do vazio dos antigos hábitos. A caminhada é uma forma de autoiluminação – acesa enquanto há fricção dos pés – quando cessada a atividade, resta na consciência uma centelha para iluminá-la inteira, livrando-a dos iminentes perigos dos hábitos de Circe – gastei, leitor, acostume-se...

Keep Walking


O slogan do uísque Johnnie Walker pode parecer contrário a qualquer ideia de saúde, porque incentiva ao consumo de bebida alcoólica, sempre prejudicial ao organismo, contendo, em si, um conselho perigoso para o consumidor do produto “continue caminhando” que, mais cedo ou mais tarde, se perguntará “Diabos, para onde?”, após a constatação de mais uma garrafa vazia e um copo com o resquício de bebida ao fundo. A complementação do mote com a frase “o otimismo te leva mais longe” acentua o caráter de humor - negro – da sentença, despertando no bebedor contumaz uma ligeira desconfiança sobre o destino que o aguarda e para o qual se dirige em um arremedo de saúde – caminhada e bebida, mesmo em uma esteira no ambiente seguro e climatizado de uma academia, nunca são boas companhias.

Não sou usuário de academia de ginástica, portanto, após classificá-las de um ambiente seguro e climatizado, com a minha negação, realizo uma adesão ao grupo com motivações suicidas que cismam na utilização das vias públicas para a prática do exercício ao ar livre – como se algum ainda restasse em uma grande metrópole cercada de violência e de poluição. O exercício ao ar livre é uma reivindicação política mais do que de saúde propriamente, embora ambas atitudes tratem de saúde – uma pessoal e outra social. Por que é uma reivindicação política? Porque se quer ter direito à cidade sequestrada por inúmeras mazelas noticiadas constantemente na imprensa escrita, falada ou televisionada. O uísque, onde entra o uísque, nessa baboseira toda, pergunta-se o leitor encafifado. Explico: o diabo é que o reclamo não saía de minha cabeça. “Continue caminhando, continue caminhando, continue caminhando” era um mantra cuja entoação era por mim realizada toda vez que calçava meu tênis. Como pode ver, querido leitor, a propaganda quase me levou a ser um alcoólatra platônico...

A propaganda e o exercício físico parecem unidas ironicamente nos comerciais de tevê. Se a marca de uísque é um exemplo recente da interação entre ambos; nos anos 80, o contato era entre saúde e cigarro, a marca Hollywood o sucesso – incitava-me a me tornar um desportista – ultraleves, bugres, motos e iates povoavam meu imaginário de juventude. E mais uma vez a propaganda havia me tornado um fumante platônico em convívio com o paradoxo da preservação do corpo – incompatível com a vida de um viciado em nicotina. Entretanto, o máximo que consegui viver em ritmo de aventura - sacaram? – foi um salto de asa delta da Pedra Bonita. O verdadeiro milagre foi ter sobrevivido sem uma cardiopatia...

O uísque não deve ter sentido em suas estatísticas de consumo a minha ausência; nem mesmo a indústria tabagista sofreu impacto em seus resultados de venda com a minha aversão ao cigarro; ambos, porém, tornaram-me refém – indiretamente – da saúde. Talvez um efeito colateral - indesejado - previsto pelos publicitários, ainda que inofensivo numericamente. Ministério da Saúde adverte: “Propaganda pode causar danos ao cérebro. Às vezes.” Em meu caso, a reversão das ordens ali sugeridas, fizeram-me, pelo charme, involuntariamente, ter um corpo saudável... pelo menos até o próximo comercial.



Mariel Reis,40, carioca, é praticante de caminhada, poeta, contista e ensaísta. Dá expediente em www.cativeiroamoroedomestico.blogspot.com

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Andy, o amoroso

Sempre gostei da Parmalat. O comercial com os pequenos animais da floresta estimularam minha criatividade. Ninguém é culpado por eu gostar do carnaval e de fantasias. Talvez, nascido no Japão, tivesse me tornado um celebridade local por andar fantasiado e distribuir balões de gás ou flores aos transeuntes da metrópole.

A revista Marie Claire, em 2000, em uma enquete a respeito do Dia dos Namorados, saiu atrás de histórias inusitadas a respeito da data comemorativa. E minha filha, curiosa a respeito de sua própria história, resolveu investigar meus arquivos e lá estava a revista com a reportagem que reunia vários casais daquele ano.

Como fiz muitas excentricidades, afinal, em se tratando de chamar a atenção de uma atriz teatral que rodava em premiações como o troféu Henriqueta Brieba, não poupei esforços. A revista decidiu-se por um dia em particular, entre todos os outros narrados por mim: o dia de minha declaração de amor. Talvez por ter sido - a um só tempo - engraçada, vibrante e surpreendente.

O diretor da companhia era um sujeito diferente para alguém de teatro: pontual, sóbrio e, sobretudo, metódico. Reuniria o elenco em um antigo clube na rua do Riachuelo - a sede foi demolida - e ali estava a minha chance. Eu tinha um agente infiltrado: um amigo. Ele não se decidia se queria ser padre, revolucionário ou ator. Ele era o responsável pela encomenda das quentinhas para o almoço. A minha oportunidade estava ali desenhada: eu entregaria as quentinhas desde que conseguisse a concordância da fornecedora. Aluguei uma fantasia de Panda; minha ambição era a de coala, mas, no mercado, não se têm muitas delas dando sopa. Comprei flores e entrei no ônibus em direção ao centro da cidade. Durante o trajeto, confundiam-me com um doutor da alegria e me enchiam de perguntas sobre hospitais que não visitei e crianças que nunca vi.

Meu amigo me telefonava, monitorando meus passos e o avanço da estratégia. Quando cheguei ao endereço da fornecedora de quentinhas, com a flores mais para lá do que para cá e o cabeção de panda embaixo do braço, quase me chamaram o carro do hospício. O entregador, sem espanto, disse, Você é ator, né? A mulher relutou mas, contada minha história, aquele coração enternecido resolveu me ajudar.

Toquei a campainha e o meu amigo abriu o portão da sede. O diretor quando viu um Panda na entrega das quentinhas, perguntou, Que porra é essa? Depois de colocá-las sobre umas mesas plásticas, subi ao pequeno auditório, retirei umas folhas amassadas do bolso e falei, longamente. O elenco aplaudiu. O diretor, estupefato, perguntou, É telegrama falado? É pegadinha essa porra? O cabeção do Panda dançou na minha cabeça e o suor provocou o nascimento de cascatas nas minhas sandálias e no carpete.


Saído da estupefação, o elenco, compenetrado, resolveu tirar o Panda canastrão de cena. Retirei o cabeção, olhei para ela e disse que a amava. Ela reagiu, Tirem daqui esse maluco! Meu amigo, o agente infiltrado, me consolava, Foi lindo! Bravo! O diretor reclamava, Gentinha filho-da-puta! Sempre querendo um biquinho...Ela só quis saber do Panda quase um ano depois.