sábado, 11 de maio de 2013

Berliner e o Vazio da Crítica



A primeira dúvida quanto à visita da exposição de pinturas de Eduardo Berliner, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, surgiu em uma pesquisa realizada sobre as matérias críticas em relação ao trabalho desenvolvido por esse carioca nascido em 1978, cujo alcance da obra extrapolou as fronteiras do país. Tendo trabalhos espalhados em diversas galerias do mundo, como por exemplo, Saatchi Gallery em Londres, a recepção crítica em seu país de origem apresenta dificuldades na compreensão de sua pintura. Ou, apenas reforça o estereótipo criado em torno de uma arte tão vilipendiada – a pintura - que não possui mais espectadores tão atentos quanto no passado, onde um escritor como Émile Zola ocupava seu espírito com as pinturas de Eduard Manet em longos e meticulosos artigos, investigando suas qualidades e deficiências.

Os artigos encontrados sobre Eduardo Berliner reforçam o trivial dito sobre pintura, ressaltando-o, como um indicativo do talento do pintor, quando não passa de atributo básico para o exercício do ofício. E apóia-se de tal modo em jargões tão correntes que não se pode mais tomá-los como vícios de uma crítica cansada de si mesma, por repetir indefinidamente os mesmos conceitos, mas como uma impertinência que provoca a indignação do espectador mais ou menos atento, sendo ele um consumidor de cultura.

Como exemplo, podemos citar trechos como estes, encontrados amiúde no ambiente virtual, que pontificam acerca do fenômeno pictórico de Berliner “é um particular trabalho em que o olhar atua” ou “a narrativa subjacente aos trabalhos impressiona”, tomando por extraordinários aspectos comezinhos e enredando o leitor desinformado em lugares comuns arrolados como centro de uma crítica séria. E não é apenas no campo das artes plásticas em que um equívoco interpretativo como este se dá; na literatura, isto é mais freqüente do que se parece. Como não há um exercício contínuo de vigilância da crítica sobre si mesma ou de editores realmente atentos para discuti-la, sem ranço ideológico, não haverá nenhuma correção de rumo.

Para ilustrar, na literatura, especificamente na área ensaística, a pobreza de balizas críticas, tomo como exemplo a coleção Ciranda de Poesia, coordenada por Ítalo Moriconi, cujo exemplar sobre o poeta Armando Freitas Filho, é apresentado pelo crítico Renan Nuernberger. Nele a declaração de Sebastião Uchoa Leite, também poeta, serve para exemplificar a falta de esforço interpretativo, quando afirma que o trabalho do seu colega de ofício, o autor de Lar,, está calcado no binômio: poesia e vida. Há na sentença algum gesto interpretativo? Ou é apenas uma afirmação banalíssima? É todo esse o instrumental de certa crítica contemporânea - seja ela nas artes plásticas ou na literatura.

Colocada, às claras, a defasagem de uma parcela da crítica contemporânea que se viciou na reprodução de releases e, perigosamente, abriu mão de seu direito de opinar, para o bem ou para o mal, sobre o que é produzido atualmente; influenciada muito mais pelas relações interpessoais do que propriamente pela qualidade estética assentada sobre as obras; preferindo esquivar-se do compromisso da formação crítica do público; amesquinhada em coquetéis de lançamento e vernissages, pretendo, em desafeto a esta parcela da crítica, contrapô-la com argumentos acerca do trabalho de Eduardo Berliner, para aproximá-lo do pintor Francis Bacon.

A minha reflexão, tem como base o texto do escritor Milan Kundera, autor do livro O Encontro, a respeito do pintor Francis Bacon, do qual transcrevo o trecho abaixo:

“E é por isso que a palavra “horror”, que se aplica obstinadamente à sua pintura, o irrita. Tolstói dizia sobre Leonid Andreiev e seus romances noirs: “ele quer me assustar, mas não tenho medo”. Existem hoje muitas pinturas que querem nos assustar, mas nos entediam. O temor não é uma sensação estética e o horror que encontramos nos romances de Tolstói nunca está ali para nos assustar; a cena emocionante na qual operam sem anestesia André Bolkonski, mortalmente ferido, não é desprovida de beleza; como nunca é desprovida de beleza uma cena de Shakespeare; como jamais é desprovido de beleza um quadro de Bacon.”

Retomada a afirmação de Tolstói sobre Andreiev, é percebida a intenção do pintor – Eduardo Berliner - em assustar o espectador que entra em contato com o seu universo. Contudo, não logra êxito, devido a um cotidiano inflacionado de violência em que as narrativas jornalísticas não retiram da indiferença o homem contemporâneo, não provocando nele o deslocamento que a emoção estética promete.

Embora em toda a pintura de Berliner os objetos constituam enigmas propostos ao espectador, há o incômodo em reconhecer nos elementos constituintes de seu trabalho a presença de um surrealismo tardio – remanescente das ruínas pós-modernas ou o enlace aflitivo à vala do realismo.

Em que o artista espera amparar sua pintura? Apenas na ilogicidade do real? Não representará pouco? Não há em Eduardo Berliner a independência espiritual conquistada por Francis Bacon, mesmo que atuem com a mesma gramática – deformadora; não há a coragem de tomar para si a realidade e devolvê-la sem o temor de nunca ter um de seus trabalhos exibidos em uma sala de jantar ou no saguão de aeroporto.

Por que Eduardo Berliner teme tomar como sua a realidade quando possui as condições para fazê-lo? Por que se opõe ao caráter deformador/desfigurador de sua pintura, se, evidentemente, nos fornece traços de que não é um artista convencional?

Prova disso está na exposição, nos contrastes que as pequenas aquarelas criam, dissipando toda a tensão incitada pelas telas maiores.

No entanto, Eduardo Berliner, durante suas entrevistas, demonstra oposição ao gosto pelo aleatório. Reafirma seu gosto pela desconstrução como meio para a composição de obra, mas esse caos não é transposto como resultado para a tela, desinstalando-o, imediatamente, do modus operandi da pintura de Francis Bacon, orientada para a negação de um cartesianismo castrativo.

Durante a exposição é possível ouvir apontamentos dos espectadores sobre as obras expostas. E descobrem, naquele quadro que representa uma mulher que detêm em cada uma de suas mãos uma cobra coral e um lagarto sobre uma passadeira de roupas, enquanto é observada por um menino deitado sob esta última, uma alegoria sobre o desejo; e, no outro, em que um homem com fantasia de monstro, despenando o que parecem anjinhos, uma correlação com a queda do homem. Acessos frágeis e fáceis demais, mas um bom caminho para determinada parcela da crítica, que de algum modo, está morta e vive de sua própria anomia.

Darwinismo, Racismo Cientifico e a Literatura Kardecista



A rede de televisão BBC de Londres exibiu um documentário sobre Racismo Cientifico - Darwinismo e Eugenia, disponível no Youtube, para explicar a perversa construção das teorias raciais que afetaram a mentalidade do Ocidente com demonstrações de intolerância e violência, devido à crença da superioridade de uma raça sobre a outra, como acreditavam, na época, seus cientistas. Estas teorias bioantropológicas não estigmatizaram apenas os negros, mas, boa parte do mundo oriental se viu afetada por ela. E sua repercussão pode ser medida no âmbito jurídico através das teorias criminológicas de Cesare Lombroso, para quem a degeneração racial era a responsável pela criação de monstros e, não por coincidência, suas acusações recaiam sobre o negro.

            É longa a historiografia do racismo no Mundo Ocidental. Embora alguns nomes surjam logo que o assunto é trazido à baila, como Gobineau (Ensaio Sobre as Desigualdades das Raças); é com Charles Darwin, com a publicação de sua obra célebre a Origem das Espécies, que a questão ganha contornos definitivos. E com Georges Vacher de Lapouge e sua medição de crânios de macacos, negros e europeus, com a conclusão da superioridade destes últimos sobre os demais – temos reunidos todos os elementos que justificarão a corrida pela Partilha da África, no expansionismo imperial, sem os remorsos do criminoso diante de seus atos de ignomínia.

            As idéias do racismo cientifico não impregnaram apenas a literatura filosófica ou jurídica. As concepções religiosas foram diretamente afetadas na sua construção do homem, a partir das suposições ditas cientificas, percebidas pelos cultores da época. E se há culpa pela concordância com o ideário racista, afirmado pela atmosfera positivista e empírico – lógica do período, não ignoramos a dificuldade em negá-lo, porque contava com o apoio dos baluartes do pensamento mais avançado a lhe sustentar os argumentos sobre a superioridade racial de um povo sobre outro. Dentro de um panorama histórico em que Charles Darwin inflamava as mentes mais progressistas com suas idéias, quem ousaria contestá-lo? Mesmo que doze anos após a publicação da Origem das Espécies, viesse o livro Descendants for Men que explicitaria, de uma vez, sua posição dentro do debate, não restando dúvidas quanto ao lado em que se encontrava.

            Dentro dos parâmetros propostos acima, sem a histeria ideológica caracterizada em discussões semelhantes por toda a rede, adotamos o rastreamento de literaturas que reforcem, dentro do século XIX, as políticas de racismo, tendo as seguintes palavras chaves para a investigação: etnocentrismo, raça, racismo, selvagem e civilizado. Hoje, na antropologia social, estas palavras têm um sentido diverso daquele para os atores sociais do recorte histórico abrangido – a publicação da Origem das Espécies (1859) e as implicações de seu discurso. Optamos em assumir a investigação na literatura produzida por Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail), codificador do Espiritismo - corrente cientifica, filosófica e religiosa - baseados nos seus seguintes livros: Livro dos Espíritos (1860), Evangelho Segundo o Espiritismo (1864) e A Gênese (1868).

            O Livro dos Espíritos é um conjunto de perguntas e respostas acerca do funcionamento do mundo espiritual e sua interação com o mundo material; O Evangelho Segundo o Espiritismo é uma nova interpretação dos evangelhos à luz do novo conhecimento trazido por Allan Kardec através dos espíritos; e, A Gênese, trata sobre a criação do mundo e do universo segundo os paradigmas do espiritismo. Os outros dois livros formadores do Pentateuco kardequiano, O Livro dos Médiuns e O Céu e o Inferno, e, obras colaterais, como O que é Espiritismo?  - não participaram do recorte para a investigação em específico sobre a relação do negro com a obra kardequiana.

            No Livro dos Espíritos, acerca da problematização do negro, surge a questão 222, subitem 6:

Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes uma criança hotentote recém - nascida e a educardes nas escolas mais renomadas, fareis dela algum dia um Laplace ou um Newton?

Em relação à sexta questão, sem dúvida se dirá que o hotentote é de uma raça inferior. Então perguntaremos se o hotentote é ou não um homem. Se é um homem, por que Deus o fez, e à sua raça, deserdados de privilégios concedidos à raça caucásica? Se não é um homem, por que procurar fazê-lo cristão?

Notamos que desde a formulação da pergunta e seu desenlace há uma explicitação do lugar do observador. A divisão entre selvagens e civilizados reforça a zona de conforto do enunciador e sua curiosidade cientifica perpetrada na indagação: se o selvagem, mesmo educado nas melhores instituições, chegaria, um dia, a se tornar um grande cientista, supondo um déficit de inteligência para tal. E, não desconfiando do erro de procedimento, termina com estocada fatal Se é um homem – frase condicional -, por que Deus o fez, e à sua raça, deserdados de privilégios concedidos à raça caucásica? Aludindo-se a própria raça a que, afinal, pertencia o Codificador do Espiritismo.

A influência das idéias sobre raça contidas nos trabalhos científicos da época transparece com nitidez na literatura acima exposta, lembramos que a publicação d’O Livro dos Espíritos ocorre um ano após a publicação do livro A Origem das Espécies, portanto, parece estar ancorada sob seu influxo.

Em outra questão, é encarada como punição a encarnação em corpos de raças inferiores:

273. Será possível que um homem de raça civilizada reencarne, por exemplo, numa raça de selvagens? 

“É; mas depende do gênero da expiação. Um senhor, que tenha sido de grande crueldade para os seus escravos, poderá, por sua vez, tornar-se escravo e sofrer os maus tratos que infligiu a seus semelhantes. Um, que em certa época exerceu o mando, pode, em nova existência, ter que obedecer aos que se curvaram ante a sua vontade. Ser-lhe-á isso uma expiação, que Deus lhe imponha, se ele abusou do seu poder. Também um bom Espírito pode querer encarnar no seio daquelas raças, ocupando posição influente, para fazê-las progredir. Em tal caso, desempenha uma missão.”

Observe-se o exemplo contido na resposta, a presença da dicotomia senhor/escravo e a leve indignação que permeia a pergunta “Será possível...” A perspectiva darwinista pode ser enxergada através resposta à seguinte questão:

689. Os homens atuais formam uma criação nova, ou são descendentes aperfeiçoados dos seres primitivos? 

“São os mesmos Espíritos que voltaram, para se aperfeiçoar em novos corpos, mas que ainda estão longe da perfeição. Assim, a atual raça humana, que, pelo seu crescimento, tende a invadir toda a Terra e a substituir as raças que se extinguem, terá sua fase de crescimento e de desaparição. Substitui-la-ão outras raças mais aperfeiçoadas, que descenderão da atual, como os homens civilizados de hoje descendem dos seres brutos e selvagens dos tempos primitivos.”

Estas três perguntas situam o leitor a respeito da posição do negro n’ O Livro dos Espíritos.

Em obras colaterais, como *A Teoria da Beleza, presente em Obras Póstumas, potencializa a concepção racista quando trata da aparência do negro – imperfeita, antiestética e primitiva - mesmo não sendo alvo da explanação, merece ter o trecho transcrito abaixo:

* O negro pode ser belo para o negro, como um gato é belo para um gato; mas não é belo no sentido absoluto, porque os seus traços grosseiros, seus lábios espessos acusam a materialidade dos instintos; podem bem exprimir as paixões violentas, mas não saberiam se prestar às nuanças delicadas dos sentimentos e às modulações de um espírito fino.

Eis porque podemos, sem fatuidade, eu creio, nos dizer mais belos do que os negros e os Hotentotes; mas talvez também seremos, para as gerações futuras, o que os Hotentotes são em relação a nós; e quem sabe se, quando encontrarem os nossos fósseis, não os tomarão pelos de alguma variedade de animais.

Se restarem dúvidas, acerca da influência darwinista, podem ser consultadas duas outras questões, ainda d’O Livro dos Espíritos, que mantêm entre si certa tensão:

831. A desigualdade natural das aptidões não coloca certas raças humanas sob a dependência das raças mais inteligentes? 

“Sim, mas para que estas as elevem, não para embrutecê-las ainda mais pela escravização. Durante longo tempo, os homens consideram certas raças humanas como animais de trabalho, munidos de braços e mãos, e se julgaram com o direito de vender os dessas raças como bestas de carga. Consideram-se de sangue mais puro os que assim procedem. Insensatos! Nada vêem senão a matéria. Mais ou menos puro não é o sangue, porém o Espírito.”

832. Há, no entanto, homens que tratam seus escravos com humanidade; que não deixam lhes falte nada e acreditam que a liberdade os exporia a maiores privações. Que dizeis disso? 

“Digo que esses compreendem melhor os seus interesses. Igual cuidado dispensam aos seus bois e cavalos, para que obtenham bom preço no mercado. Não são tão culpados como os que maltratam os escravos, mas, nem por isso deixam de dispor deles como de uma mercadoria, privando-os do direito de se pertencerem a si mesmos.”

No Evangelho Segundo o Espiritismo, as seguintes passagens observadas incorporam o modus operandi acima exposto:

INSTRUÇÃO DOS ESPÍRITOS

Mundos inferiores e mundos superiores

8. A qualificação de mundos inferiores e mundos superiores nada tem de absoluta; é, antes, muito relativa. Tal mundo é inferior ou superior com referência aos que lhe estão acima ou abaixo, na escala progressiva. Tomada a Terra por termo de comparação, pode-se fazer idéia do estado de um mundo inferior, supondo os seus habitantes na condição das raças selvagens ou das nações bárbaras que ainda entre nós se encontram, restos do estado primitivo do nosso orbe. Nos mais atrasados, são de certo modo rudimentares os seres que os habitam. Revestem a forma humana, mas sem nenhuma beleza. Seus instintos não têm a abrandá-los qualquer sentimento de delicadeza ou de benevolência, nem as noções do justo e do injusto. A força bruta é, entre eles, a única lei. Carentes de indústrias e de invenções, passam a vida na conquista de alimentos. Deus, entretanto, a nenhuma de suas criaturas abandona; no fundo das trevas da inteligência jaz, latente, a vaga intuição, mais ou menos desenvolvida, de um Ente supremo. Esse instinto basta para torná-los superiores uns aos outros e para lhes preparar a ascensão a uma vida mais completa, porquanto eles não são seres degradados, mas crianças que estão a crescer. Entre os degraus inferiores e os mais elevados, inúmeros outros há, e difícil é reconhecer-se nos Espíritos puros, desmaterializados e resplandecentes de glória, os que foram esses seres primitivos, do mesmo modo que no homem adulto se custa a reconhecer o embrião.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 3 - Há muitas moradas na casa de meu Pai.

Mundos de expiações e de provas

13. Que vos direi dos mundos de expiações que já não saibais, pois basta observeis o em que habitais? A superioridade da inteligência, em grande número dos seus habitantes, indica que a Terra não é um mundo primitivo, destinado à encarnação dos Espíritos que acabaram de sair das mãos do Criador. As qualidades inatas que eles trazem consigo constituem a prova de que já viveram e realizaram certo progresso. Mas, também, os numerosos vícios a que se mostram propensos constituem o índice de grande imperfeição moral. Por isso os colocou Deus num mundo ingrato, para expiarem aí suas faltas, mediante penoso trabalho e misérias da vida, até que hajam merecido ascender a um planeta mais ditoso.

14. Entretanto, nem todos os Espíritos que encarnam na Terra vão para aí em expiação. As raças a que chamais selvagens são formadas de Espíritos que apenas saíram da infância e que na Terra se acham, por assim dizer, em curso de educação, para se desenvolverem pelo contacto com Espíritos mais adiantados. Vêm depois as raças semicivilizadas, constituídas desses mesmos os Espíritos em via de progresso. São elas, de certo modo, raças indígenas da Terra, que aí se elevaram pouco a pouco em longos períodos seculares, algumas das quais hão podido chegar ao aperfeiçoamento intelectual dos povos mais esclarecidos. Os Espíritos em expiação, se nos podemos exprimir dessa forma, são exóticos, na Terra; já tiveram noutros mundos, donde foram excluídos em conseqüência da sua obstinação no mal e por se haverem constituído, em tais mundos, causa de perturbação para os bons. Tiveram de ser degradados, por algum tempo, para o meio de Espíritos mais atrasados, com a missão de fazer que estes últimos avançassem, pois que levam consigo inteligências desenvolvidas e o gérmen dos conhecimentos que adquiriram. Daí vem que os Espíritos em punição se encontram no seio das raças mais inteligentes. Por isso mesmo, para essas raças é que de mais amargor se revestem OS infortúnios da vida. E que há nelas mais sensibilidade, sendo, portanto, mais provadas pelas contrariedades e desgostos do que as raças primitivas, cujo senso moral se acha mais embotado.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 3 - Há muitas moradas na casa de meu Pai.

19. A união e a afeição que existem entre pessoas parentes são um índice da simpatia anterior que as aproximou, Daí vem que, falando-se de alguém cujo caráter, gostos e pendores nenhuma semelhança apresentam com os dos seus parentes mais próximos, se costuma dizer que ela não é da família. Dizendo-se isso, enuncia-se uma verdade mais profunda do que se supõe. Deus permite que, nas famílias, ocorram essas encarnações de Espíritos antipáticos ou estranhos, com o duplo objetivo de servir de prova para uns e, para outros, de meio de progresso. Assim, os maus se melhoram pouco a pouco, ao contacto dos bons e por efeito dos cuidados que se lhes dispensam. O caráter deles se abranda, seus costumes se apuram, as antipatizas se esvaem. E desse modo que se opera a fusão das diferentes categorias de Espíritos, como se dá na Terra com as raças e os povos.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 4 - Nascer de Novo

No livro A Gênese, consta que os negros e os indígenas não descendem da Raça Adâmica

Raça adâmica

38. - De acordo com o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por essa razão mesma, chamada raça adâmica. Quando ela aqui chegou, a Terra já estava povoada desde tempos imemoriais, como a América, quando aí chegaram os europeus. Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste planeta, a raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso todas as outras. A Gênese no-la mostra, desde os seus primórdios, industriosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância espiritual, o que não se dá com as raças primitivas, mas concorda com a opinião de que ela se compunha de Espíritos que já tinham progredido bastante. Tudo prova que a raça adâmica não é antiga na Terra e nada se opõe a que seja considerada como habitando este globo desde apenas alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, antes tenderia a confirmá-las.

39. - No estado atual dos conhecimentos, não é admissível a doutrina segundo a qual todo o gênero humano procede de uma individualidade única, de há seis mil anos somente a esta parte. Tomadas à ordem física e à ordem moral, as considerações que a contradizem se resumem no seguinte:
Do ponto de vista fisiológico, algumas raças apresentam característicos tipos particulares, que não permitem se lhes assinale uma origem comum. Diferenças que evidentemente não são simples efeito do clima, pois que os brancos que se reproduzem nos países dos negros não se tornam negros e reciprocamente. O ardor do Sol tosta e brune a epiderme, porém nunca transformou um branco em negro, nem lhe achatou o nariz, ou mudou a forma dos traços da fisionomia, nem lhe tornou lanzudo e encarapinhado o cabelo comprido e sedoso. Sabe-se hoje que a cor do negro provém de um tecido especial subcutâneo, peculiar à espécie. Há-se, pois, de considerar as raças negras, mongólicas, caucásicas como tendo origem própria, como tendo nascido simultânea ou sucessivamente em diversas partes do globo. O cruzamento delas produziu as raças mistas secundárias. Os caracteres fisiológicos das raças primitivas constituem indício evidente de que elas procedem de tipos especiais. As mesmas considerações aplicam, conseguintemente, assim aos homens, quanto aos animais, no que concerne à pluralidade dos troncos.

40. - Adão e seus descendentes são apresentados na Gênese como homens sobremaneira inteligentes, pois que, desde a segunda geração, constroem cidades, cultivam a terra, trabalham os metais. São rápidos e duradouros seus progressos nas artes e nas ciências. Não se conceberia, portanto, que esse tronco tenha tido, como ramos, numerosos povos tão atrasados, de inteligência tão rudimentar, que ainda em nossos dias rastejam a animalidade, que hajam perdido todos os traços e, até, a menor lembrança do que faziam seus pais. Tão radical diferença nas aptidões intelectuais e no desenvolvimento moral atesta, com evidência não menor, uma diferença de origem.

Na literatura kardequiana, há a utilização dos termos científicos da época, da apropriação de seus conceitos e, portanto, de seus equívocos. A suposição da superioridade de uma raça sobre outra caiu por terra. Hoje, entendemos que o que existe, de fato, são culturas – sistemas que devem ser entendidos a partir deles próprios para a compreensão de suas peculiaridades. Embora os adeptos do espiritismo possam reagir com mal-estar em relação a abordagem, não é escusado lembrar que um livro é produtos das forças históricas a que estava submetido o seu autor e não se pode concebê-lo sem o registro do impacto das idéias produzidas à época. Não se pode negar a Charles Darwin a guinada intelectual provocada pelo seu livro no Ocidente e não se pode desqualificá-lo, apesar do que hoje nos parece politicamente incorreto, por ter participado dos posicionamentos intelectuais em voga – à época - como um ator social ativo na produção da mentalidade do período. Os argumentos expostos não invalidam a crença dos kardecistas em vidas futuras e passadas; a reencarnação como mecanismo de justiça divina para o resgate de dívidas ou qualquer outra coisa relacionada ao universo em que está instalada, mas, procura revisar, como dito acima, a influência do discurso darwinista em outras plataformas de produção textual.

Publicado em:

Baixada Fluminense: Uma Interseção de Intenções



Aguinaldo Silva, atualmente escritor de novelas da emissora de televisão Globo, com vários sucessos em seu currículo, tem suas histórias exibidas no horário nobre do canal televisivo. Um de seus sucessos recentes foi a novela Senhora do Destino. A trama se passava em um fictício distrito – Vila São Miguel - em Duque de Caxias, colocando em evidência a baixada Fluminense. O nome da protagonista da novela, Maria do Carmo, faz alusão à mãe do autor, ficando-lhe como uma homenagem. A atriz que encarnava Maria do Carmo era Suzana Vieira. O sucesso de público da telenovela indicou que as tramas não necessitavam se passar no exterior para exercer atração sobre o público que experimentava a ascensão econômica pelo desdobramento da política monetária herdada por Lula de FHC, bastando apenas que se escrevesse sobre as vidas das pessoas comuns com interesse e respeito. Sem demonizações. Cada vez mais raras nas obras dramatúrgicas televisivas.

Um último exemplo que pode ser invocado aqui para confirmar isso foi a novela de João Emanuel Carneiro: Avenida Brasil. Ambas as produções marcam a ascensão da classe C e registram a mobilidade social promovida nos últimos anos pelos governos Lula e FHC.

João Emanuel Carneiro através da novela Avenida Brasil aborda o território da Baixada Fluminense: o desativado lixão de Gramacho, coincidentemente também em Caxias.
 Na obra dramatúrgica de Emanuel Carneiro ensaia-se uma vingança encabeçada por Nina (Débora Falabella) contra Carminha (Adriana Esteves) e para realizá-la nada será poupado.
Uma intensa discussão ética é travada por toda a novela. O público é arrebatado pelas reviravoltas mirabolantes e planos de vingança de Nina e Carminha. Não apenas a classe C está imantada ao televisor, mas intelectuais discutem o conteúdo sociológico do está sendo exibido durante o horário nobre da emissora. O cineasta e escritor Arnaldo Jabor, em coluna no jornal Estado de São Paulo, lamenta-se através do título do artigo “Avenida Brasil está acabando...” e inicia seu texto da seguinte maneira:
Que saudades vou ter do Leleco, do Tufão, das peruas do subúrbio, gritadeiras e barraqueiras, que saudades da dupla de atrizes geniais apaixonadas pelo ódio, Carminha e Rita (não esqueço dos rugidos de fera de Adriana Esteves, desde o dia em que ela ‘comeu’ literalmente o Tufão pela primeira vez, como se fosse um bicho devorando-o com a boca), da Ivana, da grande Zezé e Janaina e principalmente do Max, o nosso Maxwell, o famoso malandro-agulha, finalmente retratado na TV ('malandro-agulha', sabe-o Joaquim F. dos Santos, é aquele que "toma no buraco, mas não perde a linha...").
O resto do artigo prossegue com elogios à produção televisiva, que vale a pena reproduzir, porque procede à análise sociológica em questão da sociedade brasileira:
Essa novela é um buraco novo na teledramaturgia. Partiram para fazer uma novela ‘para’ a classe C e tudo acabou virando uma novela da classe C para o País todo. Não é uma trama feita ‘para’ o subúrbio; é o subúrbio e seus personagens que fizeram a novela, criando uma espécie de realismo crítico em que os heróis não são mais comandados pela ideologia dos autores, como objetos de um folhetim ‘social’, como fazia a velha ‘arte engajada’. A chamada arte social de filmes e livros tratava de excluídos ou de suburbanos como um conceito geral e sua intenção era ‘conscientizá-los’ sobre sua ‘alienação’, como os autores decidiam. Aqui, não. O subúrbio finalmente apareceu na TV, sem folclore e sem ideologias. Eu fui criado no Rocha, na antiga rua Guimarães, atual Alm. Ary Parreiras e sei do que falo. Claro que não é só aquela ilha de solidariedade que a novela mostra, mas tem, sim, um clima brasileiro vivo, uma doçura na precariedade de seus moradores que não há na zona sul. Aqui, os heróis são sujeitos da ação. E o resultado foi incrível, porque descobrimos maravilhados que o universo C é muito mais rico em revelações de comportamento sobre a vida brasileira do que a mortiça ZS, sem vizinhos, sem fofocas. Nelson Rodrigues dizia que "a novela mata nossa fome por mentiras", mas essa novela matou nossa fome de verdades.
A picada aberta por Aguinaldo Silva foi bem aproveitada por João Emanuel Carneiro. A confirmação pode ser percebida nas polêmicas acerca da trama, a troca de farpas e elogios entre os autores. Contudo, não se pode negar a Aguinaldo Silva a radiografia da região da Baixada Fluminense; oriunda do tempo em que atuava como repórter policial. Produzira o livro Esquadrão da Morte, orientando o seu olhar para uma fatia da realidade que não ganhava as páginas policiais com frequência, durante o período do regime militar, que não admitia participação nas chacinas nas regiões remotas da cidade. E nem admitia também que, além dos subversivos, havia a ladroagem comum, plasmada em Lili Carabina. O advento da mulher no crime refletia, mal ou bem, a presença de alguém do sexo feminino em um universo masculino. A História de Lili Carabina: um romance da Baixada Fluminense, como era conhecido. A obra mereceu uma adaptação cinematográfica e Betty Faria deu vida à vilã.

Outro escritor brasileiro, José Louzeiro, deu relevo às questões da violência na região da Baixada Fluminense. O caso Mão Branca é o mais ilustrativo para ser trazido à baila ao contexto do artigo. Mão Branca era um justiceiro, ganhou fama na imprensa durante as décadas de setenta e oitenta. O autor maranhense, radicado no Rio de Janeiro, compartilha da mesma experiência de Aguinaldo Silva, porque também atuou como repórter policial durante anos em sua carreira, abandonando a profissão para tornar-se escritor, devido à instalação do AI-5, que implantava a censura no país, impedindo-o de escrever a sua versão dos fatos nos jornais. A imprensa estava presa a versão oficial dos atos de violência perpetrados pelo Estado.

O estigma da violência foi durante muito tempo sinônimo da Baixada Fluminense. A instalação de ONGs, a presença de um policiamento ostensivo e a diminuição da corrupção na máquina administrativa, representou um avanço para a melhoria da região. Inúmeras ações afirmativas espalharam-se como o pré – vestibular para negros e carentes, orientado, à época, pelo Frei David, que realizava missas negras católicas em que levava em consideração o fator étnico da população frequentadora. Todo o material acima quer gerar uma reflexão sobre as histórias que se entrecruzam, sobre a importância da memória e a necessidade de ação da sociedade civil para a ocorrência de transformações.

Nas telenovelas comentadas não há mais o maniqueísmo da década de setenta em que se tinha claramente o bandido e o mocinho. O acesso aos bens de consumo e serviços é exibido como também o acesso a informação. O programa Baixada Digital é o exemplo dessa tentativa de inclusão. É a história do lugar e das pessoas contadas por elas mesmas e não por estrangeiros. Assumindo o compromisso como protagonistas da nossa História, seremos os sujeitos a produzi-la e a gerenciá-la.

Reflexão


Tudo ou Nada

Uma região, refém da violência, precisa de uma obra de teatro que a reforce?
 

A veiculação da notícia pelo jornal Valor Econômico, em 03/05/2013, no suplemento de cultura Eu & Fim de Semana, da encenação da peça Tudo ou Nada, baseada no livro homônimo de Luiz Eduardo Soares, que trata da prisão de um brasileiro, em terras estrangeiras, por associação ao tráfico internacional, por estar envolvido com o transporte de duas toneladas de cocaína,  terá Guti Fraga (Nós do Morro) no papel do traficante  e na direção do espetáculo Marcus Vinicius Faustini. A obra, levada para  região, suscita reflexão.

O bairro da Pavuna, Zona Norte do Rio de Janeiro, cercado por inúmeros morros como Pedreira, Lagartixa e Chapadão, refém diário da violência, não se encontra na agenda de turismo da cidade, portanto o que acontece em suas adjacências pouco importa ao noticiário da cidade. Segue convivendo com a violência cotidianamente. Se os distúrbios ocasionados pelo Chapadão tivessem reflexos em áreas nobres da cidade como Ipanema logo o Estado iria impor as suas leis: porque onde turista pisa não pode haver sujeira. Entretanto, o Quitanda não fica em Copacabana e a Cancela não está no Jardim de Allah.

Uma região, refém da violência, precisa de uma obra de teatro que a reforce? Guti Fraga, no boxe do jornal, exalta que o interesse no traficante reside na compreensão de sua mente. O que pode torná-lo diferente dos banqueiros inescrupulosos do país que ambicionam apenas o lucro? Tanto os traficantes quanto os banqueiros não estão inscritos na realidade neoliberal? Na conquista de mercado? Interrompida apenas pelo tácito acordo entre o governo que, em suas ocupações, avisa ao traficante para que ele se transfira para as regiões como a Baixada Fluminense, a Zona Oeste entre outras, escondendo a sujeira debaixo do tapete? Por que os prefeitos das regiões afetadas pela re/encenação dos antigos DPO’s não convocam uma coletiva de imprensa para a denúncia de exportação da marginalidade? Fala Vila Rute, São João de Meriti!

A resposta, para a encenação de Tudo ou Nada, no espaço da Arena Jovelina Pérola Negra, está implícita na proposta do texto produzido para o teatro: jovens de áreas carentes possuem maior potencial para se tornarem mega-traficantes do que para banqueiros. E,  dando prosseguimento lógico ao pensamento esboçado por Guti Fraga, logo obras baseadas em vidas de traficantes como Luiz Fernando Beira-Mar e Celsinho da Vila Vintém ganharão não apenas os palcos e as telas de cinema - para que possamos conhecer a mente de facínoras como eles -, essa mentalidade integrará conselhos econômicos, prestando consultoria aos conglomerados empresariais dispostos a conhecer estratégia administrativa agressiva adotada por estes dois homens de negócios de peso.

A arte não é educativa. Os programas pedagógicos são nocivos, se alegará, tendo em vista o realismo soviético e outras experiências similares. Contudo, reforço a minha pergunta: uma região visitada constantemente por matadores, traficantes, assaltantes entre outros escroques, o que ela poderá aprender com a encenação de Tudo ou Nada? Funcionará como um curso de extensão? Pós-graduação? Mestrado? Ou Doutorado? Ou de advertência de nosso lugar na pirâmide social e de como somos vistos? É um alerta? De quê? Por que não um ciclo de William Shakespeare reinventado por Zé Celso, Haddad, Aderbal Freire-Filho a partir das conjunturas locais, do entroncamento dos bairros adjacentes, com planejamento em oficinas realizadas nas comunidades para a escolha do atores? Por que a perversa antropologia?

A minha impressão é de que a classe média não precisará mais da polícia, porque, com a presença de determinadas ONGs, cantores de rap, entre outros agentes constituídos por sua anuência política, quer a domesticação do povo preto, pobre e favelado. E eles sabem mostrar direitinho o nosso lugar: em vez de Hamlet ou Coriolano – o assunto é violência, não é? – Tudo ou Nada ou Meu Nome não é Johnny ou Cidade de Deus... Por que homens - como nós - assumem a posição de leões de chácara da classe média? As câmeras de segurança, carros blindados e outras parafernálias desaparecerão porque eles nos ensinam o nosso lugar e quem nós somos através dessa nova língua geral do teatro, da música, do cinema e da televisão brasileira.

Eles apenas desconhecem se aceitaremos isso e por quanto tempo.

Apontamentos Sobre a Revista Você S/A Edição 180. Maio 2013.


Prezados Editores,
Mancadas na Você S/A Edição 180. Maio 2013.

Os 7 Passos Para Decisões Melhores, constante da matéria Como Tomar Decisões Melhores, possui uma contradição entre o segundo passo e o terceiro, portanto, parece que implícita uma contradição nos posicionamentos dos CEO’s consultados. No passo de nº 2 somo exortados a ouvir nossa intuição que trabalha com informações armazenadas conosco, frutos de operações semelhantes àquela que será executa e o passo nº 3 explicita que devemos desconfiar das soluções já empreendidas, explicitada dessa forma: “Nossa tendência é fazer escolhas pelo caminho que conhecemos”.

Outro ponto de vista curioso da revista repousa na matéria Defenda-se da Grosseria. Um pequeno Manual da Boa Vizinhança em que se exorta àquele que sofre assédio moral, porque isto é assédio, mesmo não sendo tomado com tal pela revista e não constando na matéria os caminhos legais para a reação a isto, porque já entendido como crime, induz ao individuo que identifique em si mesmo as razões pelas quais é maltratado pelo chefe. Há o cúmulo do depoimento de uma psicóloga que diz: “Muitas vezes, o comportamento de um chefe grosseiro é resultado de nossas ações”. Imagine se tomarmos ao pé da letra o conceito aplicado nas relações trabalhistas do artigo e o transferirmos para violência contra as mulheres?

A matéria A Hora das Favelas é muito bem conduzida, mas não é instigante, não coloca os pontos negativos de ações como de Luiz Andreaza, porque a realidade do trabalhador das regiões carentes não apenas de São Paulo é a flutuação empregatícia, isto é, hoje está empregado, mas amanhã pode não estar. Como a empresa Vai Voando lida com a flutuação? Pratica, como muitas lojas de venda de eletrodomésticos, a venda de seguros com pequenas sobretaxações sobre o valor do produto para garantia de recuperação do mínimo investido?

Jornalismo corporativo não é vaca de presépio, não é Maria vai com as outras. A apuração não deve ser insossa, passiva ou apenas tolamente imparcial para as informações chegarem “in natura” ao leitor. Deve ser instigante, propor abordagens que auxiliem a elucidar os pontos de vista daquele que ali está dando seu depoimento, sem grosseria ou pretensão. Não é porque o entrevistado é o Eike Batista, por ele ter integrado a lista de milionários da Forbes ou ter sido escolhido para o consórcio administrativo do Maracanã, que todos os seus pontos de vistas estão corretos ou fazem sentido.

As reuniões de equipe são importantes para a avaliação do conteúdo produzido e a checagem do que está escrito deve ser realizada pelo editor-chefe, por mais que o trabalho seja desgastante ou que pareça inútil. O editor-chefe pode não se achar investido das qualidades necessárias para exercer a crítica sobre o conteúdo, isto é compreensível, mas pequenas contradições como as expostas podem ser corrigidas.

Escrevi da última vez para a revista e sequer minhas sugestões foram publicadas no espaço de Cartas dos Leitores. Pode ser incômodo aquilo que é apontado, mas é pertinente. E deveria ser considerado como algo que colabore no crescimento dos profissionais e da revista. Como não sou ombudsman da Você S/A paro por aqui. Obrigado pela atenção.

Atenciosamente,

  Mariel Reis

Poema de Mariel Reis


A Voz

Por que a voz, essa planta,
De finíssimas pétalas,
Nascida do fundo da garganta
É capaz de tanta comoção?
Capaz de provocar a paz
E de incitar a guerra
A voz, essa hera,
Alastrada em nosso íntimo,
Com seus invisíveis fios
Em condição provisória
Narra o nosso destino;
E esgarçada, desaparece
Como se nunca houvesse
Feito parte de nossa História.

Um conto


Estátua de Sal

Ele me avisou pra não olhar pra trás.
Um corredor de bombeiros, policiais, repórteres e assistentes socais cercavam a minha partida. Minha garganta e os meus olhos ardiam com tanta fumaça. Meu pai me abraçou forte e a gente logo conseguiu chegar até a avenida. As viaturas da polícia e do bombeiro atravessadas na pista. O trânsito desviado. Um helicóptero sobrevoava todo o lugar. Minha mãe e minha irmã desaparecidas.
Numa perua, uma mulher distribuía comida e água para os moradores que haviam perdido tudo no incêndio. Prometiam a assistência do governador aos desabrigados. Meu pai não parava de chorar. Os noticiários só falavam das buscas, dos desaparecidos e da hipótese de o incêndio ter sido criminoso. Abracei meu pai. Uma nuvem de fumaça negra subia aos céus.  Eu não podia olhar para trás. O hálito do fogo batia nas minhas pernas. Era feito aquela história contada lá na igreja: se eu olhasse pra trás viraria uma estátua de sal.
 Meu pai não agüentou. Levantou-se e andou na direção do fogo. Ordenou-me que ficasse ali, parado, até a sua volta. Os policiais fizeram um cerco de isolamento. Ninguém mais podia se aproximar. Meu pai ficou por ali como se não quisesse nada: de um lado pro outro. E quando percebeu a distração policial, atravessou o isolamento e se atirou nas chamas. Fiquei gritando: Pai! Pai! Ele não me ouvia.
A mulher da combi me deu mais um guaraná e um sanduíche. O grupo de policiais, bombeiros e assistentes sociais conversavam entre si e me apontavam.
Eu estava sozinho.
Meu pai sempre me disse que isso um dia aconteceria.  Uma mulher loira veio perto de mim e fez algumas perguntas. Você vai ter outra família. Uma fila de crianças formava-se perto de um ônibus. Na porta, outra mulher, gorda, de óculos engraçados, perguntava o nome completo e a idade de cada um que ela mandava entrar dentro do carro.
Quando chegou a minha vez.
Dei as informações. “É um rapazinho, hein.” O ônibus sacolejava. A instrutora explicou que agora todos ali éramos órfãos e íamos para um abrigo. Pensem no futuro, apenas no futuro, orientava. E não olhem para trás.
Desobedeci.
Fui para a traseira do veículo. A fumaça rolava pelo ar e as faíscas atingiam as nuvens. De quando em vez, uma explosão. Ainda ouvia as sirenes.  Senti as mãos da instrutora pousadas em meus ombros.

 Publicado em: 
http://www.mallarmargens.com/2013/05/conto-de-mariel-reis.html