quarta-feira, 5 de março de 2014

Eu sou a Lua, a inconsolável; a viúva com sua corte
 
Para Áurea
 
 
O dia extingue-se nas montanhas.
Os pássaros parecem levá-lo para algum lugar
Distante do horizonte, estendendo atrás de si
O rastro de sombra que se tornará a noite.
 
 
Os vaga-lumes acendem um caminho nas trevas
Para os homens não perderem a si mesmos
Na caravana, apesar de não terem mais o caminho sob seus pés.
 
No céu, as estrelas pálidas confessam o seu amor
Pelo dia que acontecido e as mulheres sussurram
Entre si: “A Lua não encontrará mais sossego no céu,
Quando seu longo véu de nuvens se abrir”.
Um Caminho do Zen ( poemas) de Mariel Reis
I
Como se alimentar
A não ser pela boca?
Seus olhos, seu nariz,
Seus ouvidos, seus braços,
Suas pernas, não lhe trazem o alimento?
Não é pelos olhos que conhecemos a beleza?
A beleza não é uma instrução?
A paisagem verdejante e tranqüila
Não é o modelo para nosso corpo e nosso espírito?
Não o é a sua fragrância uma suave
Advertência ao nosso corpo e espírito?
Os frutos em suas árvores colhidos
Pelas nossas mãos, levados à boca
Não é um sinal do que devemos ingerir?
O caminho percorrido por nossas pernas
Muitas das vezes solitariamente
Não o é também um vagar em si mesmo?
E vagar em si mesmo não é descobrir-se?
Não é estar ocupado pelo instante?
Alimenta-se o espírito de modos diversos.
Não só pela boca, não só pelos ouvidos,
Não só pelo nariz, não pelos braços,
Não pelas pernas, não só pelos olhos,
Mesmo sem eles recebemos o alimento
De que nosso corpo necessita.
É preciso estar atento.
II
Quando se pratica o amor
O zen lá está nos detalhes.
Observa: o ritual dos braços,
Da boca, da pele e das palavras.
III
Sem o corpo como conhecermo-nos?
Se não tivesses um rosto, qual seria sua face?
E que idéia farias de um braço se não o tivesses visto
Pelo menos alguma vez? E se não tivesses olhos que
Idéia teria das paisagens se te perguntassem?
E se não tivesses ouvidos como poderia saber da música
Dos planetas na imensidão e em nós? Sem eles os pássaros
Não fariam sentido com suas cores e cantos e árvores
Representariam absurdos tão grandes que julgarias estar
Em um mundo desconhecido e bizarro.
IV
Imagina se não tivésseis as notícias
De terras distantes, de homens diferentes
De vós, se não tivésseis nenhum dos sentidos
Que lhe auxiliam e ainda assim vivêsseis
Como todas as coisas sobre a Terra
E quisessem convencer-lhe de que há
Outro lugar entre o Céu e a Terra
E que lá maravilhas semelhantes
Ocorressem não despertarias de seu sono?
Ou apenas afugentarias a ilusão, bastando
A si mesmo como única causa da Realidade?
V
A flor, quieta, medita sobre a sua beleza.
Não sabe quantas estações durará
Não sabe se será ceifada ou o vento lhe
Judiará por estar enamorada do sol
Ou se o Sol ciumento lhe queimará
As pétalas por voltar-se para o lado
Quando sopra a brisa.
Roseiral
(poema) de Mariel Reis
 
Centenas de soldados,
De capotes rubros,
Marcham sob o céu azul.
Cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima” Amadou Hampâté Ba




 
A frase acima é do escritor malinês Amadou Hampâté Ba que realizou um trabalho etnográfico nas tribos da África registrando a importância da cultura oral e a sua transmissão através dos mais velhos para os mais novos. A restrição de que apenas o “ancião”, por ter vivido mais, detinha a experiência e, portanto, a verdade sobre os fatos - não apenas de si mesmo como de sua tribo -, desprezando a possível contribuição dos mais novos (negando-lhes talvez a subjetividade), fez com que, em minhas reflexões, a sentença fosse mudada: “As pessoas que morrem são bibliotecas que desaparecem”. Eis a minha reformulação, optando não por torná-la restritiva, quando se refere apenas ao “ancião” como repositório de sabedoria e conhecimento, porque via de regra todos nós possuímos acerca da existência uma posição e uma tomada de consciência, mesmo que inconsciente, mas trazendo os discursos marginais para o centro.
 
 
Amadou Hampâté Ba não é um niilista, porque as cinzas da biblioteca queimada servirão de adubo ao solo para a germinação do novo no território antes arrasado. Em certas regiões, a urina misturada a cinza serve como fertilizante para o plantio. A renovação está intrínseca. Isto faz do poeta um otimista cuja crença em um ciclo fará com que a memória seja sempre preservada entre os integrantes da tribo, preservando a sua homogeneidade e integridade cultural, repassando a frente seus valores e tradições, sem prejuízo maior em sua totalidade. A minha paráfrase não reserva tanta esperança quanto a frase original de Amadou Hampâté Ba, porque se baseia, objetivamente, em uma realidade matemática e menos metafísica. O poeta John Donne pondera “A morte de cada homem diminui-me”, como sói acontecer comigo. E se este homem, que não precisa pertencer a uma população ágrafa da África ou da Ásia, não garantir a perpetuação de si mesmo através dos mecanismos da escrita, de um modo geral -, ele estará perdido.
 
 
Os testemunhos poderão resgatá-lo, reacendê-lo em seu aspecto mais pitoresco, no entanto, não o colocarão de pé para ser exibido, visto e escutado por nós. Daí a diferença entre a minha frase e a de Amadou Ba. Na minha frase uma operação negativa se efetua. Esta não se alterará com o nascimento de outra individualidade, com o acréscimo de sua subjetividade ao mundo, mesmo importante dentro do contexto em que estará inserida. O homem que se perdeu levou consigo uma experiência particular de sua caminhada dentro da humanidade, enfatizando-se a sua existência histórica, circunscrita e temporal. E se ele, o homem, se ausenta ou desaparece não há como invocá-lo ou apoderar-se de sua essência como nos ritos anotados por inúmeros etnógrafos da religião.
 
 
A acusação de plágio não é o me incomoda, mas o desconhecimento de que discursos migram dentro da cultura e uma idéia pode aparecer duas vezes em lugares diferentes e na cabeça de homens opostos. O caso de Leibnitz e Newton é exemplar do comportamento de uma idéia. No entanto, não me esquivo em responsabilizar-me pela ocorrência da idéia e de sua familiaridade, presente em brasileiros de diversas estirpes como Paulo Freire, Leonardo Boff entre outros. A minha confissão de leitura recai sobre o primeiro e o modo de alfabetização universalista que considere o mundo e as pessoas como narrativas/riquezas. O crédito deverá ser dado, para abonar a minha suposta desonestidade intelectual, a Amadou Hampâté Ba, descoberto em minhas aulas de antropologia e história na UNIRIO, não por conta da instituição; mas a leitura de suas poesias que foram a porta de entrada para os seus ensaios.
 
 
Aos idiotas da subjetividade que teimam, mesmo em tempos pós-modernos, em encontrar na paráfrase o plágio de Amadou sugiro a leitura do livro de Afonso Romano de Sant’anna sobre o assunto, se a explicação acima for insuficiente. Lembrando que a minha frase foi dita em uma palestra dada por skype no Centro de Convivência Textual, portanto não acreditava credenciá-la a um autor que não fosse eu mesmo. Todavia a discussão me lançou a reflexão de quando havia me deparado com a sentença, e antes que se instalasse a balbúrdia, atribuindo a outrem o DEVIDO, esclareço que mais do ninguém Amadou Bâ merece ser respeitado, lembrado e, talvez, lido. Ele, por certo, não discordaria que essencialmente afirmamos algo parecido, embora em pólos diferentes, reconsiderando o substantivo, mas nunca a esperança. Talvez esta seja a diferença entre nós.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Devolver

Embora contrário a idéia de festa, fui ao casamento do meu irmão, receoso de que a suntuosidade representasse uma ofensa às inúmeras mortes em minha família. A morte é melhor quando só. E para compreendê-la, aceitá-la ou ignorá-la – porque apenas se pode ignorá-la refugiando-se no campo das lembranças -, também é preciso estar só. Em uma solidão tão completa em que a consciência possa dialogar profundamente consigo mesma, capaz de alcançar esse outro, que já não existe. Ou se existe, está entrincheirado nas recordações. Quanto maior a recordação, mais vivo ele estará. Circulará por ela através de nosso próprio sangue. Viajará pelos hemisférios de nosso corpo. Talvez a morte, nesse momento, não exista. E ninguém tenha morrido. A realidade insiste em contrário: a casa vazia, as roupas murchas, um jeito que desapareceu e não voltará mais. A recordação, se não for grande, o afeto, se não for verdadeiro, serão engolidos pela enxurrada de sentimentos negativos e a incapacidade de mudança dos fatos. Engolfados morreremos juntos do que amamos, mesmo parecendo vivos e razoáveis.

O receio de minha irmã transferiu-se ao meu espírito. Armado de certezas morais, tornei minha a sua contrariedade. A igreja ficava na esquina onde o meu irmão fora morto. O mal-estar estabelecido dentro de mim e o julgamento de inadequação do casamento. Isto se comunicava entre nós, estabelecia-se. Verdade? Esforçava-me por acreditar nela, invocando adjetivos dolorosos. Impunha-me penitência por estar relaxado naquele lugar. Então me deparo com o salão vazio. E irmão mais velho, me lembrei de quem era o meu irmão que casava. Voltou à minha memória: a miséria, a casa com goteiras, a falta de comida, de roupas e de calçados. Não resisti, chorei. A mesma miséria estava naquele casamento, celebrado às pressas, próximo ao Natal. O casamento tão pobre como os presépios que habitam milhares de casas nessa época. Ele, meu irmão que casava, não tinha conhecido felicidade, igual a todos nós. Não tinha conhecido conforto, feito todos nós. Não tinha conhecido trégua. O meu corpo reacendeu-se com a percepção. O receio cedia lugar à iluminação, súbita. A cerimônia havia começado.

A igreja vazia, no máximo quinze pessoas. A solidão de meu irmão desamparado, sem saber o que fazer, dissipou a impressão negativa colhida na conversa com a minha irmã. Ele continuava menino, desprotegido e sem forças. Quando a chuva caía violenta sobre os telhados da casa de minha infância tinha que pegá-lo no colo e cantar uma música improvisada para que seu choro cessasse. No altar, ele sozinho em sua encruzilhada. Procurava algo que seria apenas dele, mesmo maculado. Pedira à minha irmã para entrar com ele na igreja – neste ano dos mortos, minha mãe morrera. Ela se recusara. E lá ele, os olhos banhados. Os casais de padrinhos do noivo e da noiva em seus lugares. A cerimônia prosseguia. Os noivos no púlpito. Refleti: minha mãe sempre quisera ver os filhos casados. Ele realizava, desastradamente, o pedido materno.

Desceram casados. O último espetáculo seria a festa. Em minha conversa com minha irmã falávamos de respeito e outras palavras graves para reprová-la. Fomos ao galpão empoeirado, local de reuniões, transformado em salão festivo. Sem ar condicionado, com cadeiras desconfortáveis, sem mesas. Nenhum luxo. Refrigerantes de marca popular, salgadinhos comprados a quilo e um bolo. Outra vez a lembrança de que ele, o meu irmão casado, nunca tivera uma festa, não estudou, nem teve roupas ou calçados. A pobreza havia nos subtraído. Olhei para ele vestido garbosamente. Talvez seja a única vez que poderá vestir-se assim. Minha irmã parecia chegar às mesmas conclusões, embora resistisse lhe dar ouvidos: acicatada pela morte dos irmãos, da mãe e do próprio filho. Chorei. Quando aquilo acabasse, ele teria que entregar a roupa alugada. Nada era dele. Nada é nosso. Algo difícil de compreender. Mais ainda quando é chegada a hora de devolvermos tudo o que recebemos. Até nós mesmos.
O Vingador é Lento



‘O olho na busanfa das moreninhas, das loirinhas não é de hoje, nem dos bailes funk. Liga-se diretamente a discussão a questão racial do país, reforçada pelo sociólogo Gilberto Freire no epíteto: “Branca para casar, mulata para fornicar, negra para trabalhar”. Os gringos logo descobriram o tal negócio. Trataram da exportação da mercadoria. Uma mulata em cada lar, era o lema. E viva a mulata, a moreninha e ao Lan - que não tinha entrado na história’



Mariel Reis (marielreis@ig.com.br)



Para José de Alencar os índios descidos dos céus mereciam herdar a terra juntamente com os portugueses. Os negros, conforme suas missivas destinadas ao imperador, precisavam ser civilizados. Um paraíso tropical de Peris, Cecis e Manoéis, eis o que habitava a cabeça do romancista, correndo peladinhos pelas faixas litorâneas, fazendo boas safadezas sob a sombra da vegetação abundante e para não desidratar, depois de tanto esforço, uma água de coco. Ninguém é de ferro. Plasmava-se o primeiro sonho racial das terras tupiniquins. Os gringos acreditavam tanto que a gente pelada aqui dos trópicos era da tal raça adâmica que os levaram para casar com as próprias filhas em suas terras longínquas e prósperas. Como não havia força policial para fiscalizar a terra, o tráfico humano rolava solto. E o índio, com o carimbo nas nádegas MADE IN BRAZIL, com as vergonhas de fora e penacho, chegava causando um fuzuê na Europa; inaugurava um Carnaval fora de época e antecipava o bum-bum-praticumbum- burungundum do Rio de Janeiro e a folia dos trios elétricos baianos e, ditando moda, o visual adotado pelos tropicalistas e por Carlinhos Brown.



Moreninha, moreninha, você sabe mexer... Defende o grupo É o Tchan, onde a loira Carla Perez e a morena Sheila Melo requebravam na boquinha da garrafa, acompanhadas pelo dançarino Jacaré e o compadre Washington. O olho na busanfa das moreninhas, das loirinhas não é de hoje, nem dos bailes funk. Liga-se diretamente a discussão a questão racial do país, reforçada pelo sociólogo Gilberto Freire no epíteto: “Branca para casar, mulata para fornicar, negra para trabalhar”. Os gringos logo descobriram o tal negócio. Trataram da exportação da mercadoria. Uma mulata em cada lar, era o lema. E viva a mulata, a moreninha e ao Lan - que não tinha entrado na história. Joaquim Manuel de Macedo, em A Moreninha, inspirará o Sargentelli e seu esquadrão do balacobaco de formosas moças cor de baunilha. Ula-lá-lá. Desconfio de que o romance inaugurou oficialmente o fetiche pela moreninha. Exportávamos aborígenes, estrangeiros se amasiavam com indiazinhas, por que não a moreninha entrar na dança? O canibalismo rolava geral, em sentido figurado. Todo mundo comia todo mundo. E muita gente recorreu à Igreja e à Inquisição para não perder o fiofó. Salve Ronaldo Vainfas! Salve! O Brasil é um país curioso em que coisas aparentemente desconexas falam uma mesma herança histórica.



O berimbau metalizado e o samba do crioulo doido tudo ao mesmo tempo agora. Sertanejo é homem forte, cantava o samba de mil novecentos e setenta e seis. O sertão do positivista Euclides da Cunha. Não era bonito, mas entrou na moda: artes plásticas, cinema e literatura. A geração de 30. Bagaceira. Pouco prestava ou nada. Dois ou três livros, no duro, na batata. Batata ali não dava; macaxeira mesmo. Virou enredo de escola de samba. Outro ator social no palco da assistência social do Brasil. O sujeito não era simpático, macunaímico, como o malandro Grande Otelo. No entanto, era UM SUJEITO. Não era para tanta sujeição SUDENE: perene. Pespego e pontuo em meus livros, casmurro, que o Brasil não se (re) inventa: se repete, miseravelmente; nos entrementes, nas dobras da História. A mocinha para no farol com a bolsinha, menor – Tom Zé, Baixio das Bestas – vocifera que a carne mais barata do mercado não é apenas a negra, é a brasileira. O pregão continua feroz: coxa, lombo, peito no açougue a céu aberto do país. Um sujeito, o tal homem cordial abre a porta do automóvel, combina o preço e outra vez – Valha-me GIAMBATISTA VICO – o recomeço. O vingador é lento.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Poemas Para Menelau Morto


I
O Cão ronda a tua casa, sentinela da noite.
É o covil das mil injúrias que ele guarda,
A soldadesca de sombras o ampara. Ele vigia:
A inconsútil matéria assomada das frestas
De tuas células, a tua herança exangue, acre,
Maldita, erguida entre assassínios, a desdita
Língua com que puniste a índole dos homens,
Sem piedade ou clemência, sem distingui-los,
É por isto a tua miséria, eis a tua sentinela
Como adorno de teu espírito, esta corrente
Estás enganado, não é ao Cão que ela prende,
Esticada presa ao pescoço da gente.
II
Tu és um assassino, tem as mãos sujas de sangue,
Nada te importaria se retirado, se teus membros
Fossem esquartejados ou tua cabeça rolasse cortada
Pelo frio aço da guilhotina ou tua língua arrancada.
Tu és um forte, embora teu corpo não resista mais
Às rajadas de vento e não te importaria em morrer
Afogado, queimado, assassinado ou levado pelo ar
Feito um pássaro de asas amputadas pelo ciclone
Nada disto te atingiria o espírito, nada disto
Faria com que tivesses piedade de ti mesmo,
Nada disto faria com que pedisses clemência
Porque tua raça é a dos fortes e impiedosos
Tanto melhor para Deus homens desta raça,
Tanto melhor para Ele quando a estraçalha.
III
Tu sabes muito bem que somente os cães, apenas
Eles seguem a tua corja, abrigam-se à tua sombra,
Somente os cães dividem contigo o repasto e olham
Mansos por sobre teus ombros e não enxergam pecado,
Somente eles, os cães, Deus destinou à tua raça
Para farejá-la dentro da perdição e do cansaço,
Apenas eles, os cães, lambem a tua mão de doença
De morte, entram contigo em teu labirinto de breu,
Apenas eles guardam o teu descanso, velam ciosos
Por teu espírito que na imensa noite se perdeu