Sábado, 26 de Julho de 2008

John Fante Trabalha no Esquimó : Um Agradável Sopro Difuso


Sábado, 26 de Julho de 2008


Rogério Pereira, diretor e editor do jornal curitibano de literatura Rascunho, certa vez disse que a pior coisa do mundo é ter amigos escritores, ou conhecidos escritores. Claro, para um crítico literário. O motivo que Rogério Pereira alega é que se um crítico literário tem amigos ou conhecidos escritores, ele tende a mentir sobre o livro que está analisando, ou fala a verdade e perde a amizade. É uma encruzilhada, de fato. Mas não quando o amigo ou conhecido é um grande escritor. Meu caso, que sou conhecido, e imagino que agora já possa me considerar amigo, do escritor carioca Mariel Reis.

Meu contato com Mariel começou através deste singelo blog, quando ele me enviou um e-mail elogiando um artigo que eu havia escrito sobre Raul Brandão. A partir de então começamos a trocar algumas idéias, alguns contos e Mariel me disse que tinha um livro inédito de contos, o qual me enviou para ler e dar meu parecer. Como na época eu estava pesquisando para minha monografia no curso de especialização em literatura brasileira, fui deixando a leitura do livro de Mariel pra depois. Não sabia eu o que estava perdendo. Eu podia ter deixado um Alfredo Bosi pra depois, um Candido, um Stuart Hall.

O volume leva o título de John Fante trabalha no Esquimó (2008), e reúne 16 contos. Mariel aborda temas ligados à classe média brasileira, como solidão, a violência urbana, carência moral entre os membros da sociedade, e em vários dos contos se aproxima muito do escritor curitibano Dalton Trevisan. Mariel leva muito em consideração o espaço urbano, fazendo deste, um ambiente degradado, ocupado por párias e elementos marginalizados, como no conto A Gorda, que conta a aventura sádica de um garoto de programa com uma cliente extremamente gorda, repulsiva em sua imagem e em seu caráter.

Os segmentos de imagens que Mariel trabalha nessa narrativa sombria é de extremo bom gosto e mostra um escritor que domina perfeitamente a técnica do conto, que, sendo uma narrativa curta, tende a propiciar ao leitor uma tensão que está na iminência de acabar. Mas não acaba com o final, e isso torna o conto mais saboroso ainda.
Os contos de Mariel, além de mostrarem tipos estranhos e grotescos, também apresentam uma atmosfera fantástica, bem ao estilo de Murilo Rubião e Moacyr Scliar. O conto Jonas, a Baleia, ao mesmo tempo em que faz alusão ao profeta bíblico, faz alusão também à Metamorfose, de Kafka, pois nesse conto um jovem acorda transformado numa baleia. E o mais interessante, para confirmar que Mariel pratica também literatura fantástica, é que no final da narrativa, assim com Gregor Samsa, Jonas é visto dessa forma, e seu vizinho não estranha o fato de haver uma baleia no quarto e até considera o olhar do animal semelhante ao de Jonas, e dessa maneira o absurdo é aceito dentro do universo da ficção. É o que Todorov chama de sobrenatural aceito, em seu livro Introdução à Literatura Fantástica.

No conto A Viagem, mais uma vez Mariel encontra na violência urbana tema para sua narrativa. Mas não se resume a isso. Nesse conto há um narrador em primeira pessoa (outra característica de Mariel é oscilar muito o seu foco narrativo), que é um assaltante de ônibus num ambiente periférico no Rio de Janeiro, mas é um assaltante que tece considerações metafísicas sobre os atos criminosos que comete. Ele está cansado do trabalho que exerce, e quer parar. Esse conto é um exemplo de que a literatura de Mariel Reis não pode ser vista como pessimista, mas sim como realista, e até há uma pitada (contida, claro) de esperança.

Em todos os contos, ou em quase todos, Mariel além de construir personagens de personalidade forte e decadentes moralmente, também leva muito em consideração o espaço. O espaço em todo o livro é muito bem trabalhado, e em algumas das narrativas exerce influência direta sobre os personagens. Como acontece no conto O Prisioneiro, entre os melhores do volume. Há nesse conto referências diretas à sociedade e às suas mazelas, como o caso da violência e da superlotação dos presídios. O protagonista narrador, um presidiário que espera sua liberdade, é um indivíduo que já se acostumou à sua atual situação, e dessa maneira, é alguém totalmente assimilado ao meio ao qual pertence. Mesmo não querendo permanecer preso, não se sente capaz de retornar à sociedade e as considerações filosóficas que tece é de extrema beleza e profundidade.

O conto Por Mil Demônios é o maior exemplo de literatura fantástica que há no livro. É dividido em oito partes, e conta a história de uma moça que carrega em seu obro esquerdo um demônio. Depois percebemos que o demônio carrega em seus ombros homúnculos. É uma metáfora sobre a conturbada relação interpessoal, pois todos estão (nesse conto) fadados a sucumbir aos próprios demônios e também aos demônios dos outros.

Em relação à técnica de Mariel nesse conto, é interessante apontar que há mais de um narrador, e com isso ele demonstra bom domínio da técnica narrativa. Mariel durante a composição da narração soube realizar as mudanças narrativas na hora certa, sem experimentalismos baratos e amadores. Há uma forte presença de um discurso polifônico nesse conto, que em muitos momentos exige atenção dobrada do leitor. Também há de se levar em consideração a presença de um narrador onisciente e onipresente, que narra mas não participa dos fatos narrados. É uma inteligente manobra de mudança do foco narrativo.

A opção pela narrativa auto-diegética (em primeira pessoa) dá ao escritor uma ferramenta a mais para trabalhar a construção de seus personagens (seu interior), pois o foco narrativo em primeira pessoa permite a exploração do fluxo de consciência. Junto com isso, há a opção de Mariel pela ausência de diálogos, fato que permite uma realização quase completa do fluxo de consciência. Esse fato se evidencia mais naqueles contos que têm como tema o espaço e o ambiente urbano.

Como um todo, Mariel Reis fez em John Fante trabalha no Esquimó um trabalho notável. Mesmo discordando de Mariel em algumas escolhas narrativas em alguns dos contos, seu livro é de extrema importância para o cenário literário atual, principalmente em relação ao conto, que estava precisando de um sopro de vida. Mariel Reis consegue isso. E assim, quem sabe, como no conto que dá título ao livro, não passemos a ver o rosto de Mariel em cada esquina do Rio de Janeiro, sempre à procura do autor preferido.

Daniel Osiecki - Crítico Literário curitibano
Escreve o blogue : Távola Redonda
http://poesiatavolaredonda.blogspot.com/

Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Coculilo e a Repetição

A repetição paisagística na obra de Francisco Coculilo é parte de uma experiência sensorial com os elementos da composição. Quando a percebemos quase exaustivamente em seus quadros não atentamos que o pintor busca uma intersecção entre os elementos da pintura como para descobrir o real diante de uma cena adâmica: a Baía de Guanabara. Isso se assemelha a lição de Monet quando se debruçava sobre a natureza, estudando-a sob as variações luminosas, descobrindo as camadas de realidade que pode conter um mesmo espaço – ali onde a pintura se instalará – revelando a característica escultórica, me explico, as dimensões em que pode ser investigada, fornecendo ao artista não a mesma paisagem, mas um outro senso de perspectiva do natural.

Porque quando a natureza é transferida para um suporte, sendo representada, está sofrendo uma transformação em seu conceito de natural, neste não há somente aquilo que o pintor vê – como um olho – coexistem nessa percepção uma interferência que transferirá ao objeto a transvaloração de si mesmo. Isto parece ter sido parte do projeto do paisagista Francisco Coculilo ao representar com intensidade a natureza – ele não somente a falsifica como a recria, é fácil perceber quando se observa uma pintura de sua autoria que não diferem dos grandes painéis cenográficos usados pelo cinema quando ainda se usava o estúdio para filmar as películas. E, nesta intenção, o olhar do pintor se renova e aperfeiçoa aquilo que mira, limpando a geografia daquilo que julga incorreções, projetando na imagem – porque a realidade já significa uma representação no sentido platônico – as descargas criativas de um pequeno demiurgo que se intromete através da re - criação a tornar mais belo o cenário em que repousa.

Esta volta do olhar sobre os mesmos motivos pode parecer monótona ao espectador viciado na velocidade e representa a re - volta do pintor para não integrar a nova ordem demolidora, perturbadora de uma paisagem onde o homem apenas está insinuado na pintura através da cidade que cintila à distância, dos pequenos barcos pousados como nuvens sobre a superfície da baía. Coculilo admite que o homem esteja presente no cenário natural, mas não que a subverta, que a reinvente ou a capacite de belezas que não precisa. É um projeto que rejeita as manifestações modernistas, porque adulteram de modo negativo a natureza. O pintor julga que sua intromissão é positiva, soma ao conjunto de elementos vistos uma harmonia que estava em seu interior e ao repeti-la continuadas vezes é como se integrasse a uma sinfonia não cansa aos ouvidos, servindo de música ambiente aos temas que desenvolve, completando a criação daquilo que ela está destituída. Pretensão? Cabe somente ao espectador formar sua opinião.

A Minha Dúvida como Escritor

A releitura de meus contos me constrange. Porque é outro o escritor que ali está, não sou mais eu, mas algum reflexo de mim mesmo congelado sob aquela ótica, naquelas linhas, coberto por inteiro por todas as frases escritas, protegido do frio dessa existência que acena somente para nossa extinção. É um escritor que reluta, não quer desaparecer e sente uma insegurança sobre os juízos que faz sobre as coisas, porque a realidade é movediça – como o nosso interior – onde muitas coisas estão mergulhadas, em uma grande sopa cósmica da qual resultará, isto com sorte, acertos sobre o mundo – aquele que se subscreve através de suas linhas – este interior abissal de onde o escritor se mira perplexo e não se vê.

É outro o escritor – mal conversamos quando passamos um pelo outro pelos corredores dessa escrita; eu sigo, sombrio, desconfiado, lendo o que este escreveu sem muita convicção de que aquilo um dia forme um todo coerente, um muro com tijolos sólidos para a proteção do individuo feito de verbo e sombra. Por que não consigo acreditar naquilo que escrevi, que escritor segurava as minhas mãos para enfileirar aquelas bobagens, a eternidade se entregará aquele escritor? As minhas dúvidas persistem sobre o caráter de permanência dos escritos, isto se intensifica quando leio os grandes autores, penso na minha pequenez diante de textos consagrados – tento enxergar naquilo que escrevo o lampejo e não acontece. Isto me angustia.

Às vezes me assalta a vontade de abandonar a escrita. Toda a sua dificuldade, percalços, conspirações e dor. Porque a literatura provoca nos seus praticantes momentos dolorosos de auto-critica, angústias e inusitada euforia quando se consegue uma boa frase ou um parágrafo razoável em que se espelhe a idéia que se queria representar. Por que não abandono a literatura? A razão não está clara dentro de mim para que a resposta se mostre com nitidez. Talvez a minha necessidade em dialogar com o mundo, compreendê-lo à minha forma, simplificá-lo em sua brutalidade. A vontade é constante, porque não sinto que haja um caminho – que todo desejo de eternidade, mesmo através da sublimação na arte, é um subterfúgio para se afastar da morte – é uma máscara nova para nossa covardia. A covardia em consentir na construção de um sentido para a vida e para nós mesmos.

A releitura dos meus contos me constrange. Não porque sejam ruins – e não o são. Mas porque insistem em fixar em algum lugar um oásis para a minha fuga, consagrando ao meu escapismo um glamour e diferença dos que se matam calados, sem ter escrito uma única linha, sem mesmo a preocupação do bilhete suicida.

Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Um Livro Imperdível

Este livro merece a nossa atenção. No centenário da morte de Machado de Assis...
AUTORES ATUAIS

REESCREVEM MACHADO DE ASSIS



No centenário da morte de Machado de Assis, com organização do premiado contista, doutor em Letras pela Unicamp e professor universitário Rinaldo de Fernandes, a Geração Editorial lança a antologia Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte, que, além de incluir os dez melhores contos de Machado, traz um conjunto de narrativas recriando esses dez melhores contos e passagens/situações do romance Dom Casmurro. São autores renomados, emergentes e jovens promessas da literatura brasileira atual que reescrevem Machado de Assis na antologia: Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Hélio Pólvora, Cecília Prada, Nelson de Oliveira, André Sant’Anna, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso, Ivana Arruda Leite, Andréa del Fuego, Marcelo Coelho, Deonísio da Silva, Daniel Piza, Godofredo de Oliveira Neto, Bernardo Ajzenberg, João Anzanello Carrascoza, Antonio Carlos Secchin, Leila Guenther, Marilia Arnaud, Rinaldo de Fernandes, Raimundo Carrero, Mário Chamie, Aleilton Fonseca, Tércia Montenegro, Maria Valéria Rezende, Maria Alzira Brum Lemos, W. J. Solha, Amador Ribeiro Neto, Carlos Gildemar Pontes, Nilto Maciel, Aldo Lopes de Araújo, Suênio Campos de Lucena, Carlos Ribeiro, Ronaldo Cagiano e Sérgio Fantini.

Diz Rinaldo de Fernandes, no texto de apresentação da antologia: “O conto ‘Missa do Galo’, de Machado de Assis, é aqui recriado por quatro escritores. Osman Lins, na década de 70, já havia preparado um livro propondo o mesmo a cinco autores: Antonio Callado, Autran Dourado, Julieta de Godoy Ladeira, Lygia Fagundes Telles e Nélida Pinõn. O próprio Osman Lins, com uma narrativa inédita, integrou o livro, intitulado Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema. Retomei o projeto do autor de Avalovara e o ampliei. Agora não apenas ‘Missa do Galo’ é refeito, mas ainda nove outros contos de Machado. O conjunto dos dez contos aqui reescritos: ‘Missa do Galo’, ‘A Cartomante’, ‘O Espelho’, ‘Noite de Almirante’, ‘A causa secreta’, ‘Pai contra mãe’, ‘O Alienista’, ‘Uns braços’, ‘O Enfermeiro’ e ‘Teoria do medalhão’. Foram, na ordem em que estão, escolhidos como os melhores do Bruxo por dezessete escritores brasileiros, em enquete que realizei”. Diz ainda Rinaldo: “Para ampliar ainda mais o projeto em que me baseei, aqui são reescritos também trechos/situações do Dom Casmurro (um resumo do romance foi feito pela professora de literatura brasileira Sônia Maria van Dijck Lima). Há ainda alguns ensaios, fechando o livro, que investigam aspectos importantes da ficção, da poesia e do teatro machadianos.” Ensaios imperdíveis, de autores importantes, como Silviano Santiago, Luiz Costa Lima, Pedro Lyra, Regina Zilberman e André Luís Gomes.

Enquanto, no presente, para prestar homenagem aos cem anos de morte do autor, alguns lançamentos acumulam-se buscando cobrir as tantas facetas da produção de Machado, este Capitu mandou flores consegue abarcar várias delas de uma só vez: traz narrativas insuperáveis do célebre escritor, as recriações dessas narrativas e ainda ensaios bastante esclarecedores de aspectos fundamentais da obra do autor de Brás Cubas.

Com certeza, este livro ficará entre as obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Um exercício de reescritura de Machado de Assis até aqui nunca proposto em nossas letras, abrangendo tantos autores e textos de qualidade. Pode-se afirmar sem medo: um livro ímpar, para ser lido por gerações. Um livro imperdível!

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As Minhas Encarnações Queridas

A minha vida anterior – a minha encarnação passada – é uma incógnita. Uma amiga leitora me pediu para arriscar alguns palpites, porque seria curioso ver como me comportaria diante de um desafio dessa natureza, imaginar o que eu teria sido. Aleguei minha falta de imaginação, porque não conseguia me conceber de outro modo, diferente do que sou agora, o que já é uma incrível viagem se analisarmos toda a coisa por esse prisma. Por que tenho esse nariz? Os olhos quem os colocou dessa forma? Por que não tenho membros maiores – isso inclui trocadilhos infamantes, está certo, leitor querido. Então, comecei a curtir a idéia e seduzido pela proposta, resolvi me concentrar para chegar a regiões profundas do meu inconsciente – onde dizem estar todas as informações guardadas a esse respeito – para acessá-la, descobrindo a resposta para o pedido da leitora.


Há teorias encarnatórias em que o individuo pode passar por várias fases: desde a mineral à humana. Aproveitei o gancho que elas possibilitam para emendar que nesta era tecnológica minha primeira lembrança – ou aquela que se livrou do soterramento do meu inconsciente – é a de que fui uma torradeira Kenwood americana. É a lembrança mais doce por estar associada à rotina de uma família em um hemisfério do planeta tão inóspito aos estrangeiros. Só que naquele tempo, eu estava integrado a esta rotina, minha ranhura ajustável, minhas opções de tostagem – 7 opções se bem me lembro – ajudava toda família no caminho da felicidade matinal. As mãos delicadas e firmes da dona de casa, branca, com um coque louro, sardas nas maçãs do rosto, me seguravam para levar para o mármore alvo da pia onde realizava o meu trabalho, pontualmente.


Nesse período não concebia outra felicidade, talvez não existisse mesmo; as crianças descongelavam o pão, mirando como diante de um milagre o aviso de que estava pronto quando as fatias saltavam do meu interior. A minha vida – útil – terminou em uma tarde ensolarada, a dona da casa se arrumava para sair, penteava o cabelo com o rosto espelhado em meu corpo de aço escovado, refletindo tão nitidamente as marcas em torno dos olhos, as orelhas enfeitadas com brincos, a boca besuntada de um batom avermelhado, chegando ao exagero, quando bateu aquela fome inesperada, a dona da casa decidiu fazer uma torrada. Minha resistência não agüentou à emoção de vê-la tão bonita. A partir desse fato, não me lembro de mais nada, minha consciência se apagou.


Quando recobrei a consciência, meus olhos despertos se percebiam em um outro corpo, mais fino, cilíndrico, com uma cor vibrante, nas mãos também de uma mulher, que examinava com cuidado a minha extensão, perguntava sobre o uso de pilhas, número de velocidades, se não era perigoso. A vendedora afirmou que não tinha perigo nenhum, a segurança do produto estava garantida, que se ela tivesse qualquer problema, poderia trocá-lo por outro artigo. Presumi que eu era uma faca elétrica, isto se quisesse enfileirar logicamente minhas memórias sobre minhas encarnações anteriores e segundo teorias conservadoras que rezam que voltamos à existência na mesma casta espiritual em que nos encontrávamos – isto é, objetos de uso eletrodoméstico, especificamente na cozinha. O meu engano foi enorme, porque a mulher negra pagou um preço exorbitante e deu um risinho safado para a vendedora, prometendo ter noites inesquecíveis na minha companhia. Já podem imaginar que tipo de coisa eu me tornei. A minha última lembrança nessa forma corpórea é a de uma grande orgia de mulheres, que me passavam de mão em mão, enlouquecidas. Não resisti ao uso contínuo, esta advertência na minha embalagem não fora respeitada. A mulher negra lamentou muito a minha morte.


As lembranças desprendidas do meu inconsciente nem sempre eram agradáveis como essa. Às vezes ocorriam memórias como a de ser a tigela de comida de um filhote, com dentes afiados, que para se educar a respeito de sua força, mordia toda a beira da cuia. Outras vezes, por encarnações deprimentes, como a seringa de um drogado, descartada depois do uso em uma lata de lixo qualquer de um grande centro; algumas como o travesseiro que embala o sono inocente de uma menina de olhos puxados em uma terra tão distante que não recordo o nome exatamente; a mais bonita foi quando me tornei uma nuvem resmungona, porque a altura onde eu residia o vento era frio me causava um incomodo desgraçado e não loja especializadas de casacos para as pobrezinhas que estão sobre as nossas cabeças sujeita a se esgarçarem caso algum avião maldoso cisme em rompê-la em sua travessia. O melhor de ser uma nuvem era a fina chuva do verão, quando se uníamos para as traquinagens de lançar os pingos de água sobre os transeuntes.


O contato com corpo masculino – talvez a minha maior provação em minha migração encarnatória. É melhor pular essa parte, porque não quero ouvir gracinhas dos leitores mais espertinhos e pouco espiritualizados que passarem por aqui. A minha leitora deve estar satisfeita com a descrição pouco épica de minhas vidas passadas, imaginando que hoje estou melhor sendo quem sou e como sou. Nesse último instante, a lembrança de ter sido um general me assalta a mente, forte e nítida, diante pelotões perfilados, todos sob meu olhar, sob a vigilância de minha inspeção. Quando surge enorme um garoto com a cara rosada, recolhendo para uma caixa enorme todos os bonecos espalhados sobre o piso, resolvendo ir brincar no quintal.

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

O Erotômano Imperfeito



Texto escrito para concorrer ao prêmio Eu, Leitor(a) da revista Marie Claire


As revistinhas de sacanagem não estavam mais na estante do armário. Isso era um bom sinal, se era. Decidi naquela manhã pelo meu bom mocismo. Eu não castigaria mais as imagens de homens e mulheres trepando para valer. Eu não assistiria mais aos vídeos eróticos enfileirados que formava toda minha coleção de obras erotômanas. Minha mãe não largava do meu pé, dizendo para eu arrumar uma garota, acabar com as reuniões que se estendiam até altas horas da noite, com a presença daquelas mulheres de papel, dois amigos que traziam também as suas e uma menininha safada do quarteirão fronteiro da casa – que às vezes facilitava para que minha mão tocasse seus peitinhos, coxas e bunda. Não era lá grande coisa, mas para um moleque não poderia passar em branco, me sentia Napoleão passando embaixo do Arco do triunfo após suas vitórias.


Isso tudo um dia foi perdendo o sentido, talvez com o passar do tempo, a adolescência sendo deixada em um compartimento escuro, repleto de privações e frustrações, indicasse que o meu caminho seria melhor dali para frente. Eu só conhecia a carne, seguia o ensinamento sagrado: comer carne, cavalgar carne, por carne dentro da carne. Mesmo que em minha imaginação. Porque a parada era dura com as meninas e elas só tinham uma coisa em mente: casar. Um pirralho como eu casar? Estavam loucas. Nas brincadeiras de médicos eram generosas, ofertando para consulta suas partes ocultas para injeção, curavam-se do mal que as afligia. Ali tirava o meu sarrinho, sempre de leve, porque naquele tempo não tinha condições de associar que o meu piu-piu caberia em um espaço tão estreito quanto o do sexo de uma menina.


Eu tinha curiosidades. Algumas curiosidades eu procurei satisfazer – como colocá-lo, o piu-piu, no aspirador para saber se seria sugado ou não. Ou alojá-lo no macio e quente monte das bundinhas tenras das moçoilas que se atreviam a me dar confiança.


Na brincadeira ensaiavam-se os desejos adultos sem que tivéssemos consciência – se existia mesmo alguma não era proposital, era algo puro como naquele filme Lagoa Azul, só que com um pouco mais de safadeza. O tal polimorfo perverso, Freud me destruiu a pureza quando cunhou esse termo, porque define bem certos tipos.



Não poderia dizer que encontrei meu amor de forma inesperada – porque esse aconteceu muito tempo depois e está sendo contado no momento por uma rival que se atreverá a me tomar o cetro de rei, caso a revista odeie essas reminiscências sacanas, porque sou alguém pouco dado a amores platônicos, resolvendo-me pela carnalidade. O corpo é a morada suprema da alma caso isto exista; caso não, esse principio anímico que nos inspira, a eletricidade que conduz os impulsos através de nosso corpo será a responsável pelas contrações respiratórias e divinatórias quando ausculto o céu como se investigasse um mapa para saber o motivo de o homem ser como é: tão imperfeito e capaz de maravilhas.


Então, a sacaninha que me encantou a primeira vez, porque essa história tem a ver com a primeira vez e a maneira inesperada como encontrei o meu amor, mesmo sendo o primeiro. Será que há um número limitado de amores para se encontrar? Ou tudo não passa de um engano, porque temos os olhos ocupados para percebê-lo quando se apresenta? É uma resposta difícil, mas a vida é ensaio para inúmeras respostas que não se concretizam como a própria existência é um ensaio incabado.


Aquela safadinha – prefiro chamá-la pelo apelido carinhoso Valentina – isso não é de maneira alguma seu nome real, porque hoje é mulher direita, casada, situada nessa cidade, negríssima e triste. Triste como uma noite que não se orgulhasse de suas estrelas, nem de sua luz emitida por constelações distantes por planetas quem sabe até mortos.


Valentina era amiga de minha irmã – sempre tinham o que conversar. Mulheres arrancam assuntos dos motivos mais inesperados – quando menores parecem vir de algum lugar recôndito e escondido como aquele jardim secreto que só elas visitam. Nós, os homens, bobões, admirados apenas por pedaços de coxa, peitinho ou a cor da calcinha não temos a metade da metafísica da alma feminina, nem a entendemos. Mas para quê também? Seria um trabalho inútil. Porque a natureza assim quis. Mesmo o carinha que se forma em Oxford continuará preso a essa carga de indiferença genética que o guiará ao caminho da reprodução, dominação e exploração do universo feminino, ainda que apele para artimanhas mais sofisticadas – porque isto as mulheres exigem: que dominemos, mas que sejamos inteligentes, bonitos (porque é barato ser bonito hoje em dia: é só ter um limite de cartão de crédito muito grande e o conhecimento de um bom cirurgião), humorados, etc. Nesse quesito não posso me queixar, ganhava aquele simpático quando era avaliado pelas colegas de minha irmã. Valentina era a minha preferida. A pele de ébano, os lábios carnudos, olhos expressivos, corpo – se posso chamá-lo dessa maneira – atraente; acho que até um cabo de vassoura bem vestido me atrairia porque meus hormônios se manifestavam com freqüência sobre minhas preferências sexuais.


Valentina não deixava por menos, sabia de minha fraqueza, da minha queda por ela e não me poupava tomando em pleno verão banho de mangueira na calçada de casa, com camisa branca, sem nada por baixo. Viam-se aqueles carocinhos apontarem, nem seios eram, mas já o suficiente para me enlouquecer. As bermudas curtinhas, deixando a polpinha do bumbum a mostra, sorridentes. Talvez fosse amor – os animais quando estão no cio se amam em algum grau? Ou não se amam? Eu estava apaixonado pela inesperada Valentina, porque a todo instante quedava as mãos para perto do meu piu-piu, cochichava-me indecências – hoje quando relembro eram de uma pureza impar. Mas o momento singular que me despertou para o amor de Valentina não tem o inesperado que as cartas das leitoras se apressarão em mostrar, porque não tinha teor erótico.



Um dia cheguei à casa de Valentina. Ela chorava desconsolada. Tentei me aproximar para sondar o motivo das lágrimas, conversando com as palavras que encontrava que tentavam mostrar maturidade e se embaralhando quando julgavam ter achado. Valentina me mostrou o caixãozinho do passarinho de estimação, me abraçou de uma maneira que não recordo como reagi. De alguma forma aquilo era o tal amor, porque o meu pinto não endureceu com a demonstração de afeto, havia algo calmo insinuado em meu peito, não tinha aquela aflição em lamber, meter as mãos entra as pernas dela. Nada disso me passava pela cabeça. Só queria mesmo ampará-la, tê-la quieta como o passarinho que enterramos na praça perto de casa. Quando acabou o enterro, ela me beijou – sem aquela pressa de se lamber como tínhamos quando brincávamos de médico. Talvez fosse mesmo o amor, seguido sinistramente pela morte, rastreado no peito de um sacana que era eu, naquele dia mal iluminado da minha pré – adolescência.


Depois do beijo, fiquei passando a língua nos lábios para renová-lo. Meus irmãos riam muito do meu gesto, me acusando de estar maluco. Aquela era a única forma de recordar a maciez dos lábios, a impressão do corpo que já ganhava outro significado na minha memória afetiva.

Talvez fosse o amor – inesperado, não. Porque estava ali ao lado, bem perto. Quando Valentina anunciou que se mudaria com a família, entrei em uma depressão profunda, não quis mais saber de nada, abandonei os estudos, parei de tomar banho durantes seis meses, vestindo a mesma roupa ensebada do meu primeiro encontro com Valentina.


Minha irmã me apresentou outras amigas, mas nada resolvia o impasse instalado em meu espírito.

O tempo passou. Eu fiquei mais gordo e feio. Metido a intelectual, assistindo aos mesmos vídeos pornôs, mas em motéis baratos em companhias agradáveis, sempre com a desculpa de apimentar a relação, dar um barato ao sexo naquela noite e outras invenções para que a consciência do adulto se justificasse plenamente diante daquela de quando moleque. A carne é triste disse um poeta francês, não me recordo agora o seu nome. Mas um dia cruzei com Valentina em uma das ruas do centro – já mulher e com filhos. Tinha cicatrizes pelo corpo, estava morando em uma dos bairros mais distantes, casada com um sujeito ciumento, que toda vez cismava que a sua preta estava dando mole para alguém a marcava com a brasa de cigarro. Os olhos apagados, o sofrimento entorpecendo o corpo sem alegria, sem o meneio de quadris tão característico do seu andar em outro tempo. A carne é triste, pensei, quando em mim surgiu ainda algum desejo por ela, Valentina.

Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Leon Tolstoi no Céu?

A psicografia de determinados autores é algo arriscado. Primeiro, não há certeza real se é mesmo o autor que se apresenta para escrever centenas de páginas, porque se alguém tem esta certeza é o médium e não pode transmiti-la a outrem sem o argumento de que se deve acreditar, porque, para se defender, utiliza o número de informações recebidas, lembranças que somente o escritor morto teria e construções que na maioria das vezes excedem a educação do médium, sendo alguns mesmo semi-analfabetos. O que garantiria a isenção do fenômeno.

Isto não é um juízo sobre o valor dessas transmissões, se são de caráter verdadeiro ou falso pouco importa. O que preocupa é a lástima de ler um autor russo, por exemplo, como Leão Tolstoi que nada tem a ver com aquele que em vida, ou se preferirem, quando encarnado, nos deu obras do porte de Ressurreição, Anna Karenina e outros contos maravilhosos. O meu comentário repousa sobre uma constatação, depois de lido um relato psicografado através de uma médium sobre o renomado autor russo, alegando que aquele texto seria de sua autoria – porque o livro se chamava Leon Tolstoi por ele mesmo – narrando a experiência de sua chegada ao outro lado da vida, me deparei com um escritor quase imbecilizado, como se esses assuntos nunca tivessem constituído preocupação sua quando vivo. Tudo para ele era motivo de admiração e estupefato como um colegial que descobre salas secretas em sua escola e nelas livros raros proibidos.


O que é um contra – senso, porque Tolstoi passou parte de sua existência dedicando-se a descobrir sobre essa outra vida, levando-se a desistir de sua posição de nobre, professando um ideal cristico de pureza tão assustadora que os próprios familiares pensaram em interditá-lo, isso demonstra que a vida espiritual era uma ambição conhecida por esse escritor, escrevendo inclusive contos espirituais, imbuídos de uma moral edificante, usados na educação dos mujiques de sua propriedade em uma escola fundada por ele onde seus familiares participavam dando aulas.


O livro psicografado mostra Tolstoi imbecilizado, desfila um autor leigo,que só tivesse desses fatos uma mera idéia e não o escritor que se lançou em uma busca assustadora da procura de sua essência. Portanto, esse livro, Leon Tolstoi por ele mesmo, não merece nossa atenção e respeito, por se tratar, em minha visão, da percepção distorcida desse aparelho – a médium – a respeito do autor russo. Se não existe coerência nas idéias do livro, outro terreno onde tudo desanda é a escrita. E nisso não há aquele que tenha lido uma página desse autor que não discorde de que ali o que está escrito não pertence de maneira nenhuma a Leon Tolstoi pelos inúmeros clichês e lugares comuns espalhados no texto.

Quando Tolstoi é psicografado ou é um imbecil alegre, um santo que se desviou de seu caminho, como a um louco que por não poder contar com o juízo, é absolvido por seus juízes, sendo encaminhado para uma reeducação; ou é um sábio, empolado, cheio de certezas acerca de si mesmo e do mundo, vaticinando sobre o que existe além como um doutor que pudesse demonstrar as camadas de tecido que compõem o universo, nomeando a cada uma, mostrando nossa ignorância, nossa pequenez. Portanto, é difícil acreditar que se trata realmente do autor russo, mas não se pode negar que é um feito e tanto estar por aí, pelo Brasil, espalhando suas sementes, florescendo através de nossos médiuns uma figura tão ilustre e respeitada, mesmo sendo esculhambado em sua sintaxe.