domingo, 31 de maio de 2009

A Arte de Afinar o Silêncio

Reescrevo meus contos para formarem meu novo livro. Como sempre envio para um escritor que considero um bamba para opinar, desta vez tive a sorte de ter ao meu lado Eustáquio Gomes que me premiou com seus comentários. Segue na íntegra o e-mail do escritor:



Caro Mariel


Você me desculpe só agora ter lido o seu livro. Em compensação, espero que minhas palavras soem para você como música: sim, você é um escritor. E Arte de Afinar o Silêncio é um belo conjunto de narrativas.


Li-o em duas horas, mas a riqueza de seu texto pede releitura. Seu primeiro traço: a originalidade. O segundo é o domínio da linguagem. E o terceiro, a inventividade. Haverá outros que você sabe quais são.


Gostei muito de “O labirinto”. Às vezes me dava a impressão de uma novela,às vezes de um conjunto de microcontos. O final surpreendente diz que é um conto-novela, embora possa funcionar também do outro modo. Mas é nessaindefinição que reside sua singularidade.


O trabalho; estou atrasado. Percorro a distância da casa ao metrô na metade do tempo habitual. Enfio-me em um dos vagões. Corto os subúrbios em direção ao Centro. O sono em constantes investidas, querendo abalroar-me,levar-me a pique. Sei-me um navio velho. Todos podem ver as marcas detempestades no casco, sujo e escurecido.


Eis um belo parágrafo. É um dos pontos altos do livro, mas o dou apenascomo exemplo. Há outros. Por exemplo, todo o capítulo 27, de ótima fatura.Dos contos maiores, gostei particularmente de “Um conto sobre a inveja”(título que entretanto me parece explícito demais), o conto sobre Rebelomorto (engenhoso), A gorda (de ritmo e técnica excelentes), e Iberê (que mostra que você sabe se colocar na pele de outro, sobretudo que seja Iberê Camargo) O conto do incesto não é só chocante: é também de bom.


Alguns pequenos cochilos fáceis de consertar:


1) No capítulo 10 de ‘labirinto’ na frase “indicam o caminho difícil dasalmas das coisas”, creio que fica melhor “a alma das coisas”.


2) Em ‘Embrulho’, o correto seria dizer: “A mãe agigantada enxotando-o decasa” (em vez de “lhe”)

3) Em ‘Um conto sobre a inveja’, talvez seja melhor escrever simplesmente“Não atinava” em vez de “Não conhecia atinar onde mesmo tinha esbarradocom o sujeito”, Ainda neste conto, “textos veiculados na imprensa” meparece uma expressão técnica demais; melhor algo mais simples, como“publicados”.


Mariel, quanto à questão da editora. Eu mesmo estou procurando editor para a novela que acabei de escrever. Ainda não acertei o passo no campo, digamos, operacional da literatura. Estamos talvez no mesmo pé. Espero que compreenda.

E vamos continuar trocando idéias. Abraço amigo do
Eustáquio*
*Biografia
Eustáquio Gomes nasceu em Campo Alegre, povoado localizado no oeste de Minas Gerais, em 1952. Filho de pais lavradores, realizou seus estudos lutando contra dificuldades, primeiro na cidade de Luz (MG) e depois em Assis (SP), antes de bacharelar-se em jornalismo pela Universidade Católica de Campinas. Mais tarde tornou-se Mestre em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e defendeu tese sobre os modernistas de província. Sua infância é tema recorrente das crônicas que tem publicado em jornais e revistas, como "O mestre escola", "Os paramentos" e "Paisagem com neblina". Os seis anos vividos em colégios internos lhe inspiraram um romance, "Jonas Blau". O curso de jornalismo lhe deu uma profissão, a de repórter e depois editor, que exerce desde os 19 anos. Trabalhou em jornais do interior do Estado de São Paulo e colabora ocasionalmente em jornais da capital, tais como O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Entre 1973 e 1981 atuou também na área de propaganda e publicidade, primeiro na empresa Bosch do Brasil, em Campinas, e em seguida na White Martins, no Rio de Janeiro. Mas é na condição de jornalista que está, desde 1982, ligado à Unicamp. Como colaborador regular do jornal Correio Popular, de Campinas, já publicou mais de 500 crônicas, além de reportagens especiais, entrevistas culturais e outros textos. Dos dez livros publicados de Eustáquio Gomes, a maioria é desconhecida do grande público. "A Febre Amorosa", o mais difundido, está na segunda edição e é considerado "um pequeno clássico do underground" (Luiz Fernando Emediato). Foi adaptado para o teatro em 1996. Além de "A Febre Amorosa" (romance, 1994), seus outros livros são: "Cavalo Inundado" (poemas, 1975), "Mulher que Virou Canoa" (contos, 1978), "Os Jogos de Junho" (novela, 1982), "Hemingway: Sete Encontros com o Leão" (ensaio biográfico, 1984), "Jonas Blau" (romance, 1986), "Ensaios Mínimos" (ensaios, 1988), "Os Rapazes d'A Onda e Outros Rapazes" (ensaio, 1992), "Um Andaluz nos Trópicos" (entrevista com o pintor Bernardo Caro, 1995) — editado também em espanhol — "Un andaluz en los tropicos", em 2001, pela Unibero, e "O Mapa da Austrália" (romance, 1998). Saiba mais sobre o autor clicando aqui.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Metafísica

Para Aurea

Um amanhecer secreto
Habita teus olhos,
Oscila dentro deles
Uma paisagem
Tão sobrenatural
Que me rouba o canto.

Nessa memória:
toda a metafísica.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Evento - Sesc - SJM


Está aí o folder idealizado por Marko Andrade, cantor, compositor e violonista. Nas horas vagas se diverte ajudando aos amigos e sendo
designer de publicidade. Muito obrigado. Aliás, aguardo vocês todos
por lá.

sábado, 23 de maio de 2009

Mojo Books

No ano de 2007, com a criação da Mojo Books, a convite de Delfin, criei em cima do álbum Racional de Tim Maia o primeiro mojo genuinamente nacional. Hoje o projeto é um sucesso, com autores importantes escrevendo sobre seus discos prediletos. Em uma visita a página descobri que o "meu" Racional está esgotado. Isso me alegrou bastante. Quem quiser pode conferir no link abaixo:


http://mojobooks.virgula.uol.com.br/mojo_inteira.php?idm=12

P.s: Só minha biografia está meio bagunçada.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Você Deve Comparecer

Francisco Slade, ROMANCISTA, grafei assim para que não esqueçam as maiúsculas lançará (Fantasma) no dia 04 de Junho, às 19: 00 h, no espaço Multifoco, no Rio de Janeiro. O recado está dado. Para bom entendor, um pingo é letra. Eu estarei lá.

Avante, Meninas Super - Poderosas!

A minha “obra” acaba de ingressar oficialmente nos círculos acadêmicos. A turma de arte – terapia da UCAM – Universidade Cândido Mendes, capitaneada por Sânzia, resolveu realizar comigo uma longa e deliciosa entrevista no bairro do Grajaú.

A entrevista contou com Fátima, Denise, Lucinha e Luzia. Esta última nossa anfitriã. A recepção terna me emocionou muito, a conversa pontuada por observações inteligentes e colocações sobre meu trabalho de ficção foram pertinentes. Embora me desagrade falar sobre o que escrevo, eu não me neguei ao pedido, portanto saímos todos felizes de lá.

O trabalho fazia parte de uma tarefa da disciplina de Psicopatologia. Os contos escolhidos pelas meninas carregam algo do solicitado pela professora que desejava a palavra viva do artista sobre sua criação. Espero que elas tenham sorte e que sirvam de alguma coisa as bobagens que falei naquela noite. Boa sorte, meninas!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

De Onde Nascem as Histórias



As minhas publicações alcançaram relativo sucesso. Porque ganharam espaço nos jornais, comentadas por colegas pela originalidade e criatividade com que foram desenvolvidas. Não existe criação espontânea. O ponto de partida é às vezes insuspeito, não se apresentando de modo imediato ao escritor. Outras vezes, isso ocorre tão simultaneamente que se não tivermos uma caneta e um pedaço de papel,perderemos para sempre aquela idéia que resultará em uma história.

No meu caso, porque isso é particular, a criação se apresenta para cada um de um jeito, a gênese das minhas histórias se pauta no meu cotidiano e muitas das vezes em minha própria vida, em hábitos condenáveis – isso não quer dizer que sou um pervertido ou a reencarnação de Sade – como o descrito no conto John Fante Trabalha no Esquimó, que dá título ao meu recente livro.

Neste conto, exploro uma mania minha que me custou caro. Sou um aficionado por escritores, quando comecei a trabalhar no Centro do Rio de Janeiro, isso extrapolou, porque via naquele enxame de gente a possibilidade de reconhecer sósias. Nisto não há nada demais. Só que minha resolução era tão ferrenha que me pegava seguindo cada pessoa que tivesse a aparência do escritor de minha obsessão. Parei duas vezes em delegacias. Fui retirado de lá pelo meu patrão, explicando a minha pequena mania ao delegado, que não se convencia muito do que ouvia, preferindo me enquadrar como alguém fora do juízo perfeito.

Outra história interessante ocorreu na rinha de galo em São João de Meriti. Assisti duas ou três vezes esse esporte sanguinário. Em uma dessas vezes um caso curioso me chamou a atenção: um homem conversava com seu galo insistentemente. Parecia que estava instruindo o animal para a briga, mas vendo minha atenção com a cena, um dos homens presentes se aproximou para me esclarecer. Ele sempre estava ali por perto, não regulava bem, deixava de comer para arranjar comida para o galo. Dessa forma nascia a minha história O Filho que está em meu primeiro livro, intitulado Linha de Recuo. Outra influência decisiva foi à leitura do livro Contos de Aprendiz, de Carlos Drummond de Andrade, onde o conto Meu Companheiro* que tratava de assunto semelhante me tocou bastante.


Jonas, A Baleia, pertencente ao conjunto de narrativas do livro John Fante Trabalha no Esquimó, não foi bem recebido pelos críticos por estar presente entre as narrativas com alto teor urbano, caracterizam como uma invasão malévola aquela do fantástico no livro. Isso não me decepcionou, porque a realidade tem muitas camadas, não se pode restringi-la a essa mera percepção de nossos sentidos. Alguém pode nos garantir que nossos sentidos são suficientes para dar conta do mundo? E se existirem percepções que ainda nosso aparelho - isto é, o corpo - não desenvolveu mecanismos para absorvê-las? A leitura da obra Metamorfose, de Franz Kafka, me provocou uma perturbação que reverbera até hoje. Mesmo discordando ficcionalmente de Kafka, por não ter o autor exercido sua estética da crueldade, percebida em contos como Colônia Penal, onde o desenlace sempre me eletrizou, não entendi que esse mesmo clima não estivesse presente no desfecho dessa novela, Metamorfose. Porque simplesmente fazê-lo perecer pela exploração daquela família, ser espezinhado, aturando o sadismo do pai, o descaso da irmã e o asco da mãe? Pensei que poderia reescrever aquela história, sem a carcaça sendo varrida para fora de casa se juntando ao monturo de lixo. Se Gregor Samsa estava sendo devorado socialmente pela voragem das familiares que desejavam ascensão social sem esforço próprio, porque não transformá-lo em um banquete para indigentes? Como está intitulado em um LP antigo de Jards Macalé, por que não instituir o "banquete dos mendigos"? Na minha história ele é devorado.


Nesse mesmo livro, abrindo o leque de contos que o compõe, está uma narrativa intitulada Todos Os Homens São Iguais, onde me aproprio da imagem do ator Charlton Heston para comunicar sobre a questão da humanização/desumanização do homem. É curioso que o próprio Heston tenha abordado isso em um de seus filmes: Planeta dos Macacos. Vendo uma reprise dessa película e percebendo que o ator se alterou em sua essência desde os anos 70, onde defendia idéias liberais, notei que "existiam" dois Charlton Heston. O tema do duplo se impôs o pano de fundo não tardou a aparecer: a situação dos negros norte - americanos. A técnica narrativa de suspensão funcionando maravilhas para fortalecer o desfecho. Tudo isso contribuiu para a construção de uma narrativa forte, envolvente e perturbadora. Termino por aqui para conversar um pouco mais com todos vocês.


Texto para evento do dia 30/05/2009
Sesc – SJM 14:00 h – Biblioteca
Relançamento de John Fante Trabalha no Esquimó
Exposição e bate papo


* Meu companheiro – O homem na estrada pagara mais que o necessário por um cachorrinho, não passava de um vira-lata, mas tinha traços de cães de raça. Levou-o pra casa e já lhe dera o nome de pirulito para evitar confusões. A mulher não era muito chegada a animais de estimação, gostava do bichinho, mas não se aproximava. Ao filho mais novo foi dado o título de dono, porém pirulito gostava mesmo era do homem e ele do cachorrinho. Os dois eram companheiros e se punham a conversar, os meninos até implicavam, pois o cachorro gostava de gente “velha”. Então certo dia o cachorro desapareceu, o homem até pensou ter sido ação da esposa, mas logo desconsiderou, só sabia que o amigo tinha ido embora como muitas pessoas fazem.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sobre Cosmorama


Elaine Pauvolid
para mim

Caro Mariel,
Como te falei andei viajando. Estive fora, e por isso demorei a ler seus poemas todos. Mas agora que os li, posso dizer que além de contista excelente, escritor promissor (por conta da pouca idade e do início no ofício, tal como eu) possui também jeito para poesia, para fazer poemas.

Interessante o movimento que executa. Primeiro um livro de contos, agora um de poemas. Muitas vezes os poetas seguem para a prosa... E é raro ver um contista com vontade de poeta. E seus poemas parecem um grito, um vontade de deixar marca na pedra, deixar seu rastro bem definido.

Não lhe bastou ser contista, ter feito o "trabalho de casa". Com o surgimento de Cosmorama fica parecendo que faltava algo a dizer. Como se o recado fosse: "eu ainda não disse tudo!" E a platéia, que já se retirava do teatro, volta para continuar assistindo o espetáculo.

Acho que o lirismo não está na moda e muitas vezes é confundido com o confessional derramado, com instantes que cabem bem em blogs mas não precisam da eternidade... Não, o lirismo não tem nada disso e seu livro mostra isso.

Ainda que no desenvolvimento de sua escrita você continue fazendo poemas e caminhe para um "abstracionismo", ou que você prossiga na prosa, ou que nada disso importe e você faça os dois, ou vá criar galinhas, neste primeiro fica cunhado um Mariel poeta lírico. E mais ainda que isso, tem jeito para a coisa poema, a que se propôs em Cosmorama. E bom jeito. Parabéns.
Abraços
Elaine Pauvolid

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Minha Mãe

Ela amadurecia o dia
Levado com atenção no ventre,
Ver crescer rente ao corpo a música
Silente da vida que carrega: via

De um amanhecer silencioso onde
Ela costura as sombras diminutas,
Da triste paisagem da carne. Reparte
Alegria como pão em ceia mágica

Ela é minha jóia, ave arauta
Do meu corpo e minha poesia,
O meu lugarejo de descanso
Imensa mangueira lauta.

Eu sei que só ela podia
Dar cabo de minhas angústias,
Quando era menino e fugia,

Não, eu não desejava a vida,
Porque era bem pouca. Desisti
De pronunciar outras palavras
Porque não me vinham daquela boca.

Ela amadurecia o dia
E me vestia como certa roupa
Domingueira. Costura meu corpo
Com a sua poesia: eu a sonho

Durante a canção que componho.

Quando eu morrer

Quando eu morrer,
Uma canção qualquer
Desprender-se-á daquela folha
Que roça o vidro da janela.

Pássaro intranqüilo
De canto indiviso
Trancará minha imagem,
Em vulto longínquo
Sem ensaio algum
Deste ponto da paisagem.

Quando eu morrer,
Determinará números
E sinais certa natureza
Que finitos em beleza
Seqüestrarão toda a metafísica:

Erguidos os ossos do dia,
Quem o manterá aceso?
A natureza mineral do medo?

Meu Pai

a Wilson Scanzi Simon

Desembaraço meu corpo
Das tuas linhas; mínima figura
Surgida do teu ombro. Meus braços
Acenam com assombro
Quando ultrapassas a cozinha.

Teu cheiro de coisa marinha
Entranhado na minha blusa,
Animal de urgências simples
Acende com os olhos o cotidiano.

No chão, nossas sombras
De diferentes estaturas, misturam
O presente e o passado. O teu corpo
Minha bússola acorda o sol cansado.

Estendidos sobre a linha da areia
Revolvendo com os dedos o crepúsculo,
Sob a lassidão do teu músculo repousa
Minha breve fantasia:

Corre louca a sua voz no tempo
Algaravia de pássaros em romaria
Sobre o telhado de nossa casa
Que o tempo consumia

Desembaraço meu corpo
Das tuas linhas, sem notar
Que em meu avanço tua presença
Se esvaía: quando no teu ombro
Ultrapassávamos o pórtico da cozinha
E me confessavas as lembranças
De intimas paisagens marinhas.

domingo, 3 de maio de 2009

Retrato carioca sem maquiagem

O escritor e crítico literário gaúcho Alessandro Garcia escreve também sobre o livro John Fante Trabalha no Esquimó.
Obrigado.
Enviado por Alessandro Garcia -
2.5.2009
17h37m

Em John Fante Trabalha no Esquimó, Mariel Reis une ode à literatura ao relato urbano desglamorizado.O incauto que se deixar levar tão somente pelo que sugere o texto de contracapa de “John Fante Trabalha no Esquimó” (Calibán), poderá achar que este livro do escritor carioca Mariel Reis – seu segundo vôo solo após “Linha de Recuo e outras histórias”, pela Editora Paradoxo, mas também o mais recente depois de uma série de antologias das quais o autor já participou – é uma daquelas obras literárias que encanta apenas aos literatos: é ressaltada a lição que Mariel assimilou da obra de Drummond, é destacado o fato de sermos contemporâneos dos escritores que amamos e é sugerido que seus personagens acompanham os passos de João do Rio, Marques Rebelo ou Moacir C. Lopes. Natural, já que não é preciso um mergulho tão profundo na obra de Mariel para se abobalhar com a quantidade de referências literárias que um bom conhecedor pode encontrar em subcamadas dos textos do autor. Daí a quase inevitável predisposição a querermos analisar sua escrita sob o ponto de vista das sua referências, como se Mariel fosse mais um destes escritores que, envaidecido-se de sua própria função, produz literatura somente para seus iguais, num tatibitate exercício de emular a obra dos autores que o influenciam, para ver-se reconhecido e reverenciado nas conversas de mesa de bar dos “malditos”.
É certo que, nesta primeira impressão que as intenções de sua obra podem passar, depõe contra o exposto acima o fato do título do livro já trazer em si um possível aviso de que o mesmo se pretende partícipe da orgia auto-centrada da qual a literatura contemporânea está encharcada. Afinal, John Fante, um mito para os mesmos adoradores de Bukowski, trabalhando no Esquimó? E, a propósito, que diabos é o Esquimó? Aqui, outro fato infeliz a depor contra o autor na escolha do título: Esquimó, saberão os mais informados (ou aqueles que lerem a apresentação do livro, feita por Marcelino Freire, o que vier primeiro), é um restaurante do Rio de Janeiro – ok, referência local que se explica quando lido o conto-título, mas, Mariel, detalhe dispensável para uma literatura que consegue, felizmente, alçar a difícil condição de suplantar a esfera dos círculos cariocas.
Então, esclarecido o que a ficção de Mariel não é (exercício literário feito para literatos), vamos ao que é de fato: uma obra que consegue dialogar com muita clareza com a tradição literária, sim, uma vez que Mariel transita com liberdade e domínio absoluto em textos que carregam tanto as tintas da literatura clássica, formal; mas, mais do que isto, o texto de Mariel neste seu novo livro atesta o que o autor há tempos vem deixando claro, que é uma habilidade de prosador que transcende as tentações de exibir sua vastíssima bagagem literária, criando uma obra acessível em que as particularidades da cena carioca são ferramentas para a construção de peças urbanas – algumas vezes imersas na inevitável sordidez que relatos na “cidade maravilhosa” se fazem necessários – repletas de malemolências e voleios que conseguem o feito contraditório de manter verossimilhança mesmo em prosas que por vezes se descobrem terríveis fábulas. Muitas vezes metaficcionais, iniciando como se pacatas crônicas autobiográficas fossem e se desdobrando para nos revelar a acidez de um autor não muito predisposto aos finais felizes.
Mariel constrói, em poucas linhas, retratos minuciosos de tipos marginais, duros, ocres, entregando-se a relatos suburbanos com destreza e, diferente de seus contemporâneos, não se deixando levar pelo fascínio que textos desta natureza notavelmente exercem aos seus autores. O conto “A Viagem”, é exemplo claro disto. Em seus contos, o relato ocasional de episódios acima da linha de asfalto que separa os cariocas burgueses dos menos afortunados não apresenta aquele quase fetiche da criminalidade e da pobreza que embriaga prosas urbanas atuais, fruto da imersão de autores desconhecedores deste lado menos glamoroso da urbanidade carioca, mas ainda assim sedentos de relatá-lo, inebriados pela estética violenta e tarantinesca que julgam ser capazes de compor. Vã ilusão. Transitar em terrenos perigosos assim não é para os incautos. Mariel consegue se safar incólume. Aliás, o autor é tão destro na ficção desta natureza, que causa estranhamento que neste mesmo livro uma quase novela, “Por mil demônios”, esteja também inserida. O texto, de temática fantástica, com idas e vindas no foco narrativo, quebra com a uniformidade que o livro até então vinha alcançando. “Jonas, a baleia”, é outro conto que destoa em uma obra que, com exceção destes, consegue manter algo tão importante em um exemplar de contos: regularidade e coerência.
Ainda que no conto que dá título ao livro, o autor (se pressuposto que há autobiografia ali) acalente o “sonho de um dia cruzar, mesmo que com um sósia, com Lima Barreto ou Machado de Assis ou João do Rio”, todos escritores vinculados à tradição de autores observadores da cidade carioca, é fato que não se pode definir a obra de Mariel como prosa de observação. Mesmo quanto flerta com a crônica, Mariel consegue corromper sua fórmula, empregando principalmente grossas camadas de uma ironia que perpassa muitos dos dezesseis contos do livro.
Ao fim de tudo, Mariel consegue se firmar como um dos mais lúcidos autores da nossa safra brasileira. Ao criar principalmente narrativas que transitam na realidade urbana das grandes cidades, o autor mostra destreza ao não filiar-se ao fascínio que este tema costuma exercer, mantendo não distanciamento para que isto não ocorra, mas usando de toda sua habilidade para tentar perscrutar aquilo o que, no fim das contas, é o objetivo de todo grande escritor: a alma humana.

John Fante Trabalha no Esquimó
Mariel Reis
ISBN: 978-85-87025-36-4
Gênero: Ficção - Contos
Preço: R$ 15,00
80 páginas

http://oglobo.globo.com/blogs/paralelos/


http://suburbana.blogspot.com/2009/05/retrato-carioca-sem-maquiagem.html