segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sobre Antônio Fraga

Estação de Queimados. Lugares impróprios para um menor. Definição: pacata e tensa. Bairro Carmorim, chapa quente. Sempre de role. Sempre à toa. Minha arma à tiracolo: William Saroyan. Todo carcomido. Presente do Flamínio. Ex- livreiro da livraria Dantes. A mente esvaziada pelas palavras e a fumaça, bombas explodindo, acendendo mil lâmpadas no meu cérebro, excursão nas tardes insones que topam com o bonde e um dia, em uma esquina um coroa com um monte de quinquilharias. Desenhos e pinturas. Alguns realizados com esferográfica ou guache. Coroa seco, meio careca, com olhar de ver a gente por baixo, investigando, devia ter um metro e sessenta e oito ou setenta. A velhice encolhe as pessoas, ele vaticinava.

Rolei uma idéia longa. Era doido, mas lido. Tanto ele quanto eu. Doido, lido e vivido. Época : 1990. Eu disse que escrevia. Ele também. Sacou um caderno desses escolar, pequeno, amassado do bolso detrás da calça de brim sei lá azul ou preta. Uma sandália de malandro,arrasta pés. Como se fosse meu ortopé, só que com a tira de trás cortada. Leu um poema. Não me lembro direito. Era sobre o tempo. Conversou comigo sobre meu estado de sítio, meu estado de exceção – minha temporada no inferno particularíssima. Sai dessa, jacaré – riu. Perguntou a minha idade, abaixou a cabeça como reprovando. Estou como a cidade, abandonado, veio. Eu disse. Perguntou se eu transava literatura americana ou inglesa ou francesa. Respondi que lia mal no original. Então, começou a enrolar a língua como se estivesse em gira de povo de rua e desandou a falar a língua do bife.

Sacava o coroa. Me deu uns toques. Disse que já tinha livro publicado, nos tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça, que se quisesse poderia me arrumar, saído há pouquinho. Combinei de outro dia pegar o calhamaço. Me corrigiu. Fininho, magro, magro. Arriou vários H para cima de mói, que conheceu fulano, beltrano, dormiu na casa de cicrano. Eu só escutando a lorota. Isso antes de me arranjar o livro. Ele via minha desconfiança, mas me recomendava cautela com os gestos vagarosos. Vagarosos, mas seguros. Coisa de samurai que já segurou muita pindaíba.

Teu nome? Antônio. Voltei para a estação da Loucura. Certo dia pego pelo colarinho, lá estava ele e uma mulher baixinha, minha esposa. Ela sentava-se com ele em uma banquetinha. Já foi atriz. Sim, estou me fiando. Enredado posso morrer enforcado. O livro, sempre direto. Tomei nas mãos: Desabrigo. Como eu estou. Antônio Fraga. Como estamos ambos, emendou manso. Meu deu endereço, para visita: Rua Japeri. Anotei apressado. 35 - Número da Cobra. No jogo de bicho. Cobrinha, persona non grata da novela. Tudo batendo em esquema de dar medo.

Quando li o Desabrigo sabia que o coroa dizia a verdade. Era bom, era bamba. Conversava em muitas línguas, me incentivou a estudar, apesar de ter só o primário. Memórias de zona e leitura. Tudo matéria ordinária, vale descobrir nela o extraordinário. Nisso está o pulo do gato. Descobri que além do João Carlos Rodrigues, outra pessoa Maria Célia estava organizando os arquivos dele. Vou procurar saber o que é, não vou passar procuração, mas vale um Fraga na mão.

sábado, 27 de junho de 2009

Acenos de Um Mar Distante

Caros Amigos Leitores,
Estou ocupado com minha mais nova publicação: Cosmorama. Já havia anunciado aqui sobre a existência desses poemas escritos ao longo do tempo, sempre entrelaçando minha paixão por minha mulher com conceitos colhidos no mundo Duas naturezas entrecruzadas nesse amor: a vegetal e a sensual.
O resultado é que estou me apressando para aprontar o livro para lançá-lo na FLIP. A edição ficará por conta da editora Paradoxo em um novo título de uma coleção guardada às sete chaves, preparando o retorno de Delfin como editor. Fora a categoria do trabalho visual, o formato será próximo ao das Edições Marginais da década de 70. O livro terá por volta de 40 a 50 páginas, grampeado, com prefácio de Leonardo Fróes e posfácio de Reynaldo Valinho Alvarez.
Participo de um concurso de poesia em terras portuguesas. A premiação é a edição do livro. E estou negociando um título com a Dulcinéia Catadora, esperando a aprovação. Abraços a todos.

Fiquem de Olho!

Minha mulher, Aurea, resolveu dividir com o público suas impressões sobre a leitura de obras dramatúrgicas. Criou um blogue e está iniciando os trabalhos no endereço abaixo:
Confiram, porque vale a pena.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Michael Jackson 1958 - 2009




A morte do astro pop fez por ele aquilo que a turnê realizaria em longo prazo: aumentar suas vendagens e livrá-lo – agora aos seus herdeiros – de suas dívidas.

A carreira de Michael Jackson começou no conjunto The Jackson Five, ao lado de seus irmãos e sob a severa vigilância de seu pai que não queria perder o controle de sua ave dos ovos de ouro. Logo o grupo se tornou um sucesso, assinando contrato com a Motown – conhecida ter agenciado nomes como Ray Charles entre outros.

Michael Jackson teve uma vida pessoal atribulada, cercada por fantasmas familiares. Acredita-se que a tirania que o pai exercia com toda a família tenha sido a responsável pelos desajustes que viriam a ocorrer na vida do cantor, compositor e dançarino. Inclusive, levando-o ao paroxismo máximo: negar a própria cor.

Esta atitude – por mais ingênua que possa parecer – informa como o interior do astro se relacionava com sua posição étnica e social. A transformação radical por que passou, gerou polêmicas, ajudou a acirrar discussões sobre o problema do negro em seu país e levou ao extremo a teoria do embranquecimento.

Ainda pesa sobre o autor de Thriller acusações de pedofilia e comportamentos excêntricos, conforme aquele demonstrado pelo cantor ao pendurar seu filho – Prince Michael II – na janela de um hotel.

O desequilíbrio e os conflitos ganharam sobre Michael Jackson uma vantagem difícil de ser superada, porque antes de sua morte, se preparava para uma turnê pelo mundo, mas não tinha forças para manter acesa dentro de si a esperança de que conseguiria. Tomava antidepressivo, cogita-se que era viciado em sedativos – vício decorrente do acidente com queimadura no couro cabeludo durante a gravação de um comercial de refrigerante.

As especulações em torno da causa de sua morte – uma parada cardíaca – seguem adiante. O carro do médico que estava na mansão de Michael Jackson – Belair, Los Angeles – foi apreendido pela polícia para análise, aventando a possibilidade de erro em dosagem de medicação ministrada ao cantor.

Aos 50 cinquenta anos, Michael Jackson, mesmo depois de sua morte, ontem (25/06), suscita perguntas a respeito de uma cultura onde cada coisa está em escaninho, dentro de uma qualificação, de um mensuramento. Tarifadas umas valem mais que outras, talvez isso, somado ao passado de dificuldades e maus tratos, angustiasse o artista mais famoso depois dos Beatles.

E por falar nos Beatles,Paul MacCartney chegou a gravar um clipe com Michael Jackson. Comenta-se à boca pequena que este era detentor dos direitos da banda de Liverpool.

Quando criança dançava ao som das músicas de Michael Jackson, levado por meu tio Josué – irmão de minha mãe – aos bailes na região de Curicica para performances que imitavam o jeito do exímio dançarino que Jackson foi.

Os percalços e estranhezas dessa passagem por esta vida sinalizam que mesmo tortuosamente, monstruosamente, os homens buscam verdades dentro de si mesmos, de maneira extrema, desesperada, como um Narciso que para se conhecer não precisasse de espelho, mas do próprio avesso para saber se suas vísceras ainda o fazem humano.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Violência Contra a Mulher

No blog Mães em Rede hospedado pelo Globo on line ( link abaixo) li apostagem Testemunhas da Violência que me perturbou profundamente. A questão da violência contra a mulher é um fato que não pode ser contornado na sociedade moderna, com difícil solução pela imposição do silêncio, da vergonha e do medo que as próprias mulheres enfrentam ao tentar denunciar. Porque confiam na regeneração do companheiro não tomam a atitude correta. Mas as mulheres não estão apenas do lado das vítimas. Nessa postagem de autoria de Elis Monteiro, mostra que existe uma reação - má reação, ou única - que carrega as mulheres para a marginalidade quando imitam o comportamento do seu perseguidor. Inflingindo sofrimento e dor aos que estão a sua volta, violentando e corroborando a vil lei tácita de que se homem bate e mulher apanha, mulher também pode bater. Contra toda e qualquer violência, seja de que natureza for, este blogue e seu autor repugnam. Escrevi um soneto sobre isso que lendo o relato abaixo parece ingênuo quando observada a complexidade do problema.
Enviado por Elis Monteiro -
21.6.2009
22h34m

Uma cena me chocou hoje no shopping: homem e mulher começam a discutir alto no meio do corredor, até que ele, do nada, dá um safanão nela. A cena seria horrivel de qualquer forma. Mas o fato de a mulher ser mãe de uma menina de menos de dois anos, que estava em seu colo, faz com que o ato todo seja uma grande e absurda violência. O segurança do shopping tentou intervir, mas o homem reagiu, gritando que era policial e que aquilo era problema de família. Não era, não. É um problema de toda a sociedade.

Enquanto os pais se digladiavam shopping afora, a menina continuava no colo da mãe, assustada e choramingando. Uma cena triste, lastimável mas, infelizmente, comum. Tenho visto um número cada vez maior de pais e mães discutindo ou se agredindo na frente das crianças. É grave, gente, muito grave.

O caso recente mais absurdo é o daquela mãe da Barra da Tijuca que matou o marido a facadas na frente do filho. O que será dessa criança daqui para a frente? Além de ter perdido o pai e de ter uma mãe fugitiva da polícia, foi testemunha de um crime pavoroso, o que provavelmente lhe trará sequelas emocionais para o resto da vida. Nao importa se o crime foi em legítima defesa ou não - a criança testemunhou o pai ser morto e ponto.

Infelizmente, a violência está a cada dia mais perto de nós. Quem de vocês não conhece um casal que vez ou outra permite que os filhos presenciem cenas de violência que, por menos graves que sejam, continuam sendo cenas de violência? Eu conheço casais que gritam e chegam às vias de fato perto das crianças ou, pior, em alguns casos a mãe ou o pai usam a criança como escudo. Mas por que isso? O que as pobres crianças têm a ver com os problemas dos pais?

Recentemente,a apresentadora Oprah Winfrey abordou o assunto em um programa. Convidou um psicanalista e um casal que tinha como hábito discutir e se estapear na frente da filha de três anos. O programa acabou instalando câmeras escondidas no apartamento, com a anuência da avó da criança, e as cenas registradas são simplesmente chocantes: sempre que o marido começava uma briga, a mulher corria, pegava a filha e a deixava participar da briga, usando a filha como escudo quando o marido, enfurecido, a atacava.

Fiquei muito triste com essas cenas, assim como fiquei abalada com a cena do shopping. Não me sai da cabeça o rostinho infeliz daquela pobre menininha, perdida entre palavrões, xingamentos, agressões verbais e físicas entre pessoas que, no final das contas, deveriam é estar protegendo-a da violência, não fazendo com que ela seja testemunha ocular da sordidez humana.
O Soneto Ingênuo - Ou Não me faça dar esta Notícia

A MUSA ontem apareceu machucada.
Sorria, porém, a safada pelas pancadas
Que na noite anterior recebeu. Não doeu,
Asseverou. Foi meu amor quem me bateu.

Quando isto me confessou aos ouvidos
Jogando ao fogo mais lenha, crepitava
Na fogueira dos envolvidos o silêncio
De quem não denuncia a violência.

De que terá servido, meu Deus, a Lei
Maria da Penha? Se a Musa em serviço
Não se deu por achada? Gostou das pancadas?

Oh, MUSA não te omitas. Foi teu amor
Quem te bateu e não eu. Mas no próximo
Poema terei que dar a notícia: A MUSA MORREU?

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Lembrança da casa



Ilha parada no centro
Ancorada na carne da cidade,
Desfeita pelos olhos:
Dentro do poema
Da própria voragem.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ao Modo de Dalton Trevisan

A boca entupida de sacanagens.
- Vamô amorzinho, vamô...
A nota de dez reais amassada, enfiada no sutiã.
- Pode ser ali, naquela árvore, não pode?
Ela se encostou levantando a saia.
- Seja rápido, pelo amor de Deus. E não me suja muito.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Convalescente e seu cão


Em meu período de recuperação com meu auxiliar de enfermagem Menelau.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Retiro

Não tenho atualizado o blogue por motivos de saúde.As novidades existem, mas compartilhá-las é que está meio complicado. Estava com uma gripe que me acompanhava por um mês – pelo menos. Não dava importância à presença dessa indesejada, recorrendo à medicação de farmácia e comprimidos que me aliviavam temporariamente. A tosse apareceu. Acompanhada de secreção. Congestão nasal e pimba! Sinusite aguda. Novamente curandeirismo de farmácia, repete-se a série de irresponsabilidades, melhoria aparente e catibum – principio de pneumonia. Desta vez fui ao médico. Bati umas quatro chapas. Constata-se a presença desagradável e antibiótico no menino. Nessa hora um vilão aparece. Um xarope. Altamente tóxico. Você leu a bula? Nem eu. Mandei as doses recomendadas. Senti o volume de o meu fígado aumentar. Inchaço na região correspondente. Volta ao médico. Este outro. Dando graças a deus a minha interrupção com o medicamento. Perguntou como eu suspeitei. Disse a ele que passo cinco minutos me observando nu em frente ao espelho. Verificando partes recônditas para ver se percebo anomalias. O médico fechou a cara, pensou que era sacanagem. O hábito salvou meu fígado de virar patê.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Trecho do Mojo Books Racional - Esgotado

"XV

Nas rádios, uma ou outra faixa justificava o esforço da gravação.
Todas as emissoras se negavam a tocar até mesmo as mais
comerciais.

Uma noite minha bolsa estourou. Tivemos de nos mandar
depressinha para o hospital. Era uma madrugada fria. As pessoas
voltavam lentamente para as suas casas. Não se esperava
problemas.

Quando Arnaldo parou num sinal, perto do hospital, percebeu
que alguém nos olhava. Um homem, obviamente do grupo de
Bem, nos reconheceu e partiu em nossa direção. Arnaldo subiu
os vidros. O cara começou a espancar a porta e a gritar coisas
confusas. O sinal demorou a abrir. Arnaldo perdeu a paciência.
Desceu do carro e esmurrou o cara."