Naquele tempo eu era um rapaz sem pretensões. Trabalhava como bancário em uma agência no centro da cidade, torcia pelo América Futebol Clube e tinha preocupações com o país – era o ano de 1972. O Brasil vivia o auge da ditadura.
sábado, 31 de outubro de 2009
Amor e Ditadura
Naquele tempo eu era um rapaz sem pretensões. Trabalhava como bancário em uma agência no centro da cidade, torcia pelo América Futebol Clube e tinha preocupações com o país – era o ano de 1972. O Brasil vivia o auge da ditadura.
Opinião Sobre Minha Arte Poética
"Seu trabalho apresenta em muitos momentos uma boa formação lírica, com uma dicção cristalina,algo que me lembra uma bela poeta como Henriqueta Lisboa, por exemplo."
3 Poemas de Henriqueta Lisboa*
Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.
Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,
dançam livres como libélulas
em redor do fogo.
Publicado: Prisioneira da Noite (1941)
Séquito
Seguir o rei
por toda parte
antes que a coroalhe caia
Publicado: Reverberações (1976)
Expectativa
Neste instante em que espero
uma palavra decisiva,
instante em que de pés e mãos
acorrentada estou,
em que a maré montante de meu ser
se comprime no ouvido à escuta,
em que meu coração em carne viva
se expõe aos olhos dos abutres
num deserto de areia,
— o silêncio é um punhal
que por um fio se pendura
sobre meu ombro esquerdo.
E há uma eternidade
que nenhum vento sopra neste deserto!
(De Prisioneira da Noite, 1941)
*Sobre sua poesia, Drummond nos deixou o seguinte testemunho: “Não haverá, em nosso acervo poético, instantes mais altos do que os atingidos por este tímido e esquivo poeta.” Fonte:http://www.revista.agulha.nom.br/hlisbo00.html#bio
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Por Uma Obra Aberta
A superestimação sobre determinados autores pode causar equívocos sobre a interpretação de suas obras. O autor da orelha do livro ou o prefaciador podem indicar caminhos que fechem completamente o sentido do trabalho, conduzindo o leitor ao mesmo desenlace de suas leituras, evitando, por força interpretativa, que aquele que toma contato com o que está escrito forme seu conceito e extraía dali suas experiências e conclusões.
O Silêncio das Xícaras, publicado pela Editora da Palavra, de autoria da poetisa e editora Helena Ortiz é tributado por esta atitude. Logo no prefácio deparamos com o esbanjamento erudito que afirma o caráter dos contos ali reunidos, torna tímidos os acessos dos menos iluminados que porventura não conheçam o livro anterior da autora – Sol sobre o dilúvio – para entender as correlações apontadas.
O leitor, aquele que toma contato pela primeira vez com o texto da autora, terá duas reações: ou comprar toda a obra discutida ou abandonar a leitura do prefácio e do livro por não estar apto à discussão ali empreendida.
A orelha também inculca conceitos que, se bem observados, desembocam do mesmo modo no fator restritivo. Nisto os dois mecanismos empregados – a orelha e o prefácio – mesmo que bem intencionados, prestam um desserviço ao livro, que é realmente repleto de pontos positivos, defendendo-se por si próprio de eventuais acusações que possa vir a sofrer tanto por parte da crítica quanto dos escritores que cismarem em visitá-lo.
A restrição é em relação ao modo como foram pensados os textos na máquina-livro, impedindo o leitor de um estar à vontade para ir e vir das páginas nesse passeio pelos jardins das veredas que se bifurcam que é a literatura.A autora, quando perguntei-lhe sobre este excesso, tanto no prefácio quanto na orelha, referiu-se a eles como o produto do entusiasmo dos convidados, e a isto não se pode e nem se deve censurar. Mas, ressaltei que minha implicância não se dirigia à competência de ambos, que possuem vida acadêmica ativa e conceituada, gozando de titularidades. O ponto de vista colocado é: se não perceberam que com o entusiasmo empreendido vedavam uma participação do leitor, dando-lhe um mapa, tornando previsível o terreno?
2
A escrita rápida, com frases curtas, repleta de orações coordenadas, caracteriza a massa de texto do qual se compõe o livro. A resposta talvez esteja apontada pela própria autora que funcionária pública – taquígrafa – não se furta em evidenciar a influência deste modo tenso de registro em sua produção.
A corporalidade está presente fortemente nos textos. O envelhecimento, a morte e a perda. Todo o livro é um rito, uma cerimônia do adeus particular que todo o individuo é obrigado a dar conta em seu trajeto pela existência. Este aspecto é ressaltado na maior parte dos contos.
Se o prefácio precisa a escrita de Helena Ortiz como vídeo-clipe, associando-se à sua tarefa a linguagem moderna da captação do real, prefiro compará-la aos pintores que se renderam ao Fauvismo e ao Expressionismo, vendo nesta prosa de pinceladas curtas, violentas e espontâneas o ambiente asfixiante do primeiro e o vigor e a brutalidade do segundo. Veja-se, como exemplo, o conto Filme B.
Neste livro as descrições – plasticidade – são formadas por nuances gramaticais que deliciam, às vezes períodos, pontuados pela respiração afoita do que aguarda viver – ou morrer – e iluminam uma vida inteira, como nos contos Vulvera vitae e O Silêncio das xícaras.
Peluda, acusada de ter alta carga erótica, em texto– análise, tem em suas entrelinhas uma relação muito particular, isto se quisermos extrapolar o que o texto nos diz, do diálogo do racional com o instintivo. Caso a preferência caía sobre a superfície narrativa, optaremos por ver a relação simbiótica de um dono e seu animal de estimação. Mas, como nada pode ser simples, sempre é obrigatório revesti-lo com milagres, temos o erotismo e a sensualidade.
Os contos, anunciados como primeiros e últimos da autora, são corretos, investigam o humano, têm uma linguagem despojada e se debruçam sobre o privado tão próximo a todos nós: esta falência para onde todos caminhamos, mas que somente poucos podem dotá-la da beleza necessária para não se tornar um flagelo terrível. Isto Helena conseguiu.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
O Restaurante
Era horário de almoço. Ligou para pedir um dos pratos do cardápio.
Ela estava indecisa. Discou o número telefônico indicado no folheto, a voz do outro lado da linha atendeu:
“Em que posso ajudá-la”.
Emudeceu por não reconhecer a voz da atendente, sempre ligara para pedir a refeição a mesma hora, não variando nunca, de lá aquela voz saía alegre, jovial e feminina, agora substituída por esta, masculina, imparcial e fria.
“Gostaria de pedir um prato, vocês ainda estão entregando?”.
Do outro lado, a voz pigarreou, uma tosse leve interrompeu a resposta. Não encontrando meio para responder, sem trair o sigilo e a discrição, não titubeou:
“Sim, estamos entregando ainda. O que vai querer”.
“Estou entre Frango a passarinha e filé a cavalo”, a mulher, pelo tom,
hesitava.
O atendente tinha visto muitas coisas na vida, mas aquela lhe parecera a mais absurda: porque as pessoas agiam daquele modo para pedir um serviço tão simples? Ele mesmo, quando estava sozinho, precisando de companhia, ligava para as casas conhecidas e se referia diretamente àquilo que queria.
“Então, me mande o filé à cavalo. Refeição número um”.
O telefonista checou o número com os rapazes disponíveis no catálogo. O número um estava em atendimento, já se dirigia para a casa de uma cliente e não demoraria menos que uma hora e meia. “Senhora, a opção desejada não está disponível, por favor, escolha novamente o seu prato”, disse tudo isso se sentindo ridículo. Por que não abriam logo o jogo? Por que ela usava códigos? Filé à cavalo, pensou, qual o tamanho dos documentos desse camarada? E para satisfazer a curiosidade, perguntou:
“O Filé à cavalo atende bem a sua fome?”.
“Sim, é farto. Os ovos quando estão no ponto, chego a chorar de felicidade quando os ponho na boca”.
“Mas, como não tem, me mande o Frango a passarinha”. Passou o endereço. O atendente pediu o número da refeição, ela prontamente forneceu.
Quando mais tarde, ela abriu a porta do escritório, lá estava o Frango a passarinha, flexionando os músculos, pedindo-lhe que apalpasse, verificando se estava no ponto. Ela ria, não sabia bem como reagir, explicou o mal entendido, mas não deixou de anotar na caderneta o telefone do restaurante com cardápio tão insólito quanto curioso.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Congresso de Lágrimas
O velhinho patriota do apartamento 305 estende a bandeira brasileira do lado de fora da janela. Todos os dias ao acordar, eu ouço todo o hino nacional, entoado com respeito e devoção, impressionado pela capacidade da memória do velhinho que não erra uma única frase, nem desafina.
Quando o encontro no elevador, ele me diz que na escola cantavam todos os dias, que sua afinação vinha desde garoto, que aquilo tinha se incorporado à sua vida, que a única vez em que ficou impedido de cantar o hino foi no exército, porque era corneteiro, mas quando estava no banho, praticava sem parar, fazia jogos mentais com as estrofes, avançava o ritmo ou mudava o andamento para mais lento, como um bolero. Dizia isso com uma expressão de felicidade nos olhos.
Do lado de fora do prédio, víamos a bandeira tremulando. Patrioticamente, ele juntava os calcanhares para ficar o mais ereto que conseguisse e fitava com os olhos o além, prestando continência aquele símbolo que amava mais que tudo.
- Quando minha mulher era viva não gostava que me dedicasse tanto à rotina de adorar a bandeira, pedia que eu virasse o disco, resolvi aprender os outros hinos e atacava o Hino à Bandeira – “Salve, lindo pendão da esperança/Salve, símbolo augusto da paz!”.
“Tio, me dá um trocado”, o menino puxa a manga da minha camisa, vasculho os bolsos, eu despejo na mãozinha estendida umas moedas. O velhinho do 305 sai do transe em que estava, praguejando o país, por estar infestado por esta corja, despejando todo o tipo de palavrão, me conduzindo para um barzinho logo do outro lado da rua.
“Não se pode facilitar com esses vagabundos”, resmungou. “Tenho saudade da vadiagem. Esses sacanas estariam tudo vendo o sol nascer quadrado”, emendou. Uma mulher com uma criança de colo se aproxima. “Moço, pode dar uma ajudinha”. Eu já não tenho mais dinheiro. “Vai arrumar uma roupa para lavar”, atacou o velhinho do 305.
Na minha cabeça o hino da bandeira “A grandeza da pátria nos traz”. A mulher vai para outra mesa, a criança enganchada no quadril: a mesma cantilena. Não tenho como deixá-lo falando sozinho, “Está quase na hora do meu trabalho”, interfiro. “Ah, meu rapaz, fique mais um pouco”, o velhinho do apartamento 305 gesticulava, apontando para um lado e para outro, como se estivesse a rever a marcha que tomou o Aterro, pedindo a caça as bruxas, com os olhos faiscando, os braços ressequidos riscando no ar os planos para se acabar de uma vez com a ameaça vermelha. Tudo isso dito com desdém, com menosprezo, indicando os caminhos dos generais.
Do outro lado da rua, um grupo de jovens negros amontoados, conversando alto, vestidos com bermudas e camisas de time, tocas enfiadas na cabeça, bandeiras enroladas em pedaços de pau. Uma imagem intranqüila.
“Arruaceiros!”, vociferou o velhinho do 305. “Se existisse a lei contra a vadiagem estavam em cana, no xilindró, que é o lugar de todos vocês, seus pés- rapados!”. O dono do barzinho não gostou nada.
Os jovens atravessaram para tomar satisfação, “Que porra é essa, vovô! Que porra é essa!”. Estavam exaltados. “O netinho vai tomar as dores do vovô, vai”, recebi a provocação. “Ele não é meu neto, não preciso dele para dar conta de vadios”. O velhinho parecia ter perdido a razão, subiu na mesa, apoiando-se em seu equilíbrio frágil, brandindo a bengala como uma espada. “Vocês vão tomar no cu!”. A briga estourou.
O bando de jovens invadiu o bar, quebrando cadeiras, roubando os fregueses, assaltando o caixa, dando porrada em todos pela frente. O velhinho, derrubado no chão, chutado por todos os lados, cantava o hino nacional, gritando com as forças que lhe sobravam. Esmurrado, com um dos olhos fechados, inchados, vi o momento que um dos rapazes arrastou o velhinho do apartamento 305 para o meio da rua, “Véio fiodaputa!”.
domingo, 18 de outubro de 2009
Cidadãos de 2ª Classe.
A minha preocupação não está na guerra, porque durante todo tempo em que vivi na Zona Norte do Rio de Janeiro sempre presenciei confrontos onde todos lucravam: sejam os policiais corruptos que levavam armas quanto os traficantes envolvidos, fortalecendo a ideologia neo-liberal que os arregimentou, incitando-os a se dividirem e aumentarem seus rendimentos com incursões que resultam em baixas às vezes de antigos amigos de infância que por uma fatalidade estão posicionados em facções rivais ou são exterminados pelos mesmo policiais corruptos a quem servem para a famosa queima de arquivo, para que o sistema continue sua bárbarie, demonstrando à sociedade - a quem supostamente presta conta - de que tudo está sob controle.
E, nós sabemos que não está.
A classe média, enquanto as balas perdidas atingiam somente os favelados, não se mobilizou cobrando uma atitude das autoridades quando ainda era possível mudar todo o quadro. Quando a violência se democratizou através destas mesmas balas, começaram o surgimento de passeatas pela paz, ações sociais cobrando maior repressão aos ataques genocidas dos bondes que atravessam a madrugadas do Rio de Janeiro. Já era tarde para se podar as asas desses anjos demoníacos, alimentados pela pobreza, pela ganância da classe média, pelo descaso da sociedade civil e por outros fatores, inúteis inumerá-los, quando a situação de sequestro da cidade se presentifica dessa forma.
Mas, quando é declarado de que a cidade está profundamente dividida, entre cidadãos de 1ª e 2ª classe, dividida entre aqueles que devem ter atendidas suas reivindicações e aqueles que devem se resignar por estarem fadados ao segundo plano, sempre preteridos, esquecidos, por pertencerem ao território chamado microrregião, neste momento, a sociedade como um todo deve ficar atenta, porque um modo novo do fascismo se estabelece e condena uma parcela muito grande da população dessa cidade.
A discussão não é apenas sobre a discriminalização das drogas ou a venda de armas ou a parcela suja de um sistema inoperante para aqueles sem nenhuma expressividade econômica; é algo mais aterrador que se arrasta no subsolo social, tramado por uma parcela que ensaiou os passos da ditadura, acostumando-se aquela ginga que resultou nos mortos que as mães reclamam os corpos, naquela noite que dessa vez nada terá da presença dos militares, sendo expressa através desse muro intransponível que a má distribuição de renda já ergueu, que o descaso estatal já pontuou e a classe média ratificou nesse discurso, atribuído a um dos presidentes desse nosso país: "Problema social é problema de polícia".
