quarta-feira, 29 de abril de 2009

Ainda a MasterClass

Aguinaldo Silva hospedado no bloglog com link a minha esquerda divulgou uma das centenas de cenas que fora obrigado a ler. A cena colocada no ar pertence a Ronald Antônio, um cubano amante das telenovelas brasileiras. Junto ao envio da cena, ele anexou um bilhete que advertia de sua impossibilidade de comparecer caso fosse escolhido e informando de sua paixão por Vale Tudo, conforme suas palavras uma obra – prima da teledramaturgia brasileira.

A cena criada por ele é bastante criativa, beirando ao realismo mágico, porque torna Cardo um manequim aos olhos da mãe, Perpétua, quando esta flagra Tieta na cama com o sobrinho. Os diálogos são divertidos, ácidos e pontuais, porque não deixam em dúvida de que a megera sabe o que está acontecendo, só está fazendo de conta para mais à frente se aproveitar de toda a situação. Ronald Antônio se mostrou hábil com sua escrita burlesca e se pôs na dianteira no processo de seleção.

Reproduzo abaixo a cena criada pelo cubano. Meus parabéns. E um abraço.



CENA 1. CASA DE PERPÉTUA/ QUARTO DE TIETA/ INT/ DIA.
Continuação imediata da última cena do capítulo precedente. Perpétua ainda chocada. Tieta e Cardo paralisados, debaixo dos lençóis. Muito clima. De repente Perpétua reage diferente, para surpresa dos dois.
PERPÉTUA
Nossa, mas que coisa mais liiiiinda!...
TIETA
(tonta) O... O que, mana?
PERPÉTUA
Isso aí!... Isso aí: o manequim!
TIETA
(sem entender) O manequim?
PERPÉTUA
É sim, o manequim, isso aí que você tem do seu lado, com esse rosto pálido, a cara de bicho assustado, não é um manequim não?
Tieta reage, compreendendo. Ri, seguindo o jogo dela.
TIETA
Ah, sim, sim! O manequim, sim! O “manequim”, mana, claro!
PERPÉTUA
Ah, mas olhando bem... Olhando assim de perto não ta tão bonito não... Com essa cor amarela, até parece que deu hepatite nessa carranca de susto! Lembra mais o meu filho Cardo. Ficava assim, quando não conseguia fazer cocô, com cara de garoto espremido de pressão de vento que nem esse manequim.
Tieta ri, fingindo naturalidade. Cardo nem se mexe: virou mesmo um manequim.
PERPÉTUA
E cê tá fazendo o que aí com ele, mana? Aprendendo a fazer “os primeiros auxílios”, “respiração boca-à-boca”?
TIETA
É mesmo, maninha, é isso aí! Eu tava... eu tava era aprendendo a fazer “os primeiros auxílios, respiração boca na boca”! Lá na cidade é que é comum ver acidentes na rua, pessoas que precisam ser auxiliadas... Eu aprendi lá com o senador!
PERPÉTUA
(finge interesse) A-ah!... E cê tá praticando aí com... “o seu manequim”?
TIETA
Com o manequim, sim!... Quer que mostre para você ver?
PRPÉTUA
(endurece) Não! Eu vou sair logo. (e finge de novo) Quero não atrapalhar seu estágio “com o manequim”.
Perpétua ri, falsa. Tieta ainda tensa, finge naturalidade com seu riso.
TIETA
Tá bom, mana, valeu...
PERPÉTUA
(falsa também) Tchau, minha querida! (ainda demora a sair, mas caminha até a porta) O manequim...
Sai finalmente, fechando a porta.
Corta descontínuo rápido para o corredor, Perpétua ainda perto da porta, seu rosto muda, já não mais finge.
Close dela, na sua expressão grave.
Clima sobe.
Fade out.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Eu, o Sesc e a Literatura

O Sesc – São João de Meriti terá uma atração inusitada para a região: a presença de um escritor. Isso não é uma novidade, porque muitos medalhões da literatura brasileira já passaram por lá, expondo seus trabalhos, sendo entrevistados e batendo papo com a platéia. Eu mesmo só vi alguns escritores de perto porque visitavam o Sesc – isso no tempo em que nem a grana da passagem sobrava para essa coisa supérflua chamada cultura. Porque lá em casa isso tinha um nome que deixava um gosto bom na boca: arroz e feijão. Porque depois de José ou emparelhado a ele, eu e meus doze irmãos não conhecíamos a expressão ou se tínhamos conhecimento dela, não era uma impressão correta, porque atribuíamos a alguns produtos televisivos essa chancela.

Riacho Doce, O Santo que Não Acreditava em Deus, Tenda dos Milagres, O Homem que Falava Javanês e episódios criminais exibidos em genéricos do Linha Direta, programa exibido na emissora odiada pela maior parte dos xiitas comunistas. Lá em Pavuna era comum se discutir como se criou, fortaleceu e consolidou o império da TV PLIM PLIM. Talvez fosse a discussão mais séria nos bares, das pessoas informadas, ditas esclarecidas. Ressaltavam que o monopólio televisivo implantado pela dita cuja era abusivo, em nenhum lugar do mundo as coisas funcionavam assim. Muitas teorias conspiratórias: JK assassinado, Castelo Branco também, Jango injustiçado e só não foi morto, porque apelou para o exílio. O último que iria mudar esse grande país, para os pavunenses, era o Sr. Tancredo Neves. Também morto pelas forças ocultas, como diria esse outro presidente que freqüenta o imaginário da minha terra. Alguns apontavam Glória Maria como testemunha do crime cometido por essa corja que não quer ver o país desatrelado da carroça.

Divaguei. Voltemos ao Sesc – São João de Meriti. Um escritor da nova geração irá até aquelas bandas, no dia 30/05, em um evento que terá inicio às 14: 00 deste dia com uma exposição da trajetória desse individuo, com todos os prós e contras de uma educação pública, convivência lado a lado com problemas sociais e desapontamentos ideológicos. Bem, é melhor informá-los, mas não pela metade, o convidado sou eu – MARIEL REIS. O escritor é bom que ele baixe na hora certa, porque se não a decepção será amarga e o público não perdoará e sairá de lá dizendo que santo de casa não faz milagre. Será mesmo?

Eu e a Literatura

A possibilidade de Cosmorama vir à luz esse ano é grande. Mesmo com contratempos de ordem financeira, porque nesse país não existem editores que não querem uma contrapartida para publicar um livro de poemas, alegam ser um empreendimento de risco, mesmo que o dito cujo venha recomendado por A, B ou C e embrulhado em ouro. Isso não me preocupa ou afeta. Persistirei. A minha editora,se ainda posso chamá-la assim, me sugeriu uma poupança para financiar o livro como uma forma de materializá-lo, disse que me fará bem porque será um exercício de paciência e perseverança. Pois bem, não tenho nenhuma dessas qualidades. Ou melhor, se as tenho, aproveito-as em doses mínimas, porque minha teimosia substitui a ambas e o carro anda. Mesmo com dificuldade ou com certo atraso nos pontos onde deveria estar,dando carona ou apenas me entretendo vendo o pôr do sol. Em suma, o livro irá acontecer: ou por milagre – porque alguém pode se comover com ele, ver o que muita gente de talento enxergou e perceber que o escritor não tem tostão para empatar na jogada; ou por meio de panfleto, mimeografado – a exemplo dos poetas da estirpe do Chacal, porque se deu certo com ele, comigo não daria? Não vejo motivo. A sugestão de se pagar um livro para um sujeito que paga aluguel, escola da filha, passagens de ônibus, que não tem declaração de renda, porque se tivesse o governo se envergonharia de cobrá-lo, é uma necessidade supérflua, que pode ser adiada para um tempo de vacas gordas ou em um tempo de sorte, porque a mega sena não pode sair apenas para caipiras brochas assassinados por louras que não conseguiram nem degustar e que possuem amantes em algum paraíso costeiro do Rio de Janeiro. Isso se Deus estiver mesmo lá em cima, vendo quem merece ou não. Minha pretensão às vezes chega a raias de loucura, vejam só! A editora tem boa índole, talvez não esteja ainda convencida que lucra para a posterioridade, que postumamente o gesto de me fazer o livro será biografável, porque não me furto em afirmar que tenho um lugar nessa estante chamada literatura brasileira. Não sei exatamente em que ordem, mas escrevam, estarei nela junto com alguns poucos.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ao Máximo do Desespero

Não tinha reparado, mas quando meu amigo Máximo Heleno decretou que estamos vivendo às pressas não pude de nenhum modo discordar, porque estava diante do óbvio, sem fuga e, portanto sem argumento para me convencer de que todos os eventos estavam em seu tempo certo. Talvez estivéssemos mesmo transgredindo alguma coisa, porque tudo foi tão rápido, você se lembra Máximo? Desde minha estadia em sua casa, ainda em São Gonçalo, com sua primeira mulher e filhos, quando estava dominado por mil demônios e todos sopravam de uma única vez idéias hediondas e fui recebido como igual, sem nenhum tipo de discriminação, com acesso ao calor daquela família e sem qualquer perspectiva pessoal: a não ser a comum dos homens em estado de desesperança: transformar minha vida em evento, em uma apoteose. Discursava sobre isso, inventava maneiras, aumentava o meu talento e sublinhava aquilo que somente se insinuava nos outros como se pudesse regar com minhas palavras lances futuros que regenerariam a minha orfandade.

As paixões eram uma válvula de escape. O estudo intenso de vida dos escritores, de suas virtudes e vicissitudes. A larga discussão a respeito do Mal, porque éramos apaixonados por esse apêndice e investigávamos os livros sobre sua origem e nos despencávamos no abismo de poetas abissais, sem rede de proteção e sem a ambulância no caso do tombo. Ambicionar a imortalidade, feito um esporte que se pratica todas as manhãs. Como se isso pudesse ser arrancado das visitas aos museus, da leitura das obras imortais, arrancado à força da natureza e lançado à cara daqueles que não acreditavam ou mesmo caluniavam essa busco como impossível ou loucura. Tenho reparado que andamos depressa, sim. Tudo em nós tem essa aceleração que quer se partir, arrebentar essa casca de realidade tão frágil.

Quando meu amigo Máximo Heleno me disse isso, sem as meias palavras dos psicanalistas ou o mistério do adivinhos, tudo se iluminou tão estranhamente que resolvi responder aqui, em aberto, que não importa o que façamos, não podemos desarmar a bomba armada no peito de cada homem, ela irá explodir, cedo ou tarde, sem chance de reconciliação nem consigo mesmo ou com o mundo. Portanto, meu caro Máximo, se as pessoas tem nome e sobrenome e cargo e se ainda não gozam de liberdade, se não assassinaram o algoz cruel que se instala no interior delas e não experimentaram o horror e a delícia de si mesmos, posso lhe assegurar que não estão prontas para esse novo tempo em que o homem precisará se equilibrar sobre arames farpados e dobrar sua alma sobre a imensa lona do amanhecer.

Um abraço meu amigo e nada de desespero e infelicidade, porque ambos vem na hora certa. Portanto, não é preciso apressá-los.

Ainda Sobre a Poesia

Meu contato com a poesia aconteceu muito cedo. Essa precocidade não é indicio de coisa alguma, somente de que me tornei um leitor de poesia com uma idade não recomendável para se iniciar nos perigos que proporciona o gênero tão fascinante quanto cruel. A idade era parte da infância, quando meu pai me deu uma seleta de versos do poeta Camões, que continha parte da lírica. Nesse período se discutia sobre o que pertencia ao bardo português e o que era engodo, em suma não se tinha a certeza de que os sonetos presentes naquele pequeno livrinho poderiam ser atribuídos de fato ao autor das Lusíadas. Lembrando que esse fato estava circunscrito à leitura daquele volume que trazia discussões dessa natureza para uma mente tão tenra quanto ingênua na apreciação daquilo que estava escrito. A Isto entendi de chofre, como diria um amigo português. A dúvida em relação a quem pertenciam os poemas, que centenas de estudiosos se debruçavam para perseguir-lhe as pistas lingüística e semântica – talvez não dessa forma tão clara – sabia que suspeitas recaíam sobre o volume em minhas mãos, mas não me importei.

Aqui no blogue aproveitei esse fato para a construção de um conto – a leitura de Camões como aprendizado para um jovem conquistar uma menina. Não importa isso agora. Falo dessa experiência porque participarei de um evento que focará minha pequena e modesta trajetória existencial que me cobrou algumas memórias em que a escrita estivesse presente e como ela se ligava ao meu desenvolvimento intelectual. Esbocei para os organizadores uma cronologia que invectivava como tal coisa havia ocorrido e pontuei a importância dos festivais de poesia organizados pela instituição da região onde realizava a maior parte de minhas leituras e me inteirava para discussão acerca do assunto com um grupo da Baixada Fluminense. Esse primeiro contato, repleto de misticismo, rodeado de mistérios sobre a realização poética, fundamentou em meu espírito – unido à leitura de poetas de talento inegável – que a poesia é uma arte maior. A prosa nunca se igualará em seu teor, isto por melhor realizada que esteja a um bom poema. Falo isso com pesar porque sou um escritor e não um poeta. A poesia foi uma etapa em minha vida que se extinguiu.

Na Universidade freqüentava muito a biblioteca. Minha vida sempre esteve ligada à elas. No ginásio, no secundário e não seria diferente naquela altura. Na biblioteca do décimo primeiro andar se realizava um evento chamado Versos Diversos, organizado competentemente por uma menina alourada que não me recordo o nome, posso arrisca-lo: Lúcia. Se você, menina alourada, estiver lendo isso e não for Lúcia o seu nome, não me condene. Escreva-me para que eu possa corrigi-lo e dar a minha lembrança à veracidade correta, inclusive nesses pequenos dados. Através desse evento conheci muitos poetas, inclusive alguns que fizeram carreira. Na mesma universidade fui publicado no jornal Comunicando, editado pelo professor Manoel Pinto Ribeiro, levado pelas mãos de uma professora de português chamada Marli Serra – isto se me recordo bem dos nomes, porque sou péssimo com essas coisas.

A universidade me proporcionou coisas maravilhosas. Fora de suas salas de aula. A oficina com Ferreira Gullar foi uma delas. Levei amigos de fora da universidade para assistir as aulas do poeta. Reunidos em uma antologia organizada pelo autor de Poema Sujo, intitulada Próximas Palavras.

Daí para ganhar o mundo não foi difícil. Chegou a vez de ler os poemas no teatro da Candido Mendes, em Ipanema, convidado pela poetisa e editora Helena Ortiz. A noite foi um sucesso. Tenho um caminho ligado tanto a leitura quanto a confecção de poemas, um percurso crivado de autocrítica positiva, reconhecendo quando criei boas coisas e eliminando sem apelação as ruins. Tinha também os longos diálogos com André Ferraz, Maximo Heleno e Luiz França pelos caminhos do CCBB e as intermináveis caminhadas com Jefferson Alves Vieira onde discutíamos tudo. Ali se fundava a humanidade em todos nós. Era um período de folia que a poesia proporcionava e não estávamos desmentidos de que a vida se findaria.

domingo, 26 de abril de 2009

Ensaios Biográficos

Mergulhei na leitura de ensaios biográficos. Na verdade, peças delicadas em que seus autores mesclam técnicas de ficção para narrar a vida de alguns tipos interessantes. O primeiro deles foi o de Hemingway,intitulado Sete Encontros com o Leão, da coleção Encanto Radical, escrito por Eustáquio Gomes.

Neste ensaio, o escritor se utilizou de uma maneira inusitada para descrever a vida do biografado, inventou um repórter que acompanha os passos de Hemingway por todos os lados. Desde Paris junto a Geração Perdida, as aulas de boxe a Ezra Pound às campanhas do escritor na Espanha contra o avanço do fascismo, unindo a isso a cobertura do exílio do autor de Por quem os Sinos Dobram em Cuba e sua morte trágica em sua casa nos Estados Unidos. O texto é informativo, ágil, lembra uma pequena novela em que estivéssemos todos zanzando em algum lugar das paisagens descritas.

Eustáquio Gomes é um escritor brasileiro da década de 70. Publicou trabalhos importantes como Jonas Blau que mereceu atenção da critica à época em que foi lançado, tendo elogios de críticos como Wilson Martins. Também é autor de dois livros que gosto muito: Febre Amorosa e Mapa da Austrália.

Outro ensaio lido foi escrito por Luciano trigo sobre Marques Rebelo, autor do romance A Estrela Sobe, sobre a jovem Leniza que ambiciona ascender socialmente, não importando os meios. No cinema Leniza foi interpretada por Betty Faria em filme de Bruno Barreto. Marques Rebelo é apresentado nesse livro em um mosaico através de cartas, depoimentos e entrevistas do próprio autor concedidas a Clarice Lispector ou ao Pasquim. A Relume Dumará através desse ensaio resgata do ostracismo um grande romancista urbano, descendente de Lima Barreto;Manuel Antonio de Almeida – de quem foi biografo e Machado de Assis. É um retrato fiel naquilo em se é possível com uma personalidade contraditória, irônica e inquieta como a de Marques Rebelo.

Estou lendo nesse instante o ensaio sobre Píer Paolo Pasolini. O comentário ficará para depois.
P.s: A leitura dos ensaios é uma preparação para um projeto para o qual fui convidado relativo as memórias do meu bairro e de seus habitantes "ilustres".

Notícias Sobre o livro Cosmorama

Terminei meu livro de poemas – Cosmorama – com apenas 23 poemas. Isto surpreenderá um leitor de poesia, porque os livros costumam estar inflacionados, ter um número de páginas infinito e na verdade não a qualidade necessária reunida nos poemas que o compõem. Longe disto ser uma regra, mas, como é meu primeiro livro de poemas, mesmo estando próximo do gênero pelo menos há dez anos, não arrisco enxertá-lo com textos que ficaram de fora de uma seleção que contou com leitura de gente especializada e amante de poesia.


A editora parece ter gostado do resultado. Porque o livro chegou às suas mãos experimentado por uma bateria de leitores especiais, que equivalem a um conselho editorial de peso. A isto agradeço a paciência dos meus leitores pelos e-mails insistentes, pelas colocações e interrupções para acerto de cada poema. Não nomearei aqui os meus queridos do " staff", porque escandalizaria a muita gente descrente. Porque eu mesmo estou escandalizado.


Criei um blog para abrigar a primeira versão do livro. As respostas não demorarão muito: um público muito distinto entre si para quem eu divulguei a existência do endereço, pedindo a colaboração com criticas e sugestões para melhorar o desempenho poético daqueles escritos. Surtiu efeito. Não choveram e-mails em minha caixa de entrada, mas as pessoas certas se dignaram a separar um tempo para me dedicar algumas linhas a respeito do trabalho, surpresas por não conhecerem a minha porção poeta.


Convoquei imediatamente um grupo para prefaciar o volume. Isto para o livro se agüentar em pé e chegar as cinqüenta páginas. Maldade! Não foi exatamente por esse motivo. Precisava da opinião de poetas experimentados em criar essa máquina artificial de realidade que atravessa a realidade – o poema. Então apelei para os poderes de três amigos envolvidos até a raiz do cabelo com a criação poética.


A editora me pediu nomes com expressão. Daí comecei a perturbar pessoas como Leonardo Fróes – este não me respondeu o apelo; Nelly Novaes Coelho – não sei se me responderá o pedido; Régis Bonvicino – este espécime raríssima que conjuga poeta e ensaísta (perceberam que ele me respondeu, não?) se dignou a responder e prometeu pensar. A minha listagem passou também pelo poeta César Leal, esquecido, mas um bom criador; Nei Duclós e Carlos Nejar. Um verdadeiro bombardeio para a caixa de e-mails conhecidas para resultar em respostas evasivas ou negativas ou quem sabe poucas linhas concedidas como bilhete de geladeira. Mas vale a pena, mesmo os bilhetes de geladeira servem para calar parte de uma corja que acha que você está se metendo onde não está sendo chamado.

Preferiria os dos amigos. Pessoas que me conhecem a índole retraída, sem as grandiloqüências de inúmeros nomes em orelhas ou do figurão da vez no prefácio.

Um amigo – desses que convidei – me confessou certa vez da dificuldade para arranjar contato com determinados segmentos da cultura,assegurando-me que os poetas eram a missão mais árdua e perigosa, porque conciliar egos representava uma tarefa diplomática sem tamanho, sem tender ao exagero é quase como convencer duas nações inimigas a assinarem um acordo de paz. Duvidei, porque sempre fui um intelectual sem frescuras. Isso se realmente sou um intelectual. E vou aonde me chamam. Quando estou sem a grana da passagem, peço uma ajuda monetária para o transporte. Desde que o fim seja nobre e a platéia não seja hostil. Prefiro platéias hostis, porque impulsionam aos palestrantes a usar a criatividade, a conquistá-los. Soma um sabor a mais ao colóquio.

Encontrei as dificuldades mencionadas por esse amigo. Mas não desisti, fui em frente, invadi a área, roubei a bola no carrinho e passei para o ataque. Não me intimido. Ah, pedi também a dois compositores populares opinião para a orelha: um deles, Jards Macalé, indiscutível talento; o outro não revelarei a identidade para aguçar a curiosidade dos meus visitantes. Adianto, não é o monstro de olhos verdes – Chico Buarque.


Tenho que falar daqueles que colaboraram para minha cruzada; Adriano Espínola e Antônio Carlos Secchin. Meus agradecimentos pelas linhas escritas por ambos para meu volume de poemas.


O livro é indiscutivelmente bom. Os poemas forma lidos por um poeta que não quer seu nome divulgado, mas que colaborou intensamente, sugerindo até um outro nome – Cosmografias. Este não foi acatado. Meu agradecimento a ele, meu herói anônimo.

sábado, 25 de abril de 2009

Masterclass - Aguinaldo Silva

Participei de uma seleção realizada no bloglog do Aguinaldo Silva para uma masterclass de roteiro de telenovela. A experiência foi ótima, mas minha ambição era estar próximo ao escritor Aguinaldo Silva e não do noveleiro. Mesmo que pareça absurdo e convivam em uma mesma pessoa, não representam a parcela de Aguinaldo Silva que escreveu Lili Carabina ou Dez Histórias Imorais. A seleção contou com 1.132 candidatos, se não me engano. Seriam escolhidos 12 eleitos que praticariam a teledramaturgia guiados pelas mãos hábeis do autor de Senhora do Destino. Como já foi divulgada a lista dos pré- selecionados, 40 caras sortudos que se souberem aproveitar a oportunidade, sairão com uma boa bagagem dessa oficina de criação, resolvi postar minha cena que não foi aprovada pela comissão, não ferindo as regras do jogo - como manter o ineditismo até a divulgação do resultado. A tarefa era a recriação da cena da novela Tieta do Agreste em que Perpétua flagra Cardo e Tieta nus na cama e finge uma cegueira.

Cena 1 – casa de Perpétua/corredor para o quarto de Tieta/interior/dia. Perpétua avança pelo corredor, ouve sons abafados vindo do quarto de Tieta, apura os ouvidos. Aproxima-se da porta do quarto.

Perpétua (intrigada) – Que som estranho é esse?


Cena 2 - o quarto de Tieta/interior/dia - Perpétua Abre com cuidado a maçaneta da porta. O quarto está escuro. Tem dificuldade em adequar a visão à escuridão. Dirige-se para o comutador da luz, sem perceber no chão os objetos espalhados pelo sexo furioso realizado entre o sobrinho e a tia. Quando a luz se acende, Perpétua tropeça em um objeto, caindo. Não sem antes flagrá-los, Tieta e Cardo abraçados nus. Finge um desmaio devido ao tombo. Cardo se veste rapidamente acompanhado por Tieta.

Cardo (preocupado) – Mãezinha! (Dá pequenas tapas no rosto de Perpétua). Fale comigo, por favor.

Tieta (triunfante)– Não se preocupe. Vaso ruim não quebra. Mas, em todo caso, vou chamar um médico.

Tieta sai do quarto. Cardo com expressão de culpa e preocupação observa Perpétua que retorna aos poucos ao estado natural.

Perpétua (confusa) – Cardo, meu filho...O que me aconteceu...Parece que desmaei.

Cardo – Não foi nada, mãezinha. Só um mal –estar. Logo tudo estará direito.

Perpétua – E sua tia?

Cardo – Foi telefonar para um médico.

Perpétua – Que santa! Essa minha irmã é uma santa. Deus a guarde e a você também, meu filho. Talvez seja a velhice. Mas, enquanto estive desacordada, conversei com Ele (aponta o dedo para cima), então Ele me mostrou sua Vontade, estava orgulhoso por sua causa, meu filho. Não faça nada que me magoe, porque não suportaria, não se desvie do caminho de sua vocação. A tentação é grande (Exagera nos gestos), mas não se desvie.

Perpétua volta a fingir debilidade devido ao desmaio. Cardo promete em voz queixosa:

Cardo – Não vou me desviar, minha mãe. Não vou.
(Flashback das cenas quentes de amor com a tia lhe passam pela cabeça).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Para Aurea, Sempre

A carne

Antes da aurora
Dissolver a tua carne,
Desfiar teu corpo de figo
Deixai-me colher no tempo
O ramo do teu sorriso.

Antes da palavra
Colher teu silêncio,
Da terra dividir teu perfume
Deixai-me podar parte do teu lume.

Antes do mar
Amadurecer os teus barcos,
A natureza fatigada dobrar o rio
Deixai-me com a terra o teu ardor úmido.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Livro de Poemas Cosmorama

Criei um blogue para abrigar os poemas selecionados e escritos por mim.
São todos dedicados a minha Musa Maior : Aurea. E a minha filha, Isabelle.




http://poemascosmorama.blogspot.com/

terça-feira, 21 de abril de 2009

Opinião Sobre Os Poemas


adriano espinola
para mim
mostrar detalhes
18 abr (3 dias atrás)
caro mariel,

embora deteste ler poesia na tela do computador, gostei muito dos seus poemas; se estes fazem parte do seu primeiro livro, quero lhe dar os parabéns; pude sentir um poeta com forte pegada, sensibilidade e domínio técnico que não se encontram de ordinário em quem se inicia neste duro ofício da poesia; aliás e a propósito, belissimo o seu "um poema para os mortos" (imaginei abrindo o livro); todos os poemas que vc me mandou realmente muito bons ("inventário", "a vida breve", "biografia"), inclusive os haicais ("acode a roupa branca/enforcada na claridade/a luz serpenteia no teto"; "as sombras envelhecem devagar") eles dão bem a medida do seu talento; publique logo o seu livro, meu caro!
desde já o meu abraço e aplauso,
adriano

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Auto Retrato

Animal com mil calabouços
Nos olhos de arbusto,
Cultiva no sopro: o susto
De possuir alma leve.

Nave de sombras e carne
Somada ao perfil enxuto,
Uma galhada de ossos
Em alarde. Ave finge
E fere o crepúsculo
Em tumulto álacre.

domingo, 19 de abril de 2009

Poemas

Os poemas abaixo estão em ordem de qualidade, embora todos tenham um sginificado particular em trajetórias íntimas, ligadas diretamente ao meu amor. Foram feitos para Aurea e lidos para Helena Ortiz quando organizava o Panorama da Palavra no Teatro da Candido Mendes em Ipanema. Outro que escutou e desejou vê-los publicados é Máximo Lustosa, escritor e poeta, que se impressionou com parte do que aí vai escrito. Para satisfazê-lo digo uma novidade: o livro sairá. Já tem um título: COSMORAMA.




Para Aurea


Signo
ígneo
flor de fogo
na linha do muro

Pequeno sol
aceso
lâmpada / combustível
Até extinguir-se

Em pêlos, curvas
linhas estreitas
marcas de unha

II

Amor
Lanças e Sombras
Despenhadeiros e Destinos
Corte no supercílio

Cabelo arrumado em trança
Imóvel - lança-se o cupido
No armário da lembrança

sonha o pequeno deus consigo

III

Linhas
Vãos
Desvios
Mãos.




Eu amo a cor
dos seus lábios
incandescentes
que marcam vivamente
a minha pele
que apela
como lava
para a sua língua
que lavra
meu corpo
com suas palavras.





Mil camelos

carregam os presentes do meu amor

todos brilhantes

diamantes, safiras, rubis

e nos meus olhos vai a tua imagem

por que quando desapareces

eu sumo de mim.



IV


Alegre/ veste a dúvida/ A existência é uma dívida

V

Sonhou a borboleta / Asas de sol e lua/ O olho aberto : o lago




O amor lastreia fogo sob a pele

encoleriza o vento nos cabelos

chama o uivo dos mares

o bramido dos lobos

o amor lastreia sinais

cobre continentes

aumenta águas

com seu sangue


o amor rastreia o jogo
a cisma
a mágoa
aponta em cima

e apaga

a lástima
a dor
mínima?

o amor
em si
já se basta

como basta

pra dois

a rima
do amor
e da palavra




Avião desavisado
na pista do ar
coração siderado
jogado em alto mar
como vento fugidio
pelas janelas do tempo
sigo em pensamento
o seu tipo
por arranha - céus e precipicios
como se fosse encontrar
a sua essência no céu
avião desavisado decola
toda vez que prova seus lábios de mel
virgem puta mãe irmã
santa luz clara manhã
como se em cruz marcasse
em sempre vivas

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Sobre Jim Cluster

Muito obrigado, Sra. Karla Melo. Muito obrigado mesmo.



"Lhe dou os parabéns pelas elipses narrativas, os jogos indiretos de vozes, pelo diálogo entrecruzado. Conto construído com muita ousadia, quebrando o estilo tradicional sem deixar o leitor perdido. Gostei. Querido desculpe a ousadia. Admiro seu trabalho, a linguagem muito particular que você desenvolve nos seus contos, sua bagagem literária e a maneira feroz com que você reivindica seus sonhos; pelo conto e por tudo isto parabéns novamente!

Karla Melo"

Jim Cluster - versão corrigida

a Karla Melo
A maior parte da infância apontava para dificuldades. O comportamento de Jim impressionava, não conseguia se acertar de modo algum. Na escola não aprendia. As reprimendas em casa não surtiam efeito. Passava a maior parte do tempo escapando das aulas. Roubava os cavalos deixados à beira da estrada. Galopava. Quando decidia abandonar o animal e voltar para casa, encontrava o proprietário e seu pai. Ambos com uma cara de poucos amigos.

Ele me confessou que não há maneira melhor para se aprender a cavalgar.



Conheci Jim Cluster em um bordel. Não que estivesse procurando mulheres. Não estava. Bebia. Defendia que aquele era o melhor lugar para um homem beber. Não faltava era companhia para um uísque ou um carteado. Porque nesses lugares sempre se tem uma mesa onde se pode apostar. Disso ninguém duvidaria. As bebedeiras de Jim se tornaram famosas. As brigas mais famosas ainda. Não havia aquele que não contasse alguma história fantástica a respeito dele. Muitos afirmavam que era um homem sem medo. O que não é bem verdade, segundo o próprio Cluster. Só não gostava de passar por covarde. Também se sentia ofendido quando não acreditavam em suas histórias.


As mulheres em sua maioria o achavam bastante atraente. Vestia-se como um vaqueiro. Era alto. Os cabelos: cor de ferrugem. A cara marcada por duas cicatrizes. Uma delas no lado direito do rosto. Uma bem abaixo do queixo. As pernas compridas. Talvez parte da altura devesse a este bom par de pernas. Calçava botas de couro. Blusão xadrez. Era um vaqueiro. Não andava armado. Não sentia necessidade de revólver. Apesar de algumas encrencas engrossarem um bocado. Nunca precisou. Cluster bebia muito. Não se sabia muito dele por aquelas bandas. Sempre ia para cama com a mesma pequena. Ela também pouco sabia de sua história. Afirmava que ele era rápido em se tratando de servir-se dela. Não se demorava muito em cima de mulher. Aliviava-se.


E logo voltava para o balcão para tomar mais um trago.


Quando o conheci trapaceava em um carteado. Mal a confusão estava feita, ele rapou todo o dinheiro da mesa. Abrigando-se atrás dela contra as garrafas que lhe atiravam. Defendeu-se muito bem. Os restantes dos cavalheiros proibiram-no de jogar ali, valendo dinheiro. Se não quisesse ser morto. O que pareceu justo a Cluster, mesmo que isto o aborrecesse.



O pai não agüentando o modo como vivia, resolveu empregá-lo na fazenda. Jim era o responsável pela alimentação dos animais. Nisso se mostrava atento. Não se percebia descontentamento no rosto dele enquanto executava as ordens dadas pelo pai. O primeiro mês passou rápido demais. Começava a ganhar corpo de homem. As mulheres notavam a diferença. As expectativas daqueles olhares faziam com que estremecesse. Perguntou ao pai sobre o que lhe acontecia. O pai se limitou a responder: "Precisa de mulher".


Ajuntou uns cobres para levá-lo consigo a casa noturna. Teve namoradas. Nenhuma séria. Quando o coração descompassava, Jim não tinha dúvidas. Procurava se aliviar - como um animal - na primeira fêmea com que topasse.


Quando o conheci as confissões não saíam com facilidade com que estão escritas. Ele não controlava o turbilhão de coisas que dizia. Atropeladamente. Como para se livrar. Como para se limpar dos martírios.


Ele beijava o crucifixo que trazia por dentro da camisa. Limpava a boca antes de beijá-lo. Os olhos se incendiavam quando isso acontecia. Não houve homem que mais sofreu. Dizia. E descrevia de um modo bastante particular a via crucis. Se chorava é difícil dizer. Porque não se via seus olhos. Sempre cobertos pela aba do chapéu. Quando falava da parte dos pregos que perfuravam a mão de Nosso Senhor para fixá-lo à cruz, tornava-se sombrio. A voz se alterava. Cuspia. Então o ergueram no monte mais alto. Ali rolou como uma bandeira desfraldada. Puída. Sem serventia.


Aquela noite em particular, ele estava inspirado.Não estava à cata de mulheres. Defendia-se de uma solidão que causava calafrios.

Serei, por acaso, guardião de meu irmão?.


Willie você sabe quanto vale a vida de um homem. Desferiu a pergunta. Doeu como um soco. O que é isso. Não matei ninguém. Eu, não, senhor. Eu mesmo, com minhas próprias mãos, não. Não se trata disso. É que eu vi um homem ser morto. Não me sai da cabeça. Primeiro arrastaram ele para um ponto dentro da mata. Eu vinha pela estrada. A noite começava a se despedir. Uma luz fraca do novo dia arrebentava no horizonte. O homem recolhia os copos. Colocava as cadeiras com as pernas viradas sobre as mesas.

Expulsava os bêbados.


Quando estava a uns trezentos metros. Surgiram três homens. E começaram a acompanhar um dos bêbados. Talvez sejam parentes. Pensei. Um pau d'água. Mais um pau d'água para dar trabalho aos filhos. Não me preocupei. Continuei o meu caminho. Quando um dos homens o empurrou para fora da estrada. Não vi mais o cara. A bebida não estava com o efeito de antes. Moera o sujeito a pancadas. Gritavam. Perguntavam alguma coisa. Eles sempre perguntam. Meu estomago revirava-se. Vomitei uma mistura fedida.


As moedas caíam no balcão. Uma nova dose no copo. Quando seus olhos se levantaram. Depararam com os meus. Perguntou meu nome. Willie. Estou a um bocado de tempo em conversa. E não sei o seu nome.


Willie.


Pagou a bebida. Arrumou a gola da camisa. E saiu.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Desculpe o Transtorno, estamos em obra

Paralisarei o blogue por tempo indeterminado. A literatura sofrerá também os efeitos desse congelamento.

Algumas Opiniões Sobre os Poemas

A minha poesia – escassa e tímida – tem leitores muito exigentes. A editora e poetisa Helena Ortiz que me estimula com bastante cuidado e me previne contra as supostas facilidades do gênero. O poeta Armando Freitas Filho que lê e não se desgosta do caminho que tomo em meus escritos. E Jorge Tufic, grande poeta acreano, que vigia, sem perder de vista, esse aprendiz.



---------- Forwarded message ----------From: Antonio Carlos Secchin Date: 13/04/2009 20:44Subject: RES: Poemas - OpiniãoTo: Mariel Reis

Prezado Mariel:
Percebo em seus textos um potencial de qualidade que me leva a supor que você tem todas as condições de se consolidar como poeta. Gosto da imprevisibilidade de imagens da “Biografia”. Bons os haicais (mas é senda muito explorada). Gosto menos do andamento algo binário de “Sobre a natureza” (doente x sadio etc); ainda que você descarte as polarizações, não deixa de evocá-las (Bem x Mal). Acho que “Um poema para os mortos” flui melhor até a quarta estrofe, anterior à profusão de adjetivos da quinta. Um abraço, Secchin.




---------- Forwarded message ----------From: Armando Freitas Filho Date: 13/04/2009 13:47Subject: Re: Novo poema - opiniãoTo: Mariel Reis

Os dois poemas estão bons. Prefiro o primeiro ao segundo. Não gosto da mancha gráfica deles, anforizada, digamos assim. Não vejo razão orgânica para esta disposição. Mas isso é uma questão de gosto pessoal, muito subjetiva, que não deve ser levada em conta.



---------- Forwarded message ----------From: Jorge Tufic Date: 13/04/2009 17:05Subject: RE: Novo P oema - OpiniãoTo: Mariel Reis

Ambos são bons. mas Vida Breve me toca mais. Abs

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Inventário


Para Helena Ortiz

O poema se debateu em mim
como asas de um anjo
que não tivesse lugar no meu interior
– breve
Insinuado
A voz do tempo sussurra ao poeta:
A natureza é seu inventário.

A Vida Breve

Para Máximo Heleno
Todas as palavras
Um itinerário:
De sombras e vazio
No aspecto gráfico.
Um som rouco,
Estalido
De fera e domador
Fundidos
Em solidão.
O poeta sonda
O terreno árido
Da mão
Na rodoviária
De destinos.
Todas as palavras
Um itinerário:
Intestino
Sem comunicação
Canto avesso da ave
Desdobrada da ilusão:
A poesia pergunta
- Sem resignação
Com ódio -
A vida cabe?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Um Poema Para os Mortos


A Leonardo Martinelli

Em algum lugar
Minha voz se alcança
E estilhaça.

Divide méritos
Monturos,
E sobre o fio
Do mundo
- circuncidada -
Arma um pacto
Violento de amor
Entre o sol e a flor,
A pedra e a calçada,
Minha voz segue
Estrangulada.

Combina explosões
No alçapão de sombras.

Em algum lugar
Minha voz se dizima
Longe de si:esconjuro
Ramos de um tempo
Incerto de rimas.
Poetas cavalgam
O escuro,
Animal fluido
Escorrendo
Do olho imenso da noite.

Minha voz
Infinita gangorra,
De deuses lânguidos
E entristecidos
Saudosos das Gomorras
Dos sentidos,
Amando um Rimbaud bêbado.

Joga-se no mar
Da existência
- o berço –
Não sabe se viveu
A parte ou terço,
Do sexo infinito.

Minha voz
É um Prometeu.

Conto Circunstancial

Zilá batia o bolo.

O pote de fermento virado sobre a mesa. As mãos cobertas de massa. Turvaram-se os olhos em duas sombras. Pássaros pavorosos que esvoaçavam do seu íntimo. Não poderia recolhê-los. Debatiam-se nas panelas areadas. Voavam sem caminho. No ar, riscaram um vôo enforcado.Incomodados com a luz. Refugiaram-se novamente sob a sombra dos olhos turvados.

Untou a forma com manteiga. Verificou a temperatura do forno.Ligado há cinco minutos. Saíam espadas de seu coração ferido.Por que ele não me disse? Pensou. Não acudia resposta.

O cão olhava enfarado para as pernas de sua dona, movimentando-se de um lado para outro. Uma agitação estranha. A casa vazia. Um silêncio caminhava com pés de anjo pelos cômodos. A madeira dos móveis estalava. O calor discreto subia pelas coisas.

Ele era casado, ponderou Zilá. Casado. Afogueava-se. Um caldo quente e escuro entornava dos seus lábios, as palavras não lhe resgatavam do estranho sufocamento que sentia. Tirou a blusa para desalojar do corpo aquela sensação. Os peitos enormes caíram por cima da barriga. Nêga não é motivo para aborrecimento. Como não é? Não. Não faça besteira. Expulsou-o do barraco. A véspera do aniversário do mais velho. Dele. Ela mesma não tinha filhos. Dois filhos, como você me esconde uma coisa dessas. Não quis colocar questão. Ah, não quis. Então veria.

Se tinha filho, também tinha mulher. Se tinha mulher, era porque havia traição. A massa estava no ponto. Faltava apenas um ingrediente. Moço, você tem chumbinho?. Claro, madama. Era o aniversário do mais velho. Resolveu mandar um presente. Bateu com força. Ele entrou na cozinha. Está com uma cara muito boa. Comentou. Zilá, quieta, aquiesceu. Que pontinhos pretos são esses?. É chocolate. Como se chama esse bolo?. Formigueiro.

Os olhos pontilhavam o corpo do mais velho, coberto com a correição.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Uma Frase

Li esta frase em uma crônica de Hosmany Ramos. Como destoava do conjunto em que estava inserida resolvi pesquisá-la para descobrir o verdadeiro autor. Seguem a frase e o autor:
"Há, em qualquer infância, uma antologia de mortos". Nelson Rodrigues.