Devia ser este o sonho. Eu pouco me lembro. Mas devia ser do modo inusitado. Minha filha crescida subindo aflita ao meu apartamento. Como sei que era minha filha? Ora, a pinta em sua bochecha. Aflita, me pedia para sentar. Dirigiu-se até a cozinha. Ouvi o barulho de uma colher mexendo em um copo. Voltava a minha filha. Copo de água na mão. Pediu-me que ficasse calmo. As mãos trêmulas. Os olhos parecendo sair das órbitas. Retribui o pedido. Levantei-me para ela se sentasse. Eu estava velho. Não o bastante para ter dificuldade em me mexer. Meu corpo parecia ágil. Era de fato ágil. Meus cabelos embranqueciam-se. Minha pela tinha uma cor passada. Eu estava velho. O computador ligado. Escrevia sei lá o quê. O cursor interrompido piscando. Como a notícia que minha filha me trazia. Devia ser um sonho. A última vez que conversei com minha mulher sobre minha filha, ela me disse: “Casou-se com um estrangeiro. Mora fora.”. Perguntei: “Onde?”. Na França. Lembro que liguei para um amigo que frequentemente estava por lá para perguntar-lhe sobre o bairro. Tive um conforto grande quando soube que o lugar era bom realmente. Quando conheci o seu marido, um sábado, o aniversário dessa vez era o de minha mulher. Meus filhos se revezavam a dançar com ela. Gracejavam as demais visitas. Os meus olhos estavam fixados no cavalheiro que acompanhava a minha filha. Era alto, branco, cabelos aloirados. Tinha olhos azuis profundos. Apertou-me as mãos. O aperto de mão quente, caloroso e forte. Meus filhos – Amim Caetano e João – não demoraram a integrá-lo à alegria da festa. Minha mulher estava vestida lindamente. Rodopiava no colo de Amim. Minha filha com olhos de constelação me segredou: “É o homem da minha vida”. Soprou-me dele, o escolhido, o nome o vento daquela tarde. Agora ela estava ali inquieta. Não sabia para onde olhar. As mãos não encontravam sossego. “Pai”. Tanta dor em uma única palavra. Era a minha filha. A mesma pequenina com medo dos fantasmas que eu inventava. “A mãe”. Teve dificuldade em continuar. Não conseguia me comunicar a ausência que se insinuava em seu corpo. O desespero desenhava-se lentamente nas palavras. Devia ser um sonho. Eu já supunha, através do relato fechado, a sombra que se aproximava. Meu coração contraiu-se. Eu pouco me lembro. Não era esse o trato. Deus não me deu ouvidos. Por que naquela manhã? Comprando flores? Não tinha o direito. Disse a Ele que estaria sempre à disposição, me custaria menos levar meu corpo cansado. Ele não me deu ouvidos. Caprichoso. Meus filhos chegam chorando. Amim esta inconsolável. Só saber dizer: ela está no meu nome pai. Todos vocês estão. João não consegue parar de proferir catástrofes aos céus. Minha filha agora é amparada pelo marido. Diminuo. Achatado pela parede de silêncio que me rodeia. Afasto as fotografias do aparador. Ela está lá, minha mulher, bonita. Vestida como naquele primeiro dia. Deus trapaceou, meu filho custa a entender, trapaceou. Por que não quis levar meu corpo cansado? Por que preferiu a ela? Os outros doentes da rua, por que não os escolheu? Se ela estivesse aqui não me deixaria cometer uma heresia dessas. Bateria na minha boca. Agora aguardo a ansiosa visita. Tenha o rosto que for. Não me importa. Se dura ou caroável. O poeta me empresta indignação e acolhimento em seus versos. A casa está arrumada. A mesa está posta. Sim, a vida não passa de um sonho. Tudo isso não passará do intervalo entre essa noite e outra. Quando voltaremos a dormir. O sonho terá sua dura continuidade. Até que alguém nos conte baixo ao ouvido, como acalanto, também é chegada a nossa hora.
terça-feira, 31 de março de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
Sobre a Natureza do Amor
Para Áurea e Iracema
Não, meu caro Pessoa,
O amor não cabe em dicionários;
E mesmo que intentes capturá-lo
Não poderás. Por que? Então perguntas.
O amor para cada homem
É algo diferente, responderei.
Neste caso, me dirás,
Existem amores
De dois tipos:
Um doente
E outro, sadio.
Nisto não haveremos
De discordar.
O amor, meu caro Reis,
Não possui etérea forma;
Como o líquido,
Ao recipiente,
Se conforma.
Não encontrando
No mundo imagem ideal,
Imiscui-se na natureza
Das coisas.
Não se pode apontar:
- Neste caminho, o Bem;
E noutro, o Mal.
quarta-feira, 18 de março de 2009
REVISTA ZUNÁI
Claudinei Vieira, escritor paulista, quando convidado a ser editor especial da seção de prosa da Revista Zunái, não hesitou em me colocar entre suas opções para publicação. O que é sempre uma honra e uma responsabilidade muito grande. Já está no ar a edição com um conto do meu novo livro John Fante Trabalha no Esquimó. A revista conta com outras colaborações de peso: Gabriela Kimura e Paulo F.É somente uma pena que na chamada para o meu conto meu nome apareça trocado para Mário Reis. Isto não é nada, porque quando se clica nele, a verdade aparece: "A visita", Mariel Reis. Estou grato ao Claudinei Vieira, meu amigo e a equipe da revista que apostou em sua sensibilidade.
http://www.revistazunai.com/ link da revista
Zunái - ANO IV - EDIÇÃO XVII - MARÇO DE 2009
http://www.revistazunai.com/contos/mario_reis_a_visita.htm link do conto
http://www.revistazunai.com/ link da revista
Zunái - ANO IV - EDIÇÃO XVII - MARÇO DE 2009
http://www.revistazunai.com/contos/mario_reis_a_visita.htm link do conto
domingo, 15 de março de 2009
Elaine Pauvolid - Editora da Revista Aliás - resenha John Fante Trabalha no Esquimó
Carta-resenha
sobre o livro John Fante trabalha no Esquimó, de Mariel Reis, editora Calibán
Mariel, acabei de ler o seu livro John Fante trabalha no Esquimó. Desde que conheci seu modo de escrever numa oficina de contos de que participamos na Tijuca, sempre soube que era um escritor. Que possuía, além de uma erudição quel he facilitava as coisas, um estilo todo próprio de escrever. E mais: que sua escritura não havia surgido de uma situação que a favorecesse, muito aocontrário. Até onde eu sei, seu processo de aproximação da escrita foi algo que nasceu da sua paixão pelos textos que lhe chegaram e do desejo de entender e participar deste universo. Por isso meu entusiasmo quando vi seu livro lançado! Por isso saí atrás de você para convidá-lo urgentemente a participar da revista que estou montando agora mais seriamente. Isso sem que o sabe bem... E nós só vamos saber porque o empresário se manteve de costas o tempo todo até o final da narrativa. Você consegue se situar num lugar diferente do queo leitor espera, e aparece num outro canto, surpreendendo-nos, tirando de nós a certeza do controle da leitura. Nada é o que parece ler-se. Parece que você nos diz isso neste conto magistral, para mim um dos pontos altos do livro.
O segundo conto A visita, que foi resenhado para o Jornal do Brasil hoje, dia 14 de março, por André de Leones, como um dos melhores do livro, com o que concordo, leva-nos a uma confusão mental muito similar ao que o personagem parece estar metido. A esse poder de sugar o leitor para dentro do conto ou mesmo vestir o leitor com a prosa a ponto de misturar a realidade com a leitura, chamo de domínio da linguagem pelo artista. Assim como no conto Jonas, a Baleia, nos solidarizamos com alguém que acorda sem caber no quarto e que, em lugar de braços, possui barbatanas que o impossibilitam de abrir a porta. Impotência e enormidade, a baleia num quarto, o fora de hora e de lugar, a incompreensão dos vizinhos que pensam que o inquilino foi engolido pelo animal que não sabe falar para dizer de seu desespero. Nestas fábulas fantásticas, nestes voos imaginários, o autor fala de sentimentos para lá de corriqueiros e conhecido spor todos. Uma metáfora aos dias de hoje em que, como no já mencionado A Visita,o homem quase enlouquece na fuga do mundo real, tentando a salvação, no caso deste conto, em um passado que não consegue enfrentar nem deixar de lado, como uma página que não conseguimos virar. E é mesmo o que acontece no livro quando a angústia de alguns textos nos fazem temer virar a página e encontrar angústia ainda mais aguda. O livro é repleto de cenas que parecem emergir do caos de Hieronymus Bosch - pintor e gravador que viveu na virada do século XV para o XVI - de Pieter Brueghel - pintor do século XVI, conhecido como "O Velho" - e da opressão da literatura kafkaniana. Sem contar com a dureza do mundo cão emc ontos de presidiários, assassinos profissionais e bandidos do tráfico de drogas, a dura realidade carioca, focada com o lirismo que ela permite e que Mariel consegue captar com sua extrema sensibilidade. Outros contos trazem erotismo barra pesada, como o de uma senhora obesa que paga por sexo, mas,devido a suas características físicas e seu modo afoito, acaba fazendo o miché brochar. Ele só se excitará quando ela, no seu desespero de estimulá-lo, acerta uma das fantasias que irão despertá-lo, apontando para possibilidade de erotização do pornográfico e do grotesco mesmo em situações extremas, e humanas, demasiadamente humanas, paracitar o gênio dos grande bigodes.
Também digna de nota é a série dos demônios. São microcontos reunidos no título Por mil demônios . Demônios humanos é o que vemos. Muito diferente dos demônios que costumamos ver por aí, inclusive diferente do demônio que Neil Gaiman, o rei dos quadrinhos, que estreou recentemente como contista e leu seuconto sobre um demônio na FLIP 2008. Cito assim porque não tenho certeza se ele está em Fragile Things (Hardcover, 2006), que me parece ser a estreia dele como contista, salvo engano. Mas não é o seu demônio, Mariel. Os que aparecem em John Fante trabalha no esquimó não são demônios da penitência, são demônios que sofrem como os homúnculos, seres que os perseguem. No mais, Mariel, só posso dizer que aguardo o próximo livro. Não para analisá-lo, mas simplesmente pelo prazer de ler. Seu livro me deu tanto prazer que lerei de novo para reviver o que vivi ali. Acho que é isso que todo escritor quer: que seu livros e torne um objeto de uso da casa, que não seja para ser lido e abandonado,como é o caso do que acontece no conto Orfandade.
Rio de Janeiro, 14 de março de2009.
Elaine Pauvolid
sobre o livro John Fante trabalha no Esquimó, de Mariel Reis, editora Calibán
Mariel, acabei de ler o seu livro John Fante trabalha no Esquimó. Desde que conheci seu modo de escrever numa oficina de contos de que participamos na Tijuca, sempre soube que era um escritor. Que possuía, além de uma erudição quel he facilitava as coisas, um estilo todo próprio de escrever. E mais: que sua escritura não havia surgido de uma situação que a favorecesse, muito aocontrário. Até onde eu sei, seu processo de aproximação da escrita foi algo que nasceu da sua paixão pelos textos que lhe chegaram e do desejo de entender e participar deste universo. Por isso meu entusiasmo quando vi seu livro lançado! Por isso saí atrás de você para convidá-lo urgentemente a participar da revista que estou montando agora mais seriamente. Isso sem que o sabe bem... E nós só vamos saber porque o empresário se manteve de costas o tempo todo até o final da narrativa. Você consegue se situar num lugar diferente do queo leitor espera, e aparece num outro canto, surpreendendo-nos, tirando de nós a certeza do controle da leitura. Nada é o que parece ler-se. Parece que você nos diz isso neste conto magistral, para mim um dos pontos altos do livro.
O segundo conto A visita, que foi resenhado para o Jornal do Brasil hoje, dia 14 de março, por André de Leones, como um dos melhores do livro, com o que concordo, leva-nos a uma confusão mental muito similar ao que o personagem parece estar metido. A esse poder de sugar o leitor para dentro do conto ou mesmo vestir o leitor com a prosa a ponto de misturar a realidade com a leitura, chamo de domínio da linguagem pelo artista. Assim como no conto Jonas, a Baleia, nos solidarizamos com alguém que acorda sem caber no quarto e que, em lugar de braços, possui barbatanas que o impossibilitam de abrir a porta. Impotência e enormidade, a baleia num quarto, o fora de hora e de lugar, a incompreensão dos vizinhos que pensam que o inquilino foi engolido pelo animal que não sabe falar para dizer de seu desespero. Nestas fábulas fantásticas, nestes voos imaginários, o autor fala de sentimentos para lá de corriqueiros e conhecido spor todos. Uma metáfora aos dias de hoje em que, como no já mencionado A Visita,o homem quase enlouquece na fuga do mundo real, tentando a salvação, no caso deste conto, em um passado que não consegue enfrentar nem deixar de lado, como uma página que não conseguimos virar. E é mesmo o que acontece no livro quando a angústia de alguns textos nos fazem temer virar a página e encontrar angústia ainda mais aguda. O livro é repleto de cenas que parecem emergir do caos de Hieronymus Bosch - pintor e gravador que viveu na virada do século XV para o XVI - de Pieter Brueghel - pintor do século XVI, conhecido como "O Velho" - e da opressão da literatura kafkaniana. Sem contar com a dureza do mundo cão emc ontos de presidiários, assassinos profissionais e bandidos do tráfico de drogas, a dura realidade carioca, focada com o lirismo que ela permite e que Mariel consegue captar com sua extrema sensibilidade. Outros contos trazem erotismo barra pesada, como o de uma senhora obesa que paga por sexo, mas,devido a suas características físicas e seu modo afoito, acaba fazendo o miché brochar. Ele só se excitará quando ela, no seu desespero de estimulá-lo, acerta uma das fantasias que irão despertá-lo, apontando para possibilidade de erotização do pornográfico e do grotesco mesmo em situações extremas, e humanas, demasiadamente humanas, paracitar o gênio dos grande bigodes.
Também digna de nota é a série dos demônios. São microcontos reunidos no título Por mil demônios . Demônios humanos é o que vemos. Muito diferente dos demônios que costumamos ver por aí, inclusive diferente do demônio que Neil Gaiman, o rei dos quadrinhos, que estreou recentemente como contista e leu seuconto sobre um demônio na FLIP 2008. Cito assim porque não tenho certeza se ele está em Fragile Things (Hardcover, 2006), que me parece ser a estreia dele como contista, salvo engano. Mas não é o seu demônio, Mariel. Os que aparecem em John Fante trabalha no esquimó não são demônios da penitência, são demônios que sofrem como os homúnculos, seres que os perseguem. No mais, Mariel, só posso dizer que aguardo o próximo livro. Não para analisá-lo, mas simplesmente pelo prazer de ler. Seu livro me deu tanto prazer que lerei de novo para reviver o que vivi ali. Acho que é isso que todo escritor quer: que seu livros e torne um objeto de uso da casa, que não seja para ser lido e abandonado,como é o caso do que acontece no conto Orfandade.
Rio de Janeiro, 14 de março de2009.
Elaine Pauvolid
sábado, 7 de março de 2009
Resenha John Fante Trabalha no Esquimó para Revista Caliban
Obrigado, Luíz Horácio por sua resenha.
JOHN FANTE TRABALHA NO ESQUIMÓ OU A DOR QUE NÃO IMPEDE O SONHO
*Luíz Horácio
*Luíz Horácio
John Fante trabalha no esquimó é um livro violento, quase feroz, afronta a indiferença, tão comum em nossos dias novelescos e “biguibrodianos”, seus contos retratam experiências nunca dissociadas do homem. Sejam elas cruéis, sejam elas oníricas. A dor não impede o sonho. É isso o livro de Mariel, sonho. O sonho que não queremos que chegue ao seu final e o pesadelo rotineiro de quem, por exemplo, vive na rua e cuja vida está por uma garrafa de álcool e um pau de fósforo. Estimado leitor, o cenário das histórias não é nada colorido, a trilha sonora não inspira amor, paixão, tampouco compaixão; mas o autor não se ocupa apenas em passear por esses escombros humanos, Mariel os apresenta como denúncia, não se trata apenas do esfacelamento da dignidade carioca, mas da que se alastra por qualquer parte onde se possa encontrar, em convívio permanente, uma centena de seres humanos. Estará instituída a degradação, a burla, a opressão, a seguir virá o ato da segregação e na cena final se dará o crime, assassinato, roubo, estupro. Triste é saber que esse espetáculo jamais sairá de cartaz.
O sonho que Mariel encerra nas 76 páginas de John Fante trabalha no esquimó é um sonho barulhento, tem sempre alguém sobre o fio da navalha, alguém que será vitimado pela afiada e inevitável lâmina;o homem que salta do ônibus, marcado para morrer, evita o som do revólver do matador , opta pelo som do corpo batendo na estrada. A gorda implorando para poder comprar companhia, o barulho das bolinhas de papel arremessadas pelo homem que vendia futuros ou o som de um homem sendo torturado.
Importante ressaltar que Mariel, feito poucos, consegue harmonizar o literário com o não literário, sua escrita assim como seus personagens, busca equilíbrio sobre um fio de arame farpado, lá em, baixo o abismo incandescentes. Sobrevive a coragem, a ousadia, os pontos vulneráveis, sim, eles existem, é a fragilidade que exige coragem caso você não saiba; e talvez o maior deles seja exatamente essa proximidade do real. E a realidade nem sempre é uma caricia, no mais das vezes, quer nas ruas, quer na literatura, é pura agressividade. Com precisão e sensibilidade de quem observa a vida com inconformismo, Mariel criou uma mistura instigante, soube cativar o leitor, combinou ingredientes estranhos , o resultado não é doce, tampouco chega a ser acido ou azedo, no entanto, não evita o incômodo, a náusea por sermos tão parecidos com certos personagens de Mariel, este ácido flaneur carioca.
Sugiro, atento leitor, que você examine algumas fotos do midiático e oportunista Sebastião Salgado e depois leia John Fante trabalha no esquimó. A forma inversa também será aceita, não alterará o produto. A certeza do equívoco da máxima tosca que diz uma imagem valer mais que mil palavras. Feita essa experiência você saberá a diferença exata entre sensibilidade beirando a ingenuidade e oportunismo vislumbrando cifras.Altas cifras.
Mariel sua obra são pura honestidade e denúncia de nossa precariedade.
Seus contos ora são narrados na primeira pessoa, ora na terceira, a variação não implica em perda de intensidade, em John Fante trabalha no esquimó , o leitor observa uma fotografia do Rio de Janeiro, mas o autor evita os cartões postais, não são obras humanas; o que interessa, a matéria prima dos contos de Mariel é o homem, suas atrocidades, a barbárie envernizada, e uma dose mínima de ilusão .
Recomeda-se bater os ingredientes, servir em copo alto e sorver com o canudo da ironia, aspecto presente de forma sutil na maioria dos contos de Mariel. A abertura com Todos os homens são iguais onde o ator Charlton Eston, interpela o presidente de uma organização, protesta contra o espancamento de um homem negro. Em determinado momento o ator recheia seus argumentos apoderando-se de um rifle. Cabe dizer que o ator, o real, é um dos mais fortes defensores do porte de arma aos americanos.
“Atiraria em homens como aquele com um rifle deste tipo? Só porque desejam justiça, que sejam tratados como iguais e não como gado.”
O auto-ironia também está presente no conto Orfandade onde o fazer literário é despido de qualquer traço de um suposto glamour. “Quanto ao futuro e a tal unidade de que ele me perguntava, eu disse não me preocupar muito sobre isso, porque todas as coisas ao final falam de uma mesma observação, insistem em se escrever sob formas diferentes, às vezes frágeis, então descartadas, outras, fortes, aí aproveitadas mais na frente em uma idéia que a comporte em seu bojo.”
Antes de encerrar peço sua permissão, paciente leitor, nós, críticos, resenhistas nunca deixamos de ser ranhetas, e mesmo frente a obras contundentes, de extrema relevância, como este livro de Mariel, conseguimos encontrar problemas e não conseguimos desprezá-luz, mesmo que quase insignificantes, como no caso. Acontece que tais problemas podem vir a contaminar uma obra e por vezes infesta de modo a não permitir cura, uma promissora carreira. Tais problemas ocorrem nos contos Jonas, a baleia e em Por mil demônios. Nesses momentos o autor abandona o cenário por onde se movimenta com elegância e conhecimento e envereda por terras avessas ao seu projeto estético. O fantástico tornou os contos pueris. A baleia de Mariel remete ao inseto kafkiano, com prejuízo para o autor carioca, o demônio, por sua vez, repousava sobre um ombro e carregava em seu ombro um homúnculo, essa duplicidade do inesperado diluiu o impacto, tornou o conto circular. Mas, como alertei, isso também pode ser encarado como ranhetice de critico. Desconsidere se preferir, generoso leitor.
Aspecto bastante louvável é a coragem de Mariel ao remar contra a corrente do personalismo, do individualismo ou da variação romantismo edulcorado e sexo. John Fante trabalha no esquimó traz abordagens políticas, sociológicas, antropológicas, é quixotesco, não é pejorativo não, apressado leitor, tem a ver com a obra máxima Dom Quixote e é baudelairiano, em sua poesia cortante e no passeio critico pela cidade.
Mariel não foi nada modesto. Conseguiu dar cor à realidade e a solidão que ela encerra. Sorte nossa, privilegiado leitor.
Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, ed.Conex.2006 e Nenhum pássaro no céu, ed. Fábrica de Leitura, 2008. Professor de Literatura, mestrando em Letras
sexta-feira, 6 de março de 2009
Mistérios do livro Linha de Recuo
Até agora nenhum leitor me escreveu sobre determinados contos do meu primeiro livro "Linha de Recuo". Resolvi esclarecer com quais autores e textos alguns dos contos - prefiro narrativas - mantinham diálogo. O primeiro que será postado aqui será Rinha. Neste conto a minha pretensão se estabeleceu em conversar com um texto de Contos de Aprendiz, de Carlos Drummond de Andrade, intitulado Meu Companheiro.
Rinha
um conto de Mariel Reis
A aguardente no balcão. Jonas conversa. A cabeça oscila de um lado a outro como se fosse tombar. As palavras saem engroladas. A fala áspera, entrecortada de palavrões, vai enchendo o ambiente. O dono do bar despeja outra vez a branquinha no copo. As entranhas remexem-se a cada gole. Não se confia em mulher, eu já disse. Homem que confia em mulher é trouxa. E outra talagada. Conta aí, Jonas. Já digo. A puta me fez uma tremenda falseta. Vocês nunca vão entender. Nunca. Sebastiana, mulher de Jonas, entra na venda. Um quilo de arroz. Pode pôr na conta desse pau d’água aí. Jonas levanta o corpo da mesa aos solavancos. O ambiente empesta-se de suas pragas. A mulher sai do armazém sem olhá-lo. Puta, isso é que ela é. Conta aí, Jonas. Vocês não vão crer no que fez esta desgramada. Num domingo de um ano destes, saindo de casa para o trabalho, encontrei o compadre Josemar animado. Numa animação suspeita, se eu o não conhecesse bem. Dizia que eu devia vir. Que a coisa ia pegar fogo mais tarde, pros lados do Tamba. E a minha curiosidade só aumentava. No trabalho minha cabeça não saía desse negócio do compadre Josemar. E no fim do expediente me arranquei pro Tamba. Lá o negócio esquentava. Cada homem que chegava trazia um embrulho embaixo do braço. Do embrulho saíam cabeças de galo. Uma mais enfezada que a outra. Só que não é isso ainda. A briga de galos da noite. Os homens pareciam endemoninhados. Gritando e urrando. Os animais se esporeando. Afinal, meu compadre Josemar me abraçou emocionado, trazendo nos braços o vencedor. O galo com as penas cheias de sangue. Jonas, meu camarada, vou lhe dar um presente assim que chegar lá em casa. E Josemar me deu. O frangote era desajeitado. Mas bonito que só. Cheio de elegância. Posso treiná-lo para quando ficar mais velho. Pra encher de cacete os outros franguinhos da região. Que nem o pai, um vencedor nato. E apontou prum canto onde estava o galo campeão. Embrulhei o bichinho no jornal e piquei pra casa. Lá a mulher me esperava. No portão anunciei a novidade. Sebastiana achou engraçado. Por que não um cachorro, homem? E fechando a cara se enfiou no quarto. Dia e noite eu cuidava do molecote. O melhor milho. Fazia correr em torno do terreiro pro bicho fortalecer os pés. E o bico era afiado na pedra de amolar. Mas de briga mesmo, eu não queria que ele fosse. Era mais uma companhia pra mim. Sebastiana não pegava filho. E aquele franguinho era como se fosse o meu. Só que o diabo não quer a felicidade de ninguém. E tampouco iria querer a minha. Se mudou para minha rua uma dona. Sozinha. Sem homem. E toda vez que eu passava, cumprimentava. Ela com aqueles olhões me lambendo todo. E Sebastiana de longe, espiando. À noite, discussão. Todo tipo de aporrinhamento. E lá ia eu pra rua com meu galinho. Vê-lo estripuliando era minha felicidade. A tal dona, um dia, deu com as costas lá em casa. Sebastiana desconfiada. A intimidade chegou depressa entre as duas. Sebastiana queria era arrancar dela a confissão de que eu adulterava só porque a moça me dava uma atenção terna por causa do meu bichinho. Sebastiana prometendo que iria aprontar uma comigo. Que eu colocasse as barbas de molho. Castigo vem a tartaruga e não a cavalo. E veio. Saí pra trabalhar na segunda. Amarrei o galinho no terreiro. Me despedi dele. Dei um beijo em Sebastiana e recomendei que cuidasse bem do bicho. Quando cheguei a moça ria na cozinha com Sebastiana. Fazendo receita e assuntando coisas de mulher. Sai daqui homem. E no quintal nem sinal do meu frangote. O cheiro forte vindo do forno. Sebastiana assava alguma coisa. A moça veio pra varanda pra perguntar sobre o franguinho. Como ele estava e coisa assim. Falei que ele tinha fugido. O barbante arrebentado. O que saiu do forno foi porco. Ao contrário do que eu pensava. Ela não me daria de comer o meu pobre bichinho. Se fizesse maldade, seria coisa pior. Ela não perdoava a atenção da moça nova pra mim. E o ciúme é uma serpente que abocanha calcanhar. Os dias passaram e já me acostumava com a ausência do meu menino. Sebastiana zombava da minha saudade. Josemar me perguntava do desinfeliz. Eu dava sempre desculpa. Até que disse que tinha morrido. Josemar lamentou e nunca mais me deu cria nenhuma. Espalhou que eu tinha mão ruim. Dinzinho que me esclareceu. Disse: compadre sabe que não sou de envenenar casamento de ninguém. Mas sei o que aconteceu com seu filho. E desfiou que viu Sebastiana ir na direção do rio com um embrulho. Toda vez o embrulho escapulia dela. E ela corria atrás como se estivesse vivo. Eu pescava por ali e vi Sebastiana torcer o pescoço do desinfeliz. Fui pra casa. E dei surra na mulher. Chamei ela de figueira brava. Busquei o corpo do meu menino na beira do rio e dei sepultura decente pra ele. Voltei pra casa sufocado de raiva. A garganta inchando, os olhos vermelhos. E fiz isso com Sebastiana, pra ela nunca mais abusar de inocentes. Quando Sebastiana saiu do armazém todos viram que ela mancava. Os pés enfaixados. Tirei três dedos dela. Pouco diante do que perdi. Um filho, uma vida. E tornou a beber a cachaça. E tornou a empestar o ambiente com os palavrões. A vida não pode ser esse cadinho de desgraça, pode? Perguntava sem querer resposta.
segunda-feira, 2 de março de 2009
John Fante Trabalha no Esquimó no Prosa & Verso
Na edição de sábado do Prosa & Verso saiu uma resenha sobre o livro. Stefania Chiarelli desenha o movimento dos textos competentemente e assinala sua linhagem - nisto, como autor, discordo - e descedência. Adivinhem...Rubem Fonseca. Mas, fora esse contratempo foi ótimo que o livro foi notado. Agradeço ao Miguel Conde que há dois anos atrás já conversava comigo sobre a possibilidade de publicação dessa apreciação em um encontro fortuito em uma das escadarias de Santa Teresa onde topamos um com o outro. Ele,Miguel, indo para o trabalho e eu idem. Ambos em sua correria habitual.
Resta a resenha do Jornal do Brasil que sairá logo. O resenhista não me é misterioso, mas não mencionarei seu nome para os neurastênicos de plantão não acharem que senso investigativo tem relações secretas com favores escusos. O livro vai bem, pelo menos até agora.
Ah, o Rascunho....Mas isso é outra conversa.
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